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05/02/2024 10h30 | Atualizado em 05/02/2024 10h55

Bloco ‘As Muquiranas’ tenta reconstruir imagem em Carnaval sem pistolas de água

Estigmatizados pela prática, considerada de mau gosto, os travestidos mais famosos da folia em Salvador, neste Carnaval, têm o desafio de reconquistar seu público.

Bloco 'As Muquiranas' tenta reconstruir imagem em Carnaval sem pistolas de água Foto: Arte/Tiago Oliveira
Dinaldo Santos

Foliões do bloco “As Muquiranas” apostam na irreverência e criatividade para resgatar o brilho perdido pela agremiação, ao longo dos últimos anos, por conta do uso inadequado das pistolas de água, no Carnaval de Salvador.

A situação havia tomado proporções incontroláveis e para conter a “brincadeira” que gerava mal-estar, foi necessário a criação de uma lei, regulamentada no dia 29 de janeiro, quando o governo baiano proibiu o uso do artefato em festas populares, no estado.

Estigmatizados pela prática, considerada por muitos de mau gosto, os travestidos mais famosos da folia, na capital baiana, têm o desafio de reconquistar um público construído há quase seis décadas.

Em 2024, “As Muquiranas” completa 58 anos de muita tradição na Festa de Momo. Mas, infelizmente, a boa relação que o bloco tinha com o seu público, anda estremecida.

A pistola de água, utilizada pelos associados, se transformou em um objeto temido nos circuitos do Carnaval, já que, de forma indiscriminada, as pessoas passaram a ser alvos dos disparos de algumas “muquiranas” e, por vezes, a atitude provocava constrangimentos.

A “ranhura” que a “brincadeira” causava ao bloco, há algum tempo, incomodava, não só, a gestão, mas também a um número significativo de integrantes, ao perceber que estavam perdendo a simpatia do povo pelas ruas.

A pistola de água, porém, nunca foi um acessório fornecido pelo bloco e não tinha o seu uso defendido pela entidade carnavalesca. Segundo o empresário e responsável pela instituição, Washington Paganelli, a cultura foi criada por um pequeno grupo e acabou se alastrando sem qualquer incentivo de sua gestão.

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“Inclusive nós deixamos de contratar uma atração que animava o bloco porque fez uma música que induzia o folião ao uso da pistola. “Depois disso, nós não renovamos mais com eles”, disse ao Aratu On, sem querer mencionar o nome do artista.

Contudo, a nossa reportagem verificou que, em 2012, a banda Saiddy Bamba foi uma das atrações do bloco e, em seu repertório, a música “Pistola do Amor” fazia alusão à polêmica atitude dos integrantes.

Paganelli acredita que a nova lei terá total adesão da população e que o Carnaval promete ser mais seguro para o público feminino (principal alvo das pistolas), bem como para a imprensa, músicos e técnicos de som, que estavam sujeitos a prejuízos por conta do contato da água com equipamentos eletrônicos.

O dirigente do bloco salientou que, antigamente, não usar o artefato era uma recomendação, mas agora é uma norma e quem não concordou com a regra, não comprou a fantasia. “Nós só queremos no bloco aquele que cumpre a lei. Esse ano, nós conseguimos numerar a fantasias, o folião que burlar, no próximo ano, será excluído”, garantiu.

IRREVERÊNCIA E CRIATIVDADE

Muitos, entres os foliões que usavam as pistolas de água, perceberam bem antes de a proibição ser regulamentada, que a atitude prejudicava a imagem do grupo e começaram a se desvincular da “brincadeira”.

O auxiliar administrativo Tárcio Tavares de Souza, de 28 anos, participa do bloco desde 2012. Totalmente a favor da lei, ele contou que deixou de usar a pistola em 2017 e começou a utilizar urso de pelúcia e pirulitos de coração como objetos de entretenimento.

“Inclusive, tenho registros de 2017 até hoje, com o mesmo ursinho panda que levo comigo: ele curte mais do que eu”, brincou.  Tárcio disse também que seu pai sempre foi associado do bloco e já lhe alertava para deixar de fazer uso do brinquedo.

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“Ele me dizia que as pessoas não iriam me olhar por conta do uso da pistola, mas sim por conta da minha irreverência, por aquilo que eu tinha a presentar e pelos adereços da minha fantasia”, comentou.

O corretor de seguros, de 37 anos, Leandro Mascarenhas, conhecido como Leo Nicuri, sai no bloco desde 2006 e classificou a decisão do governo como: “Maravilhosa!”. Amante incondicional do bloco, o folião tem uma tatuagem na perna, alusiva às Muquiranas, desde que saiu pela primeira vez.

Leo relatou que aposentou a pistola há mais de dez anos e ficava entristecido com o que via. “Não são todos! São uma minoria. Porém, se o cara está com um cassetete batendo nos outros e eu estou também com um cassetete, mesmo que não esteja batendo, me faz sentir que sou igual a ele”, avaliou.

Nicuri contou que decidiu abandonar e usar a criatividade: “eu saio com pirulito, com kangoo jump no pé. No ano da fantasia das baianas, inclusive, eu saí batendo massa de acarajé. Então é isso que eu estou querendo, que As Muquiranas usem a criatividade pra voltar a ser o que era”, defendeu.

Para o técnico de segurança do trabalho, Alan do Nascimento Bonfim, a ideia da pistola era diversão, mas acabou virando agressão. Ele tem 36 anos, há 15 sai no bloco e acha que a lei é essencial, considerando que as pessoas não queriam mais seguir o grupo.

“Acho que agora o bloco vai voltar a ter o brilho de antes, com as pessoas do lado, acompanhando a gente, principalmente, as mulheres que gostavam do nosso desfile”.

Alan também admitiu que há algum tempo já havia desistido de usar a pistola para não ser mais um e meio àqueles que faziam mau uso da “brincadeira”.

A LEI

A lei nº 14.584 foi regulamentada, no último dia 29 de janeiro, através da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM), proibindo  a utilização de “pistolas de água” e similares durante a folia e em outras festas populares de rua em todo o estado.

De acordo com a titular da SPM, Elisângela Araújo, a política tem o objetivo de garantir a segurança das mulheres que forem curtir as festas. “A gente acredita na prevenção e na sensibilização das pessoas para acabar com esse tipo de violência machista e misógina dentro do nosso Carnaval, que é uma festa linda e o mundo ama”, disse a secretária.

CONTROLE

Para que a determinação seja cumprida, as pistolas de água serão recolhidas logo nos portais de acesso dos circuitos do Carnaval e dentro dos espaços da festa. O governador Jerônimo Rodrigues destacou que as medidas adotadas são para acabar com esta prática. “Para além de apreender as pistolas de água, o nosso principal objetivo é criar um ambiente de tranquilidade e entendimento das pessoas, para que internalizem que essa não é mais uma prática aceitável e liberada”, frisou.

De acordo com o governo do estado, diálogos também já foram realizados com diretorias de blocos, agremiações e demais organizações vinculadas aos festejos, para que adotem meios de impedir a utilização das “pistolas de água” por foliões e associados através de campanhas educativas e penalidades. Nesses espaços, também vão ocorrer fiscalizações por agentes identificados para orientação dos foliões e associados e cumprimento do decreto.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) firmou com o bloco As Muquiranas um termo de ajustamento de condutas (TAC) como ação de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres. As pistolas de água recolhidas serão encaminhadas, através da SPM, para cooperativas de reciclagem lideradas por mulheres.

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