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28/06/2024 09h00 | Atualizado em 28/06/2024 09h11

Aratu On Explica: Por que a LGBTfobia é maior na Bahia e no Nordeste?

No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, Aratu On investiga as raízes e apresenta os resultados da LGBTfobia no estado, e em toda a região

Aratu On Explica: Por que a LGBTfobia é maior na Bahia e no Nordeste? Foto: Reprodução/ Grupo Gay da Bahia
Anna Caroline

Em meio ao mês do orgulho, com bandeiras levantadas e logomarcas coloridas, o Brasil mantém um triste recorde, em ser o campeão mundial de homicídios e suicídios da comunidade LGBTQIAPN+. Com 257 mortes violentas documentadas e uma morte a cada 34 horas, de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), o país continua a ser o mais LGBTfóbico do mundo.

Neste Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, 28 de junho, o Aratu On levanta um questionamento: Por que a LGBTfobia é maior na Bahia e no Nordeste? Por meio de análises culturais e sociais, e com base em dados coletados na mídia, em sites de pesquisa e em correspondências enviadas ao GGB, a reportagem buscou entender essa realidade.

Apesar das conquistas, como a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de criminalizar a homofobia e a transfobia, equiparando esses atos a crimes de racismo inafiançáveis e imprescritíveis, e a obtenção de direitos como o casamento civil entre casais do mesmo sexo e a possibilidade de pessoas trans alterarem seu gênero e nome diretamente nos cartórios, o Brasil segue com os maiores números de homicídios a homossexuais e transexuais no mundo. 

Segundo o GGB, das 257 pessoas LGBTQIAPN+ mortas em 2023, 127 eram travestis e transgêneros, 118 eram gays, nove lésbicas e três bissexuais. 

Em um total de 35 países documentados, foram assassinados 321 transgêneros, sendo 100 no Brasil (31%), seguido de 52 no México e 31 nos Estados Unidos. Esses dados confirmam a repetida denúncia de que o Brasil é o campeão de mortes violentas de LGBTQIAPN+. Pela primeira vez, um levantamento revelou que travestis e transexuais ultrapassaram os gays como vítimas de mortes violentas em um ano no país.

NORDESTE 

Também pela primeira vez em 44 anos de pesquisa do GGB, o Sudeste assumiu a posição de região mais violenta, registrando 100 casos de assassinatos de pessoas LGBTQIAPN+ em 2023. O Nordeste se encontra logo atrás, com 94 casos. Juntas, essas duas regiões representam aproximadamente quatro vezes o número de ocorrências das demais áreas do país: Sul (24 óbitos), Centro-Oeste (22) e Norte (17).

Levando em conta o número de habitantes em cada região, no entanto, o Nordeste segue na liderança do país. A cada dez milhões de moradores, o Nordeste teve 16 mortes violentas; o Centro-Oeste, 14; o Sudeste, 12; o Norte, 10; e o Sul, oito.

 

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Estatística Observatório GGB | Foto: GGB

Segundo o coordenador do Centro de Documentação Luiz Mott do Grupo Dignidade de Curitiba, Alberto Schmitz, “tais dados evidenciam que, diferentemente do que se propaga e do que todos aspiramos, maior escolaridade e melhor qualidade material de vida regional (IDH) não têm funcionado como antídotos à violência letal homotransfóbica, que causou a morte de um LGBT+ brasileiro a cada 34 horas nos últimos dois anos”.

BAHIA

A Bahia ficou na primeira posição no ranking nordestino de mortes violentas de pessoas LGTQIAPN+, aparecendo como o estado mais mortífero, com 8,56% dos óbitos do país. Foram 22 ocorrências em 2023.

A capital baiana também apresenta um número relevante nas estatísticas, com oito mortes LGBTfóbicas registradas, colocando a cidade no quarto lugar entre as capitais brasileiras com mais mortes violentas de pessoas da comunidade, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus.

