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10/02/2024 14h00 | Atualizado em 09/02/2024 23h50

Ilê Aiyê 50 anos: bloco pavimentou representatividade afro no passado e busca presença ativa no futuro

Na noite deste sábado (10/2), o Ilê fará a tradicional saída do Curuzu para mais um Carnaval

Ilê Aiyê 50 anos: bloco pavimentou representatividade afro no passado e busca presença ativa no futuro Foto: Divulgação/André Frutuôso
Lucas Pereira

“É o mundo negro que viemos mostrar para você” diz o refrão de uma das mais emblemáticas músicas do Ilê Aiyê, primeiro bloco afro-brasileiro, que comemora em 2024 seus 50 anos de existência e resistência. Na noite deste sábado (10/2), o Ilê fará a tradicional saída do Curuzu para mais um Carnaval.

Expoente da cultura negra na Bahia, no Brasil e no mundo, o Ilê é motivo de “orgulho”, conforme diz Antônio Carlos, o Vovô do Ilê, um dos fundadores. “[Esses 50 anos trazem] um sentimento de gratidão, de orgulho, de ver um sonho almejado ter dado certo. Orgulho de chegar nos lugares e ver as pessoas cantando, dançando”, revelou ao Aratu On.

IMG 3132 2 2Divulgação/André Frutuôso

Ao lado de Apolônio de Jesus e outros moradores da região, o projeto foi fundado em 1974 com a proposta de ser um bloco voltado para pessoas negras, e o nome Ilê Aiyê surgiu em referência ao local onde foi sediado o bloco – o terreiro Ilê Axé Jitolu, localizado na ladeira do Curuzu. Vindo do idioma iorubá em que Ilê significa “casa” e “Aiyê” é algo “terra”, ou seja, o nome pode ser “nossa casa” ou “nossa terra”. Foi com essa busca por pertencimento que surgiu o “Mais Belo dos Belos”.

Apesar de uma resistência de parte da sociedade, inclusive de muitas pessoas pretas, da própria imprensa, a primeira saída do bloco contou com pouco mais de 100 pessoas e, nos anos seguintes, esse número cresceu significativamente, com diversas personalidades e artistas acompanhando esse momento no decorrer dos anos, a exemplo da top model e atriz britânica Naomi Campbell e do diretor norte-americano Spike Lee.

Além da luta pelo espaço dos blocos afro no Carnaval de Salvador, o Ilê representa uma “força necessária, assim como todos os blocos afro”, segundo a jornalista Wanda Chase. “Quando Vovô criou o Ilê, ocorreu uma revolução estética, política, porque os negros, não apenas na Bahia, como no Brasil, tinham uma vergonha de se dizerem negros. […] Então, ele veio para a gente repensar e também para educar”.

Vale destacar que este ano, o Aratu Folia 2024 traz como tema o “Afrofuturismo”, que busca descrever as criações artísticas que, por meio da ficção científica, inventam outros futuros para as populações negras. O tema do Carnaval do Governo do estado será “50 anos dos Blocos Afro, nossa energia é ancestral”, celebrando não apenas o meio século do Ilê, mas também os 75 anos do afoxé Filhos de Gandhi, além dos 45 anos do Olodum e do Malê Debalê, bem como os 30 anos da Banda Didá e os 25 anos do Cortejo Afro.

REPRESENTATIVIDADE

O termo representatividade define bem a essência do Ilê Aiyê, desde as cores do bloco: o branco, que representa a paz; preto, que exalta a cor da pele; o amarelo, para a riqueza cultural e beleza; e o vermelho, que traz alusão para o sangue derramado na luta pela libertação da escravidão e demais opressões.

A exaltação de elementos negros também é marca do Ilê, afinal, a realeza negra coroa todos os anos, a sua rainha, a Deusa do Ébano, é escolhida há 43 anos, antes do Carnaval, na Noite da Beleza Negra, que ocorre no Curuzu e teve uma cobertura especial da TV Aratu. Este ano, Larissa Valéria Sá Sacramento, de 29 anos, foi escolhida para representar o bloco. Algo que, segundo a Deusa, é “uma grande alegria e realização”, ainda mais para ela, que desde pequena é criada no Curuzu e participa dos projetos do Ilê.

