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Esposa de motorista baleado por PM relata reviravolta na vida da família e avanço na Justiça da Bahia contra policial preso

Motorista baleado por PM enfrenta limitações para andar e trabalhar após novas internações; esposa assumiu o sustento da família, e casal precisou sair de casa

Por Dinaldo dos Santos.

A vida do motorista baleado por um PM em Salvador mudou após o episódio que o deixou com limitações físicas e impossibilitado de trabalhar. Quase dois meses depois de ser atingido por disparos de arma de fogo, Cirilo Sahade ainda enfrenta dores durante a fisioterapia, dificuldades para movimentar o joelho e depende da ajuda da esposa para realizar tarefas cotidianas.

Em entrevista ao Aratu On, Samile Sahade relatou que o marido passou por novas internações, foi diagnosticado com uma infecção óssea e precisou deixar temporariamente a própria residência.

Enquanto Cirilo se concentra na recuperação, Samile assumiu o sustento da família. O casal, que tem menos de um ano de casamento, está morando provisoriamente com familiares, já que as escadas da residência onde vivia dificultam a locomoção dele.

Cirilo e Samile estão casados há menos de 1 ano. Foto: Acervo Pessoal

Motorista baleado por PM enfrenta dores e limitações na recuperação

Segundo Samile, Cirilo ficou 16 dias internado inicialmente. Após receber alta, passou apenas três dias em casa antes de precisar retornar ao hospital, onde permaneceu por quase outras três semanas.

A nova internação ocorreu após o agravamento do quadro clínico. Cirilo foi diagnosticado com osteomielite, uma infecção que atinge os ossos. A família não sabe exatamente quando o problema começou. Samile relatou, porém, que o marido continuou apresentando episódios de febre após uma segunda cirurgia, ainda durante a primeira internação.

O período de internações também provocou abalo emocional. Samile contou que o marido ficou muito sensibilizado com as complicações. “Chegou a chorar dizendo que era melhor que cortasse uma perna, relatou.

Foto: Acervo Pessoal

Fisioterapia ainda provoca dores intensas

Mesmo após a melhora do quadro infeccioso, a recuperação dos movimentos continua sendo um desafio. Segundo Samile, o longo período de imobilização comprometeu a flexão do joelho, onde também surgiram fibroses e houve um derrame articular.

A limitação exigiu uma mobilização cirúrgica. Sob sedação, o joelho foi dobrado durante o procedimento para tentar recuperar parte dos movimentos. Ainda assim, Cirilo não consegue flexionar a articulação até 90 graus, conforme a esposa.

A fisioterapia tem sido dolorosa e difícil de acompanhar, inclusive para os familiares que o acompanham durante as sessões. “Ele diz que dói mais fazer fisioterapia do que ter levado um tiro”, contou Samile.

Atualmente, de acordo com ela, o marido precisa de ajuda até para ir ao banheiro. A recuperação da mobilidade é importante para que ele volte a realizar atividades cotidianas com mais independência.

Motorista baleado por PM enfrenta dores e limitações. Foto: Acervo Pessoal

Impossibilidade de trabalhar reduz renda familiar

Antes de ser baleado, Cirilo trabalhava com entregas para a Amazon. Formado em Administração, ele havia recorrido à atividade após enfrentar dificuldades para conseguir emprego na área de formação, explicou Samile.

Com as limitações físicas, ele está impossibilitado de trabalhar. A esposa afirma que, neste momento, assumiu a responsabilidade pelo sustento da família enquanto o marido concentra os esforços na recuperação.

O casal também precisou deixar a própria residência. O imóvel tem muitas escadas, o que dificulta a circulação de Cirilo, que ainda não consegue subir ou descer os degraus com segurança. Por isso, os dois estão morando temporariamente com a mãe dele, enquanto buscam uma casa alugada que ofereça condições adequadas para a recuperação.

Cirilo já teve um benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aprovado, mas o valor não substitui a renda que obtinha com o trabalho. “O INSS é um salário mínimo, então não é uma renda que supre de verdade a falta do trabalho”, afirmou.

Além da redução dos rendimentos, a família enfrenta os custos de reorganização da moradia e as despesas decorrentes da nova rotina. Samile diz esperar uma compensação financeira pelos prejuízos, mas não confirmou, durante a entrevista, se já foi ajuizada uma ação específica de indenização.

“Estamos deixando nossa casa para trás, estamos com a vida completamente revirada e precisamos que exista uma compensação justa por todo esse transtorno”, declarou.

Esposa contesta versão de briga de trânsito

Além das dificuldades enfrentadas durante a recuperação, Samile acompanha o andamento do processo criminal contra o policial militar Rodrigo Wanderley Ramos Bonfim, apontado pela investigação como autor dos disparos que atingiram Cirilo em 24 de agosto de 2026.

Em atualização publicada em 12 de outubro, o Aratu On informou que a Justiça da Bahia recebeu a denúncia e o aditamento apresentados pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA). O policial tornou-se réu e responderá pelas acusações descritas na ação penal. O caso tramita na Justiça comum, e o acusado está preso desde setembro.

Foto: Reprodução | Vídeo

O recebimento da denúncia dá início à ação penal, mas não representa condenação. A responsabilidade criminal do acusado será examinada ao longo do processo.

Ao comentar o andamento do caso, Samile afirmou que considera positivo o avanço da investigação e espera que o acusado seja responsabilizado. A família também pretende buscar ressarcimento pelos prejuízos financeiros.

A esposa contesta, também, a classificação do episódio como uma briga de trânsito. Segundo ela, houve uma colisão na traseira do carro de Cirilo, seguida da reação do policial.

“Não foi uma briga de trânsito. Quando ele foi socorrido, ainda estava com o cinto de segurança dentro do carro. Ele não brigou em nenhum momento, não alterou a voz, não discutiu”, afirmou.

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