Capital Quant. %
São Paulo 12 4,67
Rio de Janeiro 11 4,28
Manaus 10 3,90
Salvador 8 3,11
Fortaleza 7 2,72
Campo Grande 5 1,94
Maceió 5 1,94
Belo Horizonte 4 1,55
Curitiba 4 1,55
João Pessoa 4 1,55
Teresina 4 1,55
Porto Velho 3 1,17
Belém 2 0,77
Goiânia 2 0,77
Macapá 2 0,77
Total 83 34,24

Ouvida pelo Aratu On, a estudante Marina Lisboa, uma mulher trans de 25 anos, descreveu como se sente vivendo na quarta cidade mais perigosa para LGBTQIAPN+ no país: Quem é LGBTQIAPN+ já sente medo constantemente quando sai nas ruas, então os dados não me causam uma sensação diferente da que eu já sinto”.

“Notar que, estatisticamente, estamos numa posição elevada como estado e região com alto número de mortes violentas de pessoas LGBT+ me deixa muito desapontada também. É um misto de medo e decepção”, acrescentou Marina. 

Em meio à insegurança e ao medo iminente, Marina confessou um relato de sua vida que valida o sentimento de temor diante da covardia de atos transfóbicos que o sistema e a sociedade impõem de maneira velada. Marina contou sobre a vez em que precisou segurar o xixi no shopping por medo de ser expulsa do banheiro feminino. “Teve um dia que eu quase fiz xixi nas calças. Foi horrível”, finalizou.

CONTEXTO SÓCIO CULTURAL 

Para entender um pouco de como esses dados alarmantes se arquitetam no estado e na região Nordeste, o Aratu On convidou o pesquisador Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB) – a mais antiga organização do movimento homossexual brasileiro, para analisar os fatores que contribuem para a perpetuação da homotransfobia no país.

Aos 78 anos, o historiador identifica a homofobia, o racismo e o machismo como frutos de uma mesma sociedade e ideologia autoritária, similar ao sistema escravista que ainda persiste no Brasil, embora com contornos diferentes dos de alguns anos atrás.

“Essa dinâmica [escravagista] contribuiu para a perpetuação da homofobia, do racismo e do machismo, ideologias que se mantêm até hoje, especialmente no Nordeste e na Bahia”, enfatizou Mott.

Ele define a discussão sobre homofobia como um conceito “guarda-chuva” – que engloba subcategorias ou fenômenos relacionados sob um único rótulo. Isso inclui não apenas preconceitos contra homossexuais, mas também discriminação contra toda a comunidade LGBTQIAPN+ e aqueles que a apoiam.

Mott também chama atenção para o protagonismo do conservadorismo na sociedade, justificando-se com supostos valores tradicionais, como a defesa da família, religião e resistência a mudanças sociais rápidas. Isso tem um impacto significativo nas lutas de gênero e sexualidade no Brasil.

Essas ideologias, diz o pesquisador, são refletidas na ascensão de governos conservadores que buscam reverter políticas públicas voltadas para a igualdade de gênero e sexualidade. Esse contexto contribui para o aumento dos casos de violência e discriminação. 

HOMOFOBIA OU GÍRIA? 

Algumas nuances da homofobia e transfobia chegam de forma sutil na sociedade e podem contribuir para a permanência de comportamentos agressivos e perigosos para a comunidade LGBTQIAPN+. Um exemplo recente ocorreu durante a transmissão do reality show Big Brother Brasil 2024 (BBB 24), da TV Globo, quando o baiano Davi Brito, vencedor da edição, foi acusado de homofobia após proferir falas como “Eu sou homem! Não sou veado! Meu pai me fez homem”. 

A fala de Davi repercutiu negativamente não apenas nas redes sociais, mas também dentro da casa onde estava confinado. O debate levantado a partir da fala do jovem tratou de dois eixos: aqueles que alegam que a frase é uma expressão regional comum na Bahia, especialmente em Salvador, e aqueles que a consideram uma expressão homofóbica.

Para Alberto Schmitz, existe uma “homofobia tóxica nordestina” que baseia uma LGBTfobia estrutural em torno da imagem do “cabra macho”, com normas sociais de como homens devem se portar. Expressões populares na Bahia, como “isso não é coisa de homem”, “pa* no c*”, “lá ele” e as ditas por Davi no BBB 24 seguem a lógica da LGBTfobia estrutural citada por Schmitz.

Na época da exibição do BBB 24, personalidades como a jornalista Maíra Azevedo, a Tia Má, movimentaram as redes sociais com opiniões sobre o tema. A conterrânea de Davi explicou que uma gama de expressões politicamente incorretas fazem parte do dialeto baiano, e que esse argumento não é uma defesa, mas uma constatação da realidade. Ela sugeriu que, com a repercussão, essas expressões possam mudar.