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Divulgação/André Frutuôso

De acordo com Wanda Chase, a criação da coroação da Deusa do Ébano veio para dar visibilidade e também mostrar a beleza da mulher preta, em uma época em que os demais concursos de misses e rainhas do Carnaval só focavam em mulheres brancas. “Quando o Sérgio Roberto e o Ilê Aiyê criam a Noite da Beleza Negra, isso fez com que as mulheres se sentissem valorizadas, enquanto mulher. Então faz essa revolução na estética da época, do cabelo, de assumir o cabelo natural, de usar cores fortes, cores vibrantes, né?”
noite beleza
Reprodução/TV Aratu
Segundo Larissa, que também é professora e trabalha com serviços de beleza, é esse o principal legado que ela busca passar adiante, enquanto Deusa do Ébano. “Pra mim é muito gratificante, é um ato de maior responsabilidade também. Desde a participação no concurso, ver os olhos brilhantes, a alegria das pessoas. É fazer desse legado uma responsabilidade ativa para as próximas gerações”, afirmou.
“Todos os valores de uma raça estão presentesNa estrutura deste bloco diferentePor isso eu canto pelas ruas da cidadePra você, minha crioula, minha cor, minhas verdade”
Letra da música “Deusa do Ébano”
RESISTÊNCIA E LUTA

“Através do Ilê Aiyê, dos blocos afro, fizemos essa cidade ficar menos perversa, mas colorida, menos violenta. E o principal, é que, através da música, a maioria da cidade possa se reconhecer como negra, de se achar bonita, de ter orgulho da sua cor, do seu cabelo”, disse Vovô quando perguntando sobre o legado desses 50 anos do Ilê

Sobre as dificuldades encontradas pelo Ilê e por outros blocos afro no que diz respeito a financiamento e patrocínios, a jornalista que vai estar no Aratu Folia, elucida bem a situação, ao afirmar que o Carnaval é dividido em dois: “o Carnaval de blocos e trios e o Carnaval dos Blocos Afro, e somos nós, blocos afros, que contamos na avenida histórias que as crianças não escutam nas escolas”.

Divulgação/André Frutuôso

MAIS 50 ANOS

Vovô analisa que há uma renovação no seio do Ilê Aiyê e que, por meio de recursos vindos de outros projetos feitos, o bloco consegue se manter financeiramente e seguir atuando durante todo o ano, mas ainda é pouco e o Ilê pode reverberar ainda mais: “Através da nossa arte, nosso objetivo é poder participar da mesa da decisão dessa cidade, que é negra, e mostrar que a gente é muito maior, e merece estar sendo lembrado não apenas pelo futebol e pelo Carnaval”.

Com “muita ansiedade”, mas com a confiança e alegria de ostentar sobre a cabeça o título de Deusa em um Carnaval tão significativo, Larissa Valéria afirma com certeza e fé que o Ilê Aiyê está marcado na eternidade. “Eu sempre falo e afirmou que jamais a história do Ilê irá acabar, se apagar. Então, que venham mais 50 anos de tradição, luta e resistência”.

“Eu desejo muitos mais anos para o Ilê e que a gente seja valorizado, que os patrocinadores, as grandes empresas, olhem para nós, coloquem sua marca. Não tenham medo de colocar sua marca, pois nós existimos!”, finalizou Wanda.

PROGRAMAÇÃO DO CARNAVAL

Para além da participação na abertura do Carnaval, na Praça Castro Alves, a tradicional saída do Ilê, partindo da Senzala do Barro Preto, no Curuzu, acontece na noite de sábado (10/2), com concentração a partir das 20h e saída às 21h. Na segunda-feira (19h) e na terça (18h), o “Mais Belo dos Belos” estará no Campo Grande, no Circuito Osmar.

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