Baiana de Salvador cria 'Acarajé da Copa' e preocupa associação: 'Descaracterização'

O Acarajé da Copa do Mundo, lançado por Adriana Ferreira, em Salvador, reacendeu discussões após manifestação da Associação das Baianas de Acarajé

Por Taís Rocha.

Antes conhecida pelo "acarajé rosa", inspirado no filme Barbie, de 2023, a baiana Adriana Ferreira voltou a gerar debate nas redes sociais ao lançar uma nova versão do quitute, desta vez nas cores verde e amarela. A iniciativa, batizada de "Acarajé da Copa", provocou reação da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (ABAM), que afirma que alterações em um patrimônio cultural brasileiro devem ser tratadas com responsabilidade.

O Acarajé da Copa do Mundo, lançado por Adriana Ferreira, em Salvador, reacendeu discussões após manifestação da Associação das Baianas de Acarajé. | Foto: Redes Sociais

A novidade foi apresentada pela empreendedora nesta terça-feira (2), em um vídeo publicado nas redes sociais. Na gravação, Adriana aparece preparando o quitute e convida os seguidores a interagirem com a postagem. Ela também anunciou que quem acertar o placar do próximo jogo nos comentários receberá um prêmio surpresa.

Com mais de 107 mil seguidores no Instagram, a baiana ficou conhecida por criar versões alternativas do acarajé. Em 2023, o lançamento do acarajé rosa dividiu opiniões e gerou discussões sobre os limites da inovação em um dos símbolos mais conhecidos da cultura baiana.

ABAM critica descaracterização

Em nota enviada à imprensa, a Presidente da ABAM, Rita Santos, manifestou preocupação com a divulgação da nova versão do acarajé e ressaltou que o quitute é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2005.

A entidade afirmou que o acarajé "não é apenas um alimento" e destacou que sua produção, seus ingredientes, seus modos de fazer e sua relação com a ancestralidade africana e as religiões de matriz africana formam um legado histórico construído ao longo de séculos pelas baianas de acarajé.

Com mais de 107 mil seguidores no Instagram, a baiana ficou conhecida por criar versões alternativas do acarajé. | Foto: Redes Sociais

Segundo a associação, embora a criatividade gastronômica tenha espaço, a promoção de versões que alterem características tradicionais do quitute exige contextualização histórica e cultural.

"Entendemos que a criatividade gastronômica tem seu espaço, mas é fundamental que a mídia trate com responsabilidade os bens culturais protegidos. Ao promover alterações que descaracterizam um símbolo tão representativo da cultura afro-brasileira, sem o devido contexto histórico e cultural, corre-se o risco de enfraquecer a compreensão pública sobre a importância desse patrimônio", afirmou a entidade.

A associação também defendeu que mudanças na aparência e em elementos simbólicos do acarajé não sejam tratadas apenas como inovação.

"O acarajé tradicional possui uma identidade construída pela resistência das mulheres negras, pelas tradições dos povos africanos trazidos para o Brasil e pela preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações. Alterações que modificam sua aparência e seus elementos simbólicos não devem ser apresentadas como simples inovação, mas, sim, contextualizadas à luz de sua relevância cultural", diz outro trecho da nota.

"Defender o acarajé é defender a memória, a identidade e a história do povo baiano e do povo brasileiro", conclui o documento.

Leia a nota na íntegra:

A Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares – ABAM vem manifestar sua preocupação com a divulgação e exaltação de uma versão do acarajé nas cores verde e amarela, apresentada recentemente.

O acarajé não é apenas um alimento. Ele é um patrimônio cultural brasileiro, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2005. Sua produção, seus ingredientes, seus modos de fazer e sua relação com a ancestralidade africana e as religiões de matriz africana constituem um legado histórico construído ao longo de séculos pelas baianas de acarajé.

Entendemos que a criatividade gastronômica tem seu espaço, mas é fundamental que a mídia trate com responsabilidade os bens culturais protegidos. Ao promover alterações que descaracterizam um símbolo tão representativo da cultura afro-brasileira, sem o devido contexto histórico e cultural, corre-se o risco de enfraquecer a compreensão pública sobre a importância desse patrimônio.

O acarajé tradicional possui uma identidade construída pela resistência das mulheres negras, pelas tradições dos povos africanos trazidos para o Brasil e pela preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações. Alterações que modificam sua aparência e seus elementos simbólicos não devem ser apresentadas como simples inovação, mas sim contextualizadas à luz de sua relevância cultural.

Solicitamos, portanto, que essa emissora valorize e respeite o Ofício das Baianas de Acarajé, ouvindo as entidades representativas e as guardiãs dessa tradição sempre que abordar temas relacionados a esse patrimônio.

Defender o acarajé é defender a memória, a identidade e a história do povo baiano e do povo brasileiro.

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