“Não é defesa! É falar o que sei enquanto soteropolitana, e isso não quer dizer que eu concorde ou que não deveria mudar. Na periferia de Salvador, vários termos cruéis e violentos são utilizados de forma ‘até carinhosa’. Quem sabe, com a repercussão, exista reflexão e mudança!”, projetou a jornalista. 

Mulher trans, a estudante Marina Lisboa afirmou que essas piadas surgem de um lugar de não reconhecimento da importância das identidades LGBTQIAPN+. “Não me sinto confortável com alguns tipos de piada relacionadas à ideia de como é inconcebível a ideia de ter um corpo como o meu, ou de se relacionar de alguma maneira com ele. Um exemplo claro disso é quando põem a minha identidade de gênero em cheque, me perguntando se eu sou ‘mulher mulher mesmo’ ou se eu sou ‘mulher diferente'”.

ORGANIZAÇÕES 

Ao mesmo tempo que lidera a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Nordeste, a Bahia é pioneira no ativismo da comunidade. Além do GGB, organizações como LGBTricolor e Canarinhos LGBT, que lutam por mais diversidade nas torcidas de futebol, foram criadas no estado. A LGBTricolor, de torcedores do Bahia, e o Canarinhos LGBT, de torcedores de times de todo o país. Conheça mais sobre as organizações:

Grupo Gay da Bahia (GGB)

Com a missão de promover o respeito aos direitos humanos da comunidade LGBTQIAPN+ na Bahia, combater a LGBTfobia e o racismo, e divulgar informações corretas sobre orientação sexual e identidade de gênero, o GGB é o símbolo de luta e resistência mais antigo do Brasil.

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Grupo Gay da Bahia em manifestação em 1984 | Foto: GGB

Fundado na década de 1980, o GGB surgiu após Luiz Mott e seu namorado, Haroldo Assunção, sofrerem um ato homofóbico no Farol da Barra. A violência no que deveria ser apenas um passeio comum se transformou em um marco de revolta e mobilização. “Eu fiquei tão revoltado que daí publiquei um anúncio no Jornal Lampião convocando os baianos a formarem o Grupo Gay da Bahia”, lembrou Mott.

Com 44 anos de militância, o GGB não foi o primeiro grupo gay do Brasil, mas é o que persiste até hoje. Quando o GGB começou a ganhar força, a homossexualidade ainda era classificada como doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS), indicação que só foi removida da lista da OMS em 1990.

LGBTricolor 

No mundo do esporte, a discussão sobre a LGBTfobia tem alterado um cenário marcado por estereótipos e preconceitos. Visando criar uma comunidade de torcedores que apoiam a diversidade dentro do estádio, a torcida LGBTricolor formou um círculo de apoio para torcedores LGBTQIAPN+ do time do Bahia.

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Comunidade da Torcida LGBTricolor em frente a Arena Fonte Nova | Foto: redes sociais @lgbtricolor 

Fundada pelo comunicador e ativista de inclusão e diversidade Onã Rudá, de 34 anos, também fundador do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQIAPN+ e membro do GT de Combate ao Racismo e à Violência no Futebol Brasileiro da CBF, a LGBTricolor se destaca na luta contra a discriminação no futebol.

Criado em 2019, o Coletivo Canarinhos reúne torcidas de clubes de futebol de todo o Brasil. São 23 torcidas que trabalham para combater a LGBTfobia no futebol e aproximar a comunidade LGBTQIAPN+ dos estádios.

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Escudos que representam inclusão de pautas LGBTQIAPN+ em seus clubes | Foto: Canarinhos LGBT

Segundo o último levantamento do anuário, realizado em 2022, cerca de 80% dos torcedores LGBTQIAP+ não frequentam os estádios de forma organizada ou uniformizada, e mais de 60% das torcidas não têm diálogo com o clube ou com seus grupos políticos.

O projeto é fundamental para mudar o cenário da homotransfobia em setores específicos, como o esportivo. A organização desenvolve observatórios, anuários e levantamentos sobre as ocorrências LGBTfóbicas, atualizando os torcedores sobre os avanços no corpo esportivo.

