Veja como funcionava o esquema clandestino atribuído ao Rei do Mounjaro
Investigação da Operação Peptídeos indica estrutura organizada com apoio da esposa médica para obtenção de receitas
Por João Tramm.
A investigação que deu origem à chamada Operação Peptídeos revelou indícios de uma estrutura organizada para a comercialização clandestina de medicamentos utilizados para emagrecimento em Salvador. Veja como funcionava o esquema clandestino atribuído ao Rei do Mounjaro.
De acordo com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), o cirurgião-dentista Gustavo Garrido Gesteira, apontado nas investigações como uma espécie de “Rei do Mounjaro”, é acusado de integrar uma organização criminosa voltada para a falsificação, adulteração, comercialização irregular e distribuição de canetas emagrecedoras.
A apuração começou após uma denúncia anônima registrada em um Boletim de Ocorrência , que apontava que Gustavo estaria vendendo medicamentos como Tirzepatida (Mounjaro) e Semaglutida (Ozempic) sem cumprir exigências sanitárias básicas.
Segundo o pronunciamento do Ministério Público da Bahia (MP-BA), ao qual o Aratu On teve acesso, os produtos seriam comercializados “sem emissão de nota fiscal, sem exigência de prescrição médica e em desconformidade com as normas sanitárias”.
Ainda de acordo com os autos, o investigado, que é dentista especializado em odontologia estética, mantinha controle da empresa Gesteira Medicamentos Ltda., responsável pela Drogaria Ondina, local que teria se tornado um dos principais pontos de articulação da atividade ilegal.

Apoio da esposa médica para aquisição
As investigações também indicam que Gustavo mantinha articulação direta com a esposa, a médica Louise Fontes Lima, que teria contribuído para viabilizar a aquisição dos medicamentos. Conteúdo das conversas extraídas do WhatsApp revelou que o casal discutia o mercado formal das canetas emagrecedoras e as estratégias para obtenção dos produtos.
As conversas analisadas apontam que receitas médicas emitidas em nome da própria médica eram utilizadas para realizar compras em grande quantidade. Em alguns casos, as receitas teriam sido usadas para pedidos superiores a R$ 15 mil junto à fornecedora Unikka Pharma.
“Há mensagens contendo receita médica assinada por Louise em nome do próprio Gustavo, bem como envio de ‘termos de consentimento’ e pedidos expressivos direcionados ao consultório Medicina Oral, onde o recebimento do material ocorria", ainda aponta o MP-BA.
Segundo o processo, representantes da Unikka, identificadas como “Amanda” e “Gislaine Braz”, negociavam diretamente com Gustavo. Em alguns momentos, ele teria se apresentado como representante da própria esposa para viabilizar a compra dos medicamentos.
“Gustavo enviava dados pessoais e profissionais da esposa, inclusive CPF e imagem de registro médico, para viabilizar a compra de medicamentos controlados, o que demonstra não apenas a utilização do nome profissional da médica, mas sua adesão consciente às tratativas.”
As mensagens analisadas mostram negociações envolvendo tabelas de preço, promoções e pedidos em grande quantidade, incluindo solicitações como “10 unidades” de 60 mg.
Após a Operação, a médica Louise Fontes Lima compareceu espontaneamente à delegacia acompanhada de advogada e admitiu que seu marido já fez uso de mounjaro. No depoimento, a Dra. indicou que trabalha em cinco instituições na área da saúde (Clínica CEDIBA; Clínica Idem; Clínica Medjan; Hospital Roberto Santos e Hospital Agenor Paiva).

