Ex-capitão da PM da Bahia é apontada por espalhar informações falsas para ajudar fuga de Flávio Bolsonaro
André Porciúncula teria divulgado versões incorretas sobre o destino do senador enquanto ele atravessava a fronteira com a Argentina; estratégia teria sido coordenada por Eduardo Bolsonaro
Por Victor Hernandes.
O ex-capitão da Polícia Militar da Bahia André Porciúncula teria divulgado informações falsas para despistar jornalistas durante a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil rumo aos Estados Unidos. Aliado da família Bolsonaro, ele teria repassado versões incorretas sobre o paradeiro do parlamentar enquanto ele ainda percorria o território brasileiro em direção à fronteira com a Argentina.

A estratégia, segundo informações publicadas pela jornalista Bela Megale, do jornal O Globo e pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (2), teria sido organizada pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. O objetivo seria ocultar o percurso realizado pelo irmão e evitar que jornalistas acompanhassem seus passos.
Na terça-feira (27), Porciúncula informou a jornalistas que Flávio já estaria a bordo de um avião com destino a Miami, nos Estados Unidos. Mais tarde, voltou a procurar profissionais da imprensa para afirmar que a aeronave havia aterrissado em solo americano e que o senador estava reunido com Eduardo e outros familiares.
As informações, porém, não correspondiam ao que acontecia naquele momento. Flávio ainda estava no Brasil, seguindo para Foz do Iguaçu, no Paraná, de onde atravessaria a fronteira com a Argentina. Conforme a apuração de Bela Megale, as versões repassadas pelo ex-capitão teriam sido transmitidas a ele por Eduardo Bolsonaro.
Outras versões sobre o deslocamento também circularam entre aliados do ex-deputado. Uma delas apontava que o senador teria utilizado uma rota pela Venezuela. O percurso real, no entanto, foi feito pela fronteira entre Brasil e Argentina.
A atuação atribuída a Porciúncula estaria relacionada à proximidade política que ele mantém com a família Bolsonaro, especialmente com Eduardo. Os dois também tiveram relações empresariais nos Estados Unidos.
Como Flávio Bolsonaro chegou aos Estados Unidos
O trajeto do senador começou em direção a Foz do Iguaçu. Informações das autoridades migratórias argentinas indicam que ele entrou na Argentina às 22h50 da terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta a cidade paranaense a Puerto Iguazú.
Flávio estava acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e das duas filhas. Para atravessar a fronteira, utilizou um passaporte italiano. Já em território argentino, embarcou em um avião particular que fez uma parada em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami. A chegada aos Estados Unidos ocorreu na manhã de quarta-feira (28).
A viagem aconteceu após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabelecia a entrega dos passaportes do senador e o impedia de deixar o Brasil. A saída do parlamentar levou a Polícia Federal a investigar as circunstâncias do deslocamento.
Embora Porciúncula seja apontado nas reportagens como um dos responsáveis por disseminar versões falsas sobre o trajeto, não há confirmação pública de que ele tenha sido formalmente acusado de envolvimento criminoso na operação.
Quem é André Porciúncula, ex-capitão da PM da Bahia
Natural de Salvador, André Porciúncula Alay Esteves tem 41 anos e ingressou na Polícia Militar da Bahia em 2005. Na corporação, chegou ao posto de capitão, antes de ganhar projeção nacional ao ocupar funções no governo do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na administração federal, integrou a equipe de Mário Frias, que comandava a Secretaria Especial de Cultura, e assumiu a Secretaria Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, responsável pela gestão de recursos da Lei Rouanet.
Durante a passagem pelo órgão, Porciúncula protagonizou divergências com representantes do setor artístico e defendeu alterações na política de financiamento cultural. Em 2022, chegou a propor que recursos da Lei Rouanet fossem utilizados em produções com conteúdo favorável ao armamento civil. Nos últimos dias do governo Bolsonaro, foi nomeado secretário especial de Cultura.
A relação com o grupo político do ex-presidente também se estendeu a Eduardo Bolsonaro, com quem manteve vínculos empresariais nos Estados Unidos.
Em junho deste ano, Porciúncula passou para a reserva remunerada proporcional da Polícia Militar da Bahia. A transferência ocorreu após procedimentos administrativos relacionados à ausência de retorno às atividades na corporação. O caso também é alvo de um processo na Justiça Militar, que pode resultar na perda de seu posto.
O ex-capitão também tentou seguir carreira política pelo PL. Nas eleições de 2022, concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados pela Bahia e recebeu 82.693 votos, mas não conseguiu se eleger. Em 2024, disputou uma cadeira na Câmara Municipal de Salvador e obteve 2.758 votos.

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