Áudio atribuído à CTB sugere articulação para adesivar ônibus em Salvador no segundo turno das eleições 2026
Secretário de Mobilidade, Pablo Souza, afirmou que gravação comprova ação coordenada nas garagens de ônibus durante o segundo turno das eleições
Por Ananda Costa.
Um áudio atribuído a integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) trouxe novos elementos ao caso envolvendo a circulação de ônibus em Salvador durante o segundo turno das eleições presidenciais 2026 em Salvador.

Na gravação, um homem orienta integrantes do grupo a organizar a distribuição de adesivos de campanha nas garagens das empresas de transporte e determina que os materiais sejam colocados nos veículos antes da saída para as ruas.
No áudio, o interlocutor pede que integrantes da CTB assumam a responsabilidade pela distribuição dos materiais em garagens específicas. Ele também menciona pessoas identificadas pelos apelidos de "Cara de Cavalo", "Maurício Putaria" e Agnaldo, que ficariam responsáveis por diferentes plataformas.
Em outro trecho, o homem explica que não havia adesivos suficientes para toda a frota e orienta que a colagem fosse realizada apenas nos ônibus que efetivamente sairiam das garagens. A recomendação era colocar o material na parte dianteira dos veículos, do lado do passageiro, sem atrapalhar a condução dos motoristas.
"Não tem material para todos os carros não. Então a gente tem que chegar na hora, pegar na mão do operador o número dos carros que vão sair para a gente colar apenas nos carros que vão sair", diz um trecho da gravação.
Secretário de mobilidade comenta sobre o áudio
O conteúdo foi comentado nesta sexta-feira (30) pelo secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, durante uma coletiva de imprensa. Segundo ele, a gravação demonstra que a mobilização não ocorreu de maneira isolada, mas teria sido organizada em diferentes garagens da capital baiana.
Durante a coletiva, Pablo Souza afirmou que a ação provocou atrasos na operação do transporte público no domingo de votação. De acordo com o secretário, os ônibus eram parados na saída das garagens para a colocação dos adesivos e, em algumas situações, motoristas também eram convidados a declarar apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"Esse áudio comprovou que ela não foi apenas em uma garagem, ela foi sistemática, coordenada em todas as garagens de ônibus da cidade de Salvador", declarou.
O secretário atribuiu a mobilização a apoiadores de Lula ligados aos sindicatos rodoviários e afirmou que a prática prejudicou a saída dos coletivos. Ele também identificou o presidente do sindicato dos rodoviários, Fábio Primo, como responsável pela gravação.
Pablo classificou a situação como uma possível prática criminosa e disse que os envolvidos deverão prestar esclarecimentos às autoridades. Segundo ele, o áudio será anexado ao processo que acompanha o caso.
O Aratu On entrou em contato com a CTB para confirmar o áudio e saber mais detalhes sobre o caso e aguarda retorno.
Documentos
Documentos obtidos pelo jornal O Globo apontam diferenças entre a programação de ônibus preparada pela Prefeitura de Salvador para o segundo turno das eleições e os horários normalmente praticados em dias úteis. Em algumas linhas, os intervalos previstos para o domingo (25) eram maiores.
As informações constam em documentos encaminhados pela gestão municipal ao Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com a publicação, um ofício enviado às empresas de ônibus no dia 19 de outubro detalhava como deveria funcionar a operação durante a votação.
A comparação feita pelo O Globo levou em consideração os horários previstos nesse planejamento e os intervalos divulgados pela própria Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) para dias úteis. Entre as linhas nas quais foram identificadas diferenças estão itinerários que atendem regiões como Pirajá, Mussurunga, Lapa, Patamares e Sete de Abril.
Intervalos maiores

Na linha 1328, entre as estações Pirajá e Mussurunga, por exemplo, o planejamento eleitoral estabelecia intervalos de 40 a 50 minutos. Nos dias úteis, a frequência informada pela Semob varia de 25 a 30 minutos.
Na linha 1246, que liga Pirajá a Patamares, a diferença era maior: o planejamento para o domingo previa intervalo de 70 minutos, enquanto a frequência regular indicada para os dias úteis é de 22 minutos.
Situação semelhante foi apontada na linha 141, que atende o trecho entre a Estação da Lapa e o Hospital Geral do Estado (HGE). O intervalo previsto para o dia da votação era de 55 minutos, ante 22 minutos nos dias úteis.
Já na linha 1324, entre a Estação Pirajá e Sete de Abril, a programação eleitoral previa intervalos de 40 a 50 minutos. A frequência indicada para os dias úteis é de 26 minutos.
A resolução da Justiça Eleitoral estabelece a oferta gratuita do transporte coletivo no dia da votação e determina que o serviço tenha frequência compatível com a praticada nos dias úteis.
O caso provocou uma disputa política em Salvador. O PT, partido do governador Jerônimo Rodrigues e oposição ao prefeito Bruno Reis (União Brasil), acusa a gestão municipal de ter reduzido a oferta de ônibus para dificultar o deslocamento de eleitores. A Polícia Federal deve investigar o episódio após solicitação do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA).
O que diz Pablo Souza

O secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, afirmou nesta terça-feira (27) que a operação preparada para o segundo turno seguiu o mesmo modelo utilizado no primeiro turno. Segundo ele, o planejamento não previa a circulação de 100% da frota utilizada nos dias úteis, mas teria sido elaborado para garantir frequência suficiente para atender aos eleitores.
“A Secretaria de Mobilidade planejou a mesma operação do primeiro turno para atender ao segundo turno, com a mesma frota. Salvador nunca, em sua história, e conversei ontem com diversos gestores de mobilidade do país, que me trouxeram a informação de que outras capitais também não fizeram isso, adotou 100% da frota em um dia de eleição. A resolução do TSE não determina isso. Ela determina que a gente adote uma frequência adequada”, afirmou em entrevista à rádio Antena 1.
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