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Colesterol na gravidez: quando o aumento é normal e quando merece atenção?

No mês das gestantes, celebrado em agosto, um tema merece atenção especial: o comportamento do colesterol durante a gravidez

Por Da redação.

Fonte: Rafael Paiva, IFF/Fiocruz

No mês das gestantes, celebrado em agosto, um tema merece atenção especial: o comportamento do colesterol durante a gravidez. Embora muitas mulheres se assustem ao receber resultados laboratoriais com níveis elevados, esse aumento costuma fazer parte das adaptações fisiológicas necessárias para garantir o desenvolvimento do bebê. Ainda assim, o acompanhamento durante o pré-natal é fundamental para diferenciar as alterações esperadas daquelas que podem representar riscos para a saúde materna e fetal.

O Pré Natal É Fundamental Para Diferenciar as Alterações Esperadas Durante a Gravidez   Imagem De Pch.vector No Magnific

Durante a gestação, o organismo materno passa por intensas mudanças metabólicas. O aumento do colesterol e dos triglicerídeos é uma resposta natural às necessidades do crescimento fetal, da formação da placenta e da produção de hormônios. Em grande parte dos casos, essas alterações não exigem tratamento medicamentoso, mas devem ser avaliadas dentro do contexto clínico de cada mulher.

Os níveis de colesterol e de outras gorduras no sangue mudam naturalmente durante a gestação, principalmente a partir do segundo trimestre. Uma revisão sistemática publicada em 2025, que reuniu dados de 13 estudos com 54.517 gestantes de gestações únicas, mostrou que o colesterol total pode aumentar cerca de 30% a 50% ao longo da gravidez, enquanto os triglicerídeos podem subir de 50% a 100%. O aumento faz parte das adaptações do organismo para atender às necessidades da placenta e do bebê, mas a intensidade dessas alterações varia entre as mulheres e também conforme o período da gestação. Por isso, um resultado acima dos valores de referência utilizados para adultos que não estão grávidos não significa, necessariamente, que exista uma doença: os exames precisam ser interpretados considerando o trimestre da gestação, o histórico da paciente e outros fatores de risco.

A endocrinologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Lizanka Marinheiro, explica que esse é um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos às gestantes.

"Na prática clínica, considero importante tranquilizar as gestantes: o aumento do colesterol durante a gravidez, na maioria das vezes, faz parte das adaptações fisiológicas do organismo necessárias ao desenvolvimento do bebê. Não é motivo para pânico nem para iniciar ou suspender medicamentos por conta própria. O mais importante é um pré-natal de qualidade, capaz de identificar as mulheres que realmente necessitam de investigação e acompanhamento especializado", afirma Lizanka.

Segundo a especialista, o exame laboratorial, isoladamente, não deve ser o único parâmetro utilizado para definir a necessidade de investigação mais aprofundada. A avaliação deve considerar o histórico da paciente, seus fatores de risco e outros marcadores metabólicos: "Precisamos olhar para a gestante como um todo, e não apenas para um resultado laboratorial. Na maioria das gestantes, uma elevação isolada do colesterol faz parte das alterações fisiológicas da gravidez e não representa, por si só, indicação de tratamento. O contexto clínico, a presença de dislipidemia prévia, hipercolesterolemia familiar ou doença cardiovascular e, especialmente, elevações importantes dos triglicerídeos ajudam a identificar as situações que merecem maior atenção".

Lizanka destaca que a assistência pré-natal deve ir além do monitoramento dos exames, incluindo orientações que favoreçam uma gestação saudável. "Também é fundamental o acompanhamento nutricional, com o objetivo de favorecer um ganho de peso adequado durante a gestação e reduzir o risco de complicações metabólicas, como diabetes gestacional e elevações excessivas do colesterol e, principalmente, dos triglicerídeos", aponta Lizanka, acrescentando: "Informação de qualidade reduz a ansiedade e evita tanto o excesso quanto a falta de tratamento. O objetivo não é medicalizar uma alteração fisiológica da gravidez, mas reconhecer precocemente as exceções que realmente precisam de cuidados especializados. Esse equilíbrio é a essência de uma boa assistência pré-natal".

A alimentação também ocupa papel central nesse processo. A nutricionista do IFF/Fiocruz, Julyane Sobrino, explica que mulheres que iniciam a gestação com colesterol elevado, seja em decorrência de hábitos de vida inadequados, dislipidemias prévias (alteração nos níveis de gorduras no sangue) ou condições genéticas, apresentam maior risco de complicações como diabetes mellitus gestacional e pré-eclâmpsia. Por isso, investir em hábitos saudáveis antes mesmo da gravidez favorece uma melhor adaptação às mudanças metabólicas e contribui para um ambiente intrauterino mais saudável para o bebê.

