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Pesquisa baiana usa LED azul contra sequelas pélvicas do câncer de mama

Tratamento oncológico causa disfunções que exigem cuidado integral e preventivo

Por Isabela Cardoso.

Terapias contra o câncer de mama, como quimioterapia e hormonioterapia, podem provocar ressecamento vaginal, dores genitais e disfunções urinárias após a remissão da doença. Para responder a essas complicações, pesquisas científicas na Bahia investigam alternativas não hormonais voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida das pacientes.

Led Azul Contra Sequelas Pélvicas Do Câncer De Mama

Diante do avanço da quimioterapia e da hormonioterapia, alterações na mucosa vaginal provocam sintomas semelhantes aos da menopausa. O uso prolongado de bloqueadores hormonais pode evoluir para atrofia vaginal e estenose (estreitamento do canal), dificultando exames ginecológicos de rotina e prejudicando a vida íntima.

A dimensão do problema e a vivência pessoal

Uma revisão científica publicada em 2026, reunindo 36 estudos e 9.749 sobreviventes do câncer de mama, apontou que 70% das mulheres enfrentam algum tipo de disfunção sexual. Embora o índice não abranja a totalidade dos problemas pélvicos, evidencia a escala de uma complicação frequentemente negligenciada.

A fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora baiana Patrícia Lordêlo vem ampliando o debate sobre o tema. Especializada em Saúde da Mulher, ela uniu a prática científica à vivência pessoal com o câncer de mama para defender a inclusão da saúde pélvica no protocolo de cuidado contínuo.

“Acredito que isso aconteça porque, historicamente, o cuidado oncológico foi construído com um foco absolutamente necessário na doença, na sobrevida e na cura. O problema é quando esse foco faz com que outras dimensões da vida da mulher sejam consideradas secundárias. Saúde pélvica, função urinária, sexualidade, dor, imagem corporal e intimidade não deixam de existir porque existe um câncer”, afirma Patrícia Lordêlo, em entrevista ao Aratu On.

Pesquisa pioneira com LED azul intravaginal

Desde 2019, Patrícia Lordêlo e sua equipe investigam alternativas não hormonais para conter os danos à mucosa genital. O grupo idealizou e desenvolveu um dispositivo de LED azul intravaginal focado na Síndrome Geniturinária da Menopausa em sobreviventes da doença. Em 2022, o projeto recebeu o prêmio de melhor tratamento conservador no ICS Annual Meeting, da Sociedade Internacional de Continência, em Viena.

“O LED azul intravaginal nasceu, curiosamente, de outra pergunta de pesquisa. Uma aluna me procurou inicialmente interessada em estudar o uso do LED azul em candidíase. Quando começamos a estruturar o projeto, percebi uma dificuldade prática: os equipamentos existentes não haviam sido pensados para uma aplicação intravaginal adequada. A partir dessa necessidade, começamos a desenvolver o nosso próprio dispositivo”, relata a cientista.

A nova fase dos estudos busca avaliar a aplicação preventiva do LED azul durante a quimioterapia, incluindo a possibilidade de uso domiciliar sob orientação.

“Não estamos estudando o LED para tratar o câncer. Estamos investigando a possibilidade de utilizá-lo para prevenir ou reduzir sintomas relacionados ao tratamento oncológico... A possibilidade de um dispositivo domiciliar é interessante justamente porque permitiria aplicações mais frequentes e facilitaria a continuidade do tratamento sem exigir que a paciente se desloque repetidamente até um serviço de saúde”, explica Patrícia.

Novo dispositivo LED Azul que está em estudo - Divulgação

Atuação da fisioterapia e reflexos no acompanhamento

A fisioterapia pélvica oferece recursos que vão além do fortalecimento muscular, abrangendo mobilidade tecidual, tratamento de cicatrizes, sensibilidade, controle de dor e técnicas de fotobiomodulação.

Conforme explica a pesquisadora, os impactos da atrofia e da queda estrogênica atingem estruturas da vulva, uretra e trato urinário inferior, podendo persistir durante todo o período de hormonioterapia:

  • Sintomas genitais: ressecamento, ardência, fissuras, perda de elasticidade e dor na penetração.

  • Sintomas urinários: urgência miccional, aumento da frequência de idas ao banheiro e perdas involuntárias de urina.

  • Impactos clínicos: dificuldade ou impossibilidade de realizar exames com espéculo e acompanhamentos de rotina devido à estenose vaginal.

  • Consequências emocionais: insegurança, redução da autoestima e afastamento do convívio afetivo.

“A sexualidade já é um tema difícil de ser abordado fora do contexto oncológico. Muitas mulheres não foram ensinadas a falar sobre desejo, prazer, dor, lubrificação ou intimidade, e muitos profissionais também não receberam formação suficiente para iniciar essa conversa. No câncer, existe ainda uma situação adicional: cria-se quase uma hierarquia de necessidades em que tudo parece pequeno diante da necessidade de sobreviver”, avalia a professora.

Lançamento de autobiografia no Outubro Rosa

A trajetória de diagnóstico, tratamento e atuação acadêmica de Patrícia Lordêlo está registrada na autobiografia "Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução". A obra conta com prefácio da multiartista Regina Casé, que acompanhou a pesquisadora durante o enfrentamento da doença.

O lançamento ocorre no dia 18 de outubro, às 10h, no Gabinete Português de Leitura, em Salvador, cidade que se conecta à rotina da autora dividida entre o Brasil e Portugal. O livro será publicado nos formatos impresso e digital, com renda integralmente destinada ao financiamento de novas pesquisas científicas sobre saúde pélvica.

“Eu recebia muitas informações sobre cabelo, náuseas, pele, unhas, alimentação, fadiga, intestino. Tudo isso era importante. Mas me chamou profundamente a atenção o pouco que se falava sobre região genital, função sexual e intimidade... Eu não era uma mama com câncer. Havia uma mulher inteira ali”, conclui Patrícia.

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