Contaminação em São Tomé de Paripe completa seis meses e ainda afeta moradores
Seis meses após o surgimento de líquidos azul e amarelo na faixa de areia, a contaminação em São Tomé de Paripe continua impactando pescadores, marisqueiras, ambulantes e comerciantes
Por João Tramm.
Praticamente seis meses após o surgimento de líquidos de coloração azul e amarela na faixa de areia da Praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, moradores ainda convivem com os impactos da contaminação em São Tomé de Paripe. A interdição de parte da praia e a redução da atividade pesqueira alteraram a rotina de pescadores, marisqueiras, ambulantes e comerciantes que dependiam da movimentação no local para garantir o sustento.
O caso ganhou repercussão em fevereiro, quando moradores registraram o aparecimento das substâncias na areia. Em março, análises preliminares do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) identificaram altas concentrações de nitrato (NO₃) e cobre (Cu) no líquido azul, além de nitrato no líquido amarelo. As substâncias foram encontradas no sedimento arenoso durante inspeções realizadas na área.
Como medida preventiva, o Inema interditou um trecho da praia, bastante utilizado por banhistas, pescadores e moradores da região. Além disso, Salvador chegou a decretar situação de emergência ambiental diante do cenário.

Moradores ainda enfrentam prejuízos após contaminação em São Tomé de Paripe
Em entrevista ao Aratu On, a moradora da região Williane Tavares afirmou que a praia, antes uma das mais frequentadas de Salvador, perdeu grande parte do movimento desde o início da ocorrência.
"A Praia de São Tomé de Paripe era uma das principais da cidade, vivia lotada. Hoje os comerciantes estão sem seu ponto e os marisqueiros perderam o sustento", afirmou.
Segundo ela, alguns comerciantes deixaram os pontos de venda e muitas famílias precisaram buscar outras formas de garantir renda. "A gente quer trabalhar, quer a praia limpa", resumiu.
Williane também lembra que a comunidade recebeu assistência nos primeiros meses da ocorrência, mas afirma que, desde então, não houve novas ações ou providências voltadas aos moradores.
Associação aponta mudanças na realidade das famílias
Uma das representantes da Associação de Moradores, Joilda Borges, afirma que a interrupção das atividades modificou a realidade de diversas famílias da comunidade.
Segundo ela, uma das prioridades é atualizar o cadastro das pessoas afetadas para que os órgãos responsáveis tenham um retrato mais fiel da situação.
"Tem pessoas que já não estão mais nos pontos e outras que passaram a trabalhar nesses espaços. A gente está tentando atualizar essa lista", explicou.
Ela ressalta que permissionários, ambulantes, pescadores e marisqueiras continuam entre os grupos mais impactados pela paralisação das atividades na praia.
Pescadores relatam redução da fauna marinha
Outro reflexo apontado pelos moradores é a diminuição da fauna marinha na região.
"Não existe mais fauna marinha. A gente procura e não acha", afirmou Joilda.
Ela relata que pescadores e marisqueiras dizem não encontrar mais peixes e mariscos na área onde antes realizavam a atividade, o que tem dificultado a retomada do trabalho. Uma tartaruga também foi encontrada morta nas águas da região.
Imagens enviadas pelos pescadores ao Aratu On mostram líquidos sendo despejados no mar no local onde funciona o terminal. Segundo os morados, a diversidade reduziu após os despejos de materiais como esse. Veja vídeo:
Moradores ainda coletaram o líquido e apontam que todo animal que entra em contato com o produto coletado morre. Não só os marítimos, mas também formigas e insetos.
Prefeitura realizou ação emergencial para famílias afetadas
Em maio, a Prefeitura de Salvador iniciou uma ação emergencial voltada para pescadores, marisqueiras e ambulantes da região.
Coordenada pelas secretarias municipais de Promoção Social (Sempre) e Especial do Mar (Semar), a iniciativa atendeu 626 famílias previamente cadastradas com distribuição de cestas básicas, atualização do Cadastro Único (CadÚnico) e orientações sobre programas sociais, como o Seguro-Defeso.
Já a Intermarítima, administradora do terminal portuário localizado próximo à área, informou que não movimenta produtos químicos perigosos nem materiais de coloração azul ou verde. A empresa também afirmou que inspeções realizadas pelo Inema constataram que suas operações estavam de acordo com a licença ambiental.
Enquanto as investigações sobre a contaminação em São Tomé de Paripe continuam, moradores aguardam a conclusão das análises e a recuperação das condições da praia para retomar as atividades que, durante anos, garantiram o sustento de centenas de famílias da comunidade.

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