Durante a gestação deve-se priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, rica em frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas e fontes de gorduras insaturadas, como azeite de oliva extravirgem, abacate, oleaginosas e sementes. Também é recomendada a inclusão de peixes ricos em ômega-3, como sardinha e salmão, duas a três vezes por semana. Em algumas situações específicas, a suplementação de ômega-3 pode ser indicada como estratégia complementar, sempre mediante avaliação individualizada e acompanhamento profissional. Diante disso, Julyane ressalta que a orientação nutricional precisa respeitar as necessidades de cada gestante.

"A conduta nutricional deve ser individualizada, evitando megadoses de nutrientes e restrições alimentares desnecessárias. Prioriza-se o consumo de 'comida de verdade', enquanto a suplementação deve ser utilizada de forma complementar, com base na avaliação clínica, nos exames laboratoriais, nos sinais e sintomas e nas necessidades específicas de cada trimestre gestacional", frisa Julyane.

Ela chama atenção para hábitos que podem favorecer uma elevação excessiva do colesterol e dos triglicerídeos, aumentando o risco cardiovascular e obstétrico, especialmente em mulheres com obesidade, hipertensão, diabetes gestacional ou histórico de dislipidemia. Entre eles, estão o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, gorduras saturadas, bebidas açucaradas e carboidratos refinados, além do sedentarismo e do ganho excessivo de peso durante a gravidez. Ao mesmo tempo, a nutricionista alerta que a gestação não é o momento para dietas restritivas.

"É importante ressaltar que não se recomenda a restrição excessiva de gorduras ou colesterol durante a gestação, uma vez que esses nutrientes são fundamentais para a síntese hormonal, o desenvolvimento placentário e o adequado crescimento e desenvolvimento cerebral do bebê. A abordagem nutricional deve priorizar a qualidade da dieta, com ênfase no consumo de gorduras insaturadas, fibras alimentares e alimentos in natura e minimamente processados, em vez da adoção de dietas restritivas", declara.

Na prática clínica, simples mudanças sustentáveis costumam produzir resultados mais consistentes do que restrições rígidas: "Orientar a gestante a realizar pequenas mudanças sustentáveis no padrão alimentar, como substituir frituras por preparações assadas, trocar alimentos refinados por integrais, incluir oleaginosas e consumir peixes ricos em ômega-3, mostra-se uma estratégia mais eficaz e segura do que a adoção de restrições alimentares desnecessárias", ressalta Julyane. 

A importância desse cuidado integrado é reforçada pela médica clínica da Área da Gestante do IFF/Fiocruz, Simone de Almeida Leite. A especialista salienta que embora a elevação dos lipídios seja considerada fisiológica, algumas mulheres apresentam fatores de risco que exigem acompanhamento mais próximo.

"Algumas evidências sugerem que gestantes com dislipidemia prévia à gestação apresentam associações potenciais com eventos adversos durante a gestação, como hipertensão induzida pela gravidez, diabetes gestacional, parto prematuro e macrossomia. Por esse motivo, toda a equipe de pré-natal deve estar atenta para detectar esses eventos prejudiciais e orientar mudanças comportamentais de estilo de vida das gestantes", reforça Simone.

Por sinal, o pré-natal é uma oportunidade para identificar precocemente fatores de risco, orientar mudanças no estilo de vida e planejar o acompanhamento da mulher também após o nascimento do bebê, segundo frisa Simone: "Deve detectar, pela anamnese (entrevista de saúde), o histórico de doença cardiovascular na paciente e familiares, e encaminhar a nutricionista, que fará uma revisão dos hábitos alimentares da paciente e proporcionará correções que sejam saudáveis, orientar atividade física, convencer dos efeitos nocivos à saúde do uso do álcool e cigarro, rastrear pelo exame físico e por exames laboratoriais hipertensão, dislipidemia e diabetes gestacional e orientar, no pós-parto, a continuidade desse acompanhamento médico nas unidades básicas de saúde".

O aumento do colesterol durante a gestação é, na maioria das vezes, uma adaptação natural do organismo. Por isso, mais do que se preocupar com uma alteração isolada nos exames, é fundamental contar com um pré-natal de qualidade, capaz de identificar precocemente situações que exigem maior atenção. Com acompanhamento médico, nutricional e multiprofissional, a gestante pode adotar hábitos saudáveis, reduzir o risco de complicações e contribuir para a própria saúde cardiovascular, durante a gestação e ao longo da vida.

A Abordagem Nutricional Deve Priorizar a Qualidade Da Dieta, Com Ênfase No Consumo De Gorduras Insaturadas (imagem De Gpointstudio No Magnific)

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