Um exemplo de transformação desse cenário é a escolha do número 24 pelos jogadores. Desde o início do século 21, jogadores podem usar camisas numeradas de 1 a 99, mas poucos optam pelo número 24 devido à associação com o animal veado no jogo do bicho, o que simboliza fragilidade e homossexualidade. No Brasileirão, menos de 1% dos esportistas escolhem esse número.

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Flávio dos Santos, entrando pela primeira vez em campo com a camisa 24 | Foto: Felipe Oliveira

Demonstrando respeito à diversidade, o volante Flávio Medeiros, do time do Bahia, optou por usar a camisa 24 em um jogo pela Copa do Nordeste. Em entrevista ao portal El País, o jogador baiano expressou suas motivações: “Vesti a camisa 24 com muito orgulho”, afirmou após a vitória por 2 a 0 sobre o Imperatriz. “Me sinto feliz e honrado por ser o representante do Bahia nesta causa. A ideia é mostrar que o respeito às diferenças sempre deve prevalecer. E que, independentemente da orientação sexual, toda pessoa pode usar o número que quiser”.

PATOLOGIZAÇÃO

Apesar da retirada da lista de doenças da OMS em 1990, a homossexualidade seguiu sendo tratada como doença por personalidades influentes na Bahia. Ainda nos anos 90, o jornalista  José Augusto Berbert, crítico de cinema do jornal A Tarde, da Bahia, intitulou uma coluna como Mantenha Salvador limpa: mate uma bicha por dia”. Na época, o cantor Caetano Veloso se opôs ao texto. Confira vídeo de Berbert falando sobre o assunto na TV Brasil:

 

A patologização da homossexualidade também é estratégia política do deputado federal baiano Pastor Sargento Isidório (Avante). O líder religioso já comemorou que a fundação de reabilitação de dependentes químicos Doutor Jesus, liderada por ele na Bahia, já converteu internos homossexuais em heterossexuais. 

Em uma denúncia ao programa Fantástico, da TV Globo, em 2017, internos da Doutor Jesus relataram casos de homofobia e transfobia dentro da fundação. Segundo eles, os gays são obrigados a dormir em quartos separados dos heterossexuais e são insultados até “se tornarem homens”.

De acordo com a reportagem, em um vídeo gravado por um interno da comunidade, o deputado foi flagrado fazendo um discurso homofóbico. “Cabelinho quer rapar! Vai procurar um jegue, sacana. Você nasceu foi macho, rapaz”, disse o deputado. A prática da conversão sexual é proibida em todo o Brasil. 

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Pastor Isidório fundador da Fundação Doutor Jesus | Foto: Câmara dos Deputados

POLÍTICAS PÚBLICAS

Houve uma unanimidade entre os ativistas Luiz Mott, Onã Rudá e a jovem Marina sobre a questão “por que a LGBTfobia é maior na Bahia?”. A resposta recai sobre a ausência de políticas públicas favoráveis à cidadania LGBTQIAPN+

“Não temos uma estrutura dentro do governo do estado suficientemente grande para promover políticas eficazes. Temos uma coordenação submetida a uma Superintendência dentro da Secretaria de Direitos Humanos”, afirma Onã Rudá.

Onã cita o Ceará como exemplo positivo. O estado possui uma Secretaria Estadual de Diversidade que fomenta a inclusão. Para o ativista, o interior da Bahia também está desassistido. “Vive em um completo apagão de políticas públicas para a comunidade LGBT+”

Um exemplo da lacuna nas políticas públicas baianas, diferente de outros locais como Pernambuco e Ceará é a resistência do corpo Executivo Estadual em implementar medidas de segurança para essa comunidade.

Onã mencionou que, antes da Lei Millena Passos, aprovada em 2022, que prevê sanções administrativas a atos discriminatórios por motivos de orientação sexual e identidade de gênero praticados no estado, a Assembleia Legislativa não havia votado ou tramitado nada relacionado à comunidade LGBTQIAPN+. 

“Não precisa de muita engenharia. Trata-se de boa vontade e de movimentos que possam contemplar nossa comunidade, deixando de considerar nossos corpos como descartáveis”, finaliza Onã.

LEIA MAIS: Militância LGBTQIAPN+ no esporte envolve tabu do número 24 nos campos e segurança de torcedores

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