Pintura, costura e corrida: por que começar hobbies promove a saúde mental
Hobbies são aliados do bem-estar ao oferecer pausas que ajudam a manter o cérebro ativo, recuperar o foco, reduzir o estresse e reservar tempo para si
Por Bruna Castelo Branco.
A presença constante de celulares e o consumo excessivo de conteúdo nas redes sociais têm levado muitas pessoas a buscar atividades que proporcionem desconexão, conforto e lazer. Nesse cenário, os hobbies surgem como aliados do bem-estar ao oferecer pausas que ajudam a manter o cérebro ativo, recuperar o foco, reduzir o estresse e reservar tempo para si.
“A importância do hobby é justamente conseguir fazer algo sem necessariamente a autocobrança de performar resultado, de estar sempre produzindo. Hoje, mais do que nunca, é um meio para que as pessoas possam se divertir e encontrar prazer dentro do dia a dia, o que traz contribuições para um cotidiano mais saudável”, afirma Rafaella Dominguez, psicóloga e professora do curso de Psicologia da Universidade Salvador (UNIFACS).
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Um estudo publicado pela Harvard Health, que entrevistou mais de 93 mil pessoas com mais de 65 anos em 16 países, aponta que passatempos regulares estão associados a níveis mais altos de felicidade, maior satisfação com a vida, menos sintomas depressivos e uma visão mais positiva diante de desafios. Os achados reforçam o entendimento de especialistas sobre os efeitos dos hobbies na saúde mental.
Entre as práticas destacadas estão colorir livros, montar quebra-cabeças, cuidar de plantas, trabalhar com cerâmica ou crochê. Segundo Dominguez, qualquer atividade pode ser benéfica. “Não existe regra ou recomendação de uma atividade específica. A melhor opção vai ser sempre aquela em que se consegue desempenhar e ter uma dose de leveza em meio às demandas diárias”, diz.
Apoio a tratamentos
Aprender um novo hobby — ou retomar um da infância — também pode auxiliar em tratamentos psicológicos e psiquiátricos. A psicóloga explica que, dependendo do quadro, a prática contribui para aliviar sintomas ao ampliar a percepção de prazer, o senso de propósito e a redescoberta de sensações positivas.

Apesar dos benefícios, ela enfatiza a importância da atividade física: “É muito importante que as pessoas também busquem fazer uma atividade física. Diversos estudos comprovam que o exercício regular auxilia na melhora de sintomas da ansiedade, depressão e outros transtornos mentais. Contudo, vale ressaltar que tanto os hobbies quanto a prática de atividades físicas complementam os tratamentos psiquiátrico, medicamentoso e psicoterapêutico, servindo de apoio ao longo dos processos”.
Pontos de alerta
Com o aumento da popularidade dos passatempos, surgem também riscos associados à autocobrança. Dominguez afirma que hobbies deixam de ser benéficos quando passam a ser uma obrigação ou quando assumem apenas o sentido de utilidade. “Muitos acabam levando para o lugar de autocobrança e ansiedade. O prazer inicial é substituído pela necessidade de ter resultado, ser o melhor ou se tornar competitivo a ponto de gerar sofrimento psíquico”, alerta.
Para evitar distorções, ela destaca que o valor dos hobbies está na forma como se encaixam no cotidiano e favorecem experiências sociais, especialmente em grupo. “Quando possível, ao invés de ficar rolando a tela do celular por horas, escolha atividades que envolvem movimento e o contato com o mundo fora de casa. Existem muitas oportunidades de fazer novas amizades e até descobrir talentos escondidos ao se reunir em grupos para pintar, fotografar, correr na rua ou aprender a tocar um instrumento. Mais do que distrações, esses momentos entregam leveza e ajudam a construir laços sociais”, comenta.

Transtornos mentais
Relatórios divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em setembro indicam que mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo convivem com transtornos mentais. As condições mais comuns são ansiedade e depressão, que afetam indivíduos de diferentes idades e classes sociais e estão associadas a perdas significativas na qualidade de vida, na produtividade e na economia global.
De acordo com a OMS, os transtornos mentais já são a segunda maior causa de incapacidade a longo prazo e aumentam os gastos com saúde de famílias e indivíduos. Apenas ansiedade e depressão custam cerca de US$ 1 trilhão por ano à economia mundial — o equivalente a R$ 5,5 trilhões.
“Transformar os serviços de saúde mental é um dos maiores desafios da saúde pública. Investir nessa área é investir em pessoas, comunidades e economias. O cuidado não pode ser visto como privilégio, mas como um direito básico que exige ação urgente dos governos”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em comunicado.
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