Veja como funcionava esquema clandestino atribuído ao Rei do Mounjaro
Segundo a investigação, dois estabelecimentos funcionariam como centros logísticos da atividade: o consultório Medicina Oral e a Drogaria Ondina, ambos de Gustavo Garrido.
Nos estabelecimentos, a funcionária Ana Paula Alves de Jesus, conhecida como “Paulinha”, é apontada como operante do esquema. De acordo com as conversas interceptadas, ela seria responsável por atender clientes indicados por Gustavo e até aplicar doses dos medicamentos.
As mensagens analisadas indicam que Gustavo enviava orientações sobre valores, dosagens e autorização nominal de clientes, o que, segundo os investigadores, demonstra que a funcionária tinha ciência da atividade ilícita.
“O consultório servia como endereço de recebimento de cargas da Unikka Pharma, enquanto a drogaria, por intermédio de Ana Paula, realizava a entrega e aplicação irregular dos medicamentos”, aponta o MP-BA.
A esposa do Rei do Mounjaro, Dra. Louise, confirmou que Ana Paula (“Paulinha”) trabalha no centro odontológico de Gustavo, chamado Medicina Oral.
Com estes entes operadores do esquema, as diligências apontam que a atividade não era isolada, mas parte de uma estrutura contínua de comércio ilegal. Durante as buscas em contas vinculadas ao e-mail do investigado, os policiais encontraram fotos de canetas do tipo Mounjaro e imagens que indicariam o fracionamento da substância.
“Foram localizadas fotografias de canetas do tipo Mounjaro, imagens evidenciando o fracionamento da Tirzepatida em seringas, prática absolutamente vedada pela legislação sanitária. Observou-se que Gustavo oferecia tanto a caneta original quanto doses fracionadas, prática que reforça indícios de manipulação irregular e venda clandestina”, aponta o MP.
Depoimentos
No depoimento do condutor da prisão, o investigador Daniel Curi afirmou que Gustavo admitiu a propriedade dos medicamentos apreendidos.
“A pessoa de Gustavo Garrido Gesteira admitiu a propriedade dos medicamentos, em relação aos quais não informou a procedência, assim como que os comercializa, armazena no imóvel", aponta o termo de depoimento.
De acordo com o relato, ele também teria afirmado que fazia contato com clientes e entregava os produtos na própria farmácia: “Para vender os produtos, ele disse que mantém contato com os clientes e, após acertar os valores envolvidos, leva os produtos até uma farmácia de sua propriedade, de nome ‘Drogaria Ondina’", acrescentou.
Uma das testemunhas ouvidas pela polícia foi Cristina Santana Lima, proprietária de um salão localizado ao lado da farmácia. Ela afirmou que conhece Gustavo desde a abertura da Drogaria Ondina, há cerca de dois anos. Segundo o depoimento, no início ela comprava o medicamento diretamente com ele, muitas vezes sem apresentar receita.
“Tinha tanta intimidade com o Gustavo que acabava esquecendo de entregar o documento e ficava pegando praticamente sem receita.”
Ela afirmou que pagava cerca de R$ 4 mil pela caneta de 2,5 mg, utilizada semanalmente.
Já Gustavo Garrido Gesteira, durante seu interrogatório, optou por permanecer em silêncio. Apesar disso, em nota divulgada, a defesa do dentista afirmou que o profissional não possui ligação com os demais investigados citados na Operação Peptídeos.
“Com serenidade e total confiança na Justiça, ele se manifestará no tempo oportuno sobre os detalhes técnicos do caso, colaborando integralmente para que a verdade seja restabelecida e sua inocência plenamente comprovada”, finalizou nota.
Rei do Mounjaro responde em liberdade provisória
Apesar da prisão em flagrante, a Justiça decidiu conceder liberdade provisória ao investigado. Na decisão, o juiz Cidval Santos Sousa Filho considerou que a prisão preventiva seria prematura neste momento do processo.
“A decretação da prisão preventiva, neste momento processual, revela-se prematura e desproporcional.”
O juiz destacou ainda que a investigação continua em andamento e que os materiais apreendidos passarão por perícia. Segundo ele, ainda é prematuro afirmar que os itens encontrados são de fato canetas emagrecedoras, ou substâncias clandestinas.
“Caso a perícia definitiva venha a confirmar a materialidade do crime, a necessidade da prisão preventiva poderá ser reavaliada a qualquer tempo”, decidiu.
Apesar disso, como medida cautelar, a decisão prevê providências como o fechamento da Drogaria Ondina, apontada pela investigação como local utilizado para a venda dos medicamentos.

O que foi apreendido na operação
Entre os materiais encontrados em poder de Gustavo Garrido Gesteira, estavam ampolas com diferentes substâncias, seringas, canetas utilizadas para aplicação de medicamentos e um telefone celular. Foram apreendidas:
| Quantidade | Descrição |
|---|---|
| 9 | Ampolas em recipiente identificado como “NP 810” 10 mg |
| 4 | Ampolas em recipiente “CV 100” |
| 4 | Ampolas em recipiente “H15” |
| 16 | Ampolas em recipiente identificado como “IP5 5 mg” |
| 13 | Ampolas em recipiente “TR-60” |
| 13 | Ampolas em recipiente “RT 30” 30 mg |
| 4 | Ampolas em recipiente identificado como “retatrutida” 30 ml |
| 2 | Ampolas em recipiente “KLOW” 80 mg |
| 2 | Ampolas adicionais sem identificação detalhada |
| 2 | Ampolas contendo líquido azul |
| 5 | Ampolas de água para injetáveis |
| 50 | Ampolas vazias com rótulo “tirzepatida 60 mg” |
| 12 | Seringas descartáveis para insulina |
| 3 | Canetas emagrecedoras |

Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).