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01/10/2020 18h35 | Atualizado em 01/10/2020 18h47

Artigo: Quando os sons nos afetam…

Artigo: Quando os sons nos afetam...

Artigo: Quando os sons nos afetam... Foto: arquivo pessoal
Cristiane Teixeira

Problemas clínicos relacionados à redução da tolerância aos sons, como hiperacusia, misofonia e fonofobia, podem afetar bastante a qualidade de vida das pessoas, em função da forte tendência a evitar interações sociais, familiares ou profissionais, até mesmo nas situações mais comuns do cotidiano. Há algumas décadas foi observado, entretanto, que a percepção do zumbido, embora fizesse parte do sistema auditivo, variava de forma expressiva entre os indivíduos. Na dependência direta de fatores emocionais, ficou claro que, quando o paciente reage negativamente ao zumbido, há um aumento da atenção a ele, o que acarreta a sua amplificação. Com a repetição deste padrão, há um aprendizado associativo a essas respostas emocionais, retroalimentadas e perpetuadas por uma ampla gama de sistemas neurais.

Hiperacusia e misofonia são enfermidades relacionadas à redução de tolerância de som. A misofonia pode ser descrita como uma disfunção cerebral que faz com que sons comuns específicos provoquem uma resposta emocional intensa, proporcionando sintomas físicos através da liberação de adrenalina, gerando sobrecarga de energia em resposta a uma suposta ameaça. Ocorre uma padronização de sons específicos, independentemente do número de decibéis, que é considerada insuportável. Alguns barulhos podem ser tão perturbadores que se torna necessário usar fones de ouvido ou tampões auditivos rotineiramente para se proteger. O ruído de alguém mordendo uma maçã, a respiração ou até mesmo a digitação no teclado podem ser insuportáveis, trazendo angústia ou evocando sentimentos de raiva e fuga. Os pacientes, muitas vezes crianças, em geral sofrem em silêncio e sem o apoio adequado. Quando muito grave, esta condição acaba tendo efeitos socialmente devastadores, uma vez que os sons que provocam “gatilho” são bastante comuns no dia a dia.

Com exames audiológicos em geral sem alterações, ainda hoje esta condição não se apresenta categorizada em nenhuma classificação neurológica, audiológica ou psiquiátrica. Apesar de a misofonia poder ser observada em uma ampla gama de transtornos neurológicos e psiquiátricos, não parece ser um fenômeno que ocorre exclusivamente e especificamente em nenhum deles. Desta forma, pesquisas ainda são necessárias para esclarecer se a misofonia gera condições neuro-psiquiátricas, ou se estes transtornos que contemplam, entre os seus sintomas, a super responsividade aos estímulos auditivos. Muito associada ao zumbido, a hiperacusia em geral é bastante omitida e subdiagnosticada, ocorrendo quando o som, geralmente em alto volume, é considerado insuportável, gerando até mesmo dor física. O diagnóstico baseia-se em uma história de intolerância a diferentes tipos de som, juntamente com a diminuição dos limiares de desconforto auditivo nos testes audiométricos. Já na fonofobia, muito presente na crise migranosa, as pessoas podem ter medo e crise de ansiedade associados a ruídos altos e repentinos, não havendo relação com outros transtornos auditivos.

O enriquecimento sonoro com sons ambientais, conhecido como terapia de retreinamento do zumbido (TRT) pode ser empregado adequando-se às especificidades individuais, pois, para quem sofre com intolerância a sons, ouvir música pode ser uma medida instintiva e até natural de proteção. A TRT consiste na exposição repetida a ruído em baixo volume, favorecendo a habituação pela interferência na atividade neural. Direcionada também para a misofonia, esta terapia pode ser útil através da exposição gradual a ruídos “gatilho”. Conviver com estes problemas pode causar bastante isolamento, e não há método científico reconhecido de tratamento, apesar de algumas possibilidades serem aplicadas em conjunto, destacando-se neste contexto, a psicoterapia. O acompanhamento multidisciplinar é padrão ouro, e algumas medicações também podem ser utilizadas a depender das comorbidades, mostrando benefícios concretos. Apesar de o uso constante de protetor auricular ser uma tentativa de prevenção do desconforto auditivo, é reconhecido que essa prática pode, através da diminuição da recepção auditiva, induzir posteriormente uma maior sensibilidade aos sons. Desta forma, os pacientes devem ser orientados a usar protetor auricular apenas quando houver real necessidade.

*Otorrinolaringologista do NOOBA e do Hospital Aeroporto – Pós-graduação em Teoria Junguiana (Psicologia analítica)

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Fonte: Cristiane Teixeira*, especial para o Aratu On