Queima de Judas resiste em Salvador, mas tradição perde força

Historiadores relatam que em Salvador, há registros da prática da Queima de Judas, desde o século XIX, com ampla difusão ao longo do século XX

Por Dinaldo dos Santos.

Hoje, 4 de abril de 2026, é um Sábado de Aleluia e, segundo a tradição, dia da Malhação ou Queima de Judas. É quando um boneco, representando Judas Iscariotes — símbolo da traição a Jesus Cristo — é espancado, ridicularizado e, em muitos casos, incendiado. Mas como anda esse costume em Salvador? 

De origem ibérica, o costume foi trazido ao Brasil durante o período colonial por portugueses e espanhóis, encontrando em cidades de forte influência católica, como Salvador, um terreno fértil para se consolidar como manifestação cultural e religiosa.

Queima de Judas resiste em Salvador. Foto: Reprodução | Youtube

Historiadores relatam que na capital baiana, há registros da prática desde o século XIX, com ampla difusão ao longo do século XX. Mesmo diante das transformações urbanas e culturais, a tradição resiste até hoje, sobretudo em comunidades que mantêm forte organização popular.

Queima de Judas resiste em Salvador

Segundo o professor de história Roberto Pessoa, atualmente, embora menos abrangente, ainda é possível encontrar celebrações em bairros como Federação, Jardim Cruzeiro, Castelo Branco, Itacaranha e Pau Miúdo, onde moradores seguem confeccionando bonecos e promovendo pequenas festas locais.

No bairro do Pau Miúdo, Pessoa destacou a importância do saudoso 'Florentino Fogueteiro', "o cara que aqui na Bahia ficou famoso em confeccionar fogos", lembrou. Florentino se notabilizou pela produção de bonecos e pela inovação ao incorporar fogos de artifício às estruturas, criando efeitos que marcaram gerações e ajudaram a consolidar a estética da celebração local.

De acordo com o professor, mesmo após sua morte, em 2006, o legado de Florentino permanece presente com seus herdeiros e por meio de artesãos e comunidades que continuam a tradição. Contudo, hoje em dia a manifestação está mais discreta do que em décadas passadas.

No passado, a Queima de Judas teve uma presença muito mais expressiva em Salvador. Bairros como Ribeira, Água de Meninos, Plataforma, Garcia, Mouraria, Soledade e Baixa dos Sapateiros figuravam entre os principais polos da manifestação.

Queima de Judas. Foto: Ilustrativa

Qeima de Judas é cultura popular

A celebração era marcada por grande participação popular, com cortejos, leitura de “testamentos” satíricos — frequentemente com críticas políticas e sociais — e eventos organizados coletivamente. Na década de 1970, por exemplo, a cidade chegou a registrar dezenas de pontos simultâneos de queima, com forte apoio comunitário e até incentivo institucional.

Há quem atribua ao aumento da violência urbana, mudanças no perfil das comunidades e a redução do engajamento coletivo como determinantes para a diminuição das celebrações. Além disso, novas formas de entretenimento e a transformação dos hábitos culturais contribuíram para que a prática deixasse de ocupar o mesmo espaço no cotidiano da cidade.

Apesar disso, a Queima de Judas segue como símbolo de resistência cultural em Salvador, preservada por grupos que insistem em manter viva a manifestação. Ainda que mais discreta, a Malhação de Judas sobrevive em algumas localidades como uma expressão significativa da cultura popular.

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