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Depois de anos vivendo nas ruas, dois soteropolitanos encontram no trabalho uma chance de recomeçar e passam a inspirar outras pessoas em situação de vulnerabilidade

Histórias de Tainá e Daniel mostram como emprego, qualificação e apoio social ajudaram a transformar trajetórias marcadas pela situação de rua em novos projetos de vida

Por Da redação.

Por muito tempo, ter uma casa, uma cama para dormir, um salário no fim do mês e a possibilidade de planejar o futuro parecia distante para Tainá Vitória Santos e Daniel David Rosa dos Santos. Os dois viveram períodos em situação de rua em Salvador e precisaram enfrentar momentos em que o recomeço parecia difícil de alcançar.

Hoje, as histórias são diferentes. Tainá, de 26 anos, deixou a situação de rua, conquistou um emprego formal e voltou a fazer planos ao lado do filho Rafael, de dois anos. Daniel, de 25, depois de passar cerca de seis anos nas ruas, tornou-se educador social em uma Unidade de Acolhimento Institucional (UAI) e passou a usar a própria experiência para incentivar outras pessoas a acreditarem que também podem reconstruir suas trajetórias.

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As duas histórias fazem parte do Programa Vida Nova Empregabilidade, iniciativa da Prefeitura de Salvador que reúne trabalho formal, acompanhamento psicossocial, apoio habitacional e qualificação profissional para pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Em dois anos, a iniciativa já atendeu 50 beneficiários. Atualmente, 84% permanecem ativos no programa. Entre os participantes, 27% retomaram os estudos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), 17% estão cursando nível técnico ou superior e 56% participam de processos de qualificação profissional.

Mas, por trás dos números, existem histórias de pessoas que passaram a enxergar novamente possibilidades para o futuro.

Como uma oportunidade de emprego pode mudar uma trajetória?

Para quem passou pela situação de rua, conseguir um emprego representa mais do que receber um salário no fim do mês. É a possibilidade de construir uma rotina, recuperar a autonomia e voltar a fazer planos. Foi isso que aconteceu com Tainá.

A história dela começou pouco antes da descoberta da gravidez. Na época, ela vivia com o então marido e os dois trabalhavam. Depois que ficaram desempregados, precisaram morar na casa da mãe de Tainá. Após uma discussão, o casal deixou o local e foi para Itapuã.

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Tainá estava grávida. Sem dinheiro suficiente para se manter, chegou a vender o próprio celular. O recurso acabou e ela passou cerca de dez dias vivendo nas ruas. Grávida, com os pés inchados e dificuldade para caminhar, ela conta que chegou a acreditar que não conseguiria sair daquela situação.

“Porta fechada de um lado, porta fechada de outro. Todo mundo virou as costas, quem eu menos esperava que virasse as costas, e eu ficava sem entender o motivo”, relembra.

O que aconteceu quando as portas pareciam estar fechadas?

Em dezembro de 2023, Tainá foi abordada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas), da Prefeitura de Salvador.  A partir daquele momento, começou uma nova etapa. Ela e o então companheiro foram encaminhados para uma Unidade de Acolhimento Institucional, na Cidade Baixa. Depois, Tainá se separou e passou a viver com o filho em uma unidade voltada para famílias.

Mais tarde, recebeu auxílio-aluguel e apoio complementar para a compra de móveis. O passo seguinte foi a oportunidade de trabalhar. Em 3 de setembro de 2024, Tainá começou a participar do Programa Vida Nova Empregabilidade e conquistou um emprego formal.

Hoje, trabalha como atendente no Cadastro Único para Programas Sociais, ajudando outras pessoas que precisam acessar ou atualizar informações para receber benefícios socioassistenciais. A mulher que um dia precisou de ajuda agora trabalha justamente auxiliando pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes.

Como alguém que já precisou de ajuda passou a ajudar outras pessoas?

No trabalho, Tainá utiliza computador, acessa sistemas oficiais e realiza serviços como cópias e impressões de documentos. Mas o que mais chama a atenção para ela é a possibilidade de fazer pelo outro aquilo que um dia fizeram por ela.

Ela sabe o que significa estar diante de uma dificuldade sem saber qual será o próximo passo. Por isso, considera gratificante poder ajudar outras pessoas. Para Tainá, o emprego também abriu espaço para novos planos. Ela pretende retomar o curso de Enfermagem, que precisou interromper, e sonha em conquistar a casa própria.

A rotina mudou. Agora, ao chegar em casa, ela valoriza coisas que antes pareciam simples, mas que ganharam outro significado depois do período nas ruas. Uma cama. Um lugar quente para dormir. Um teto para protegê-la da chuva. São conquistas que passaram a representar segurança e estabilidade.

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E quando a pessoa que superou a situação de rua passa a inspirar quem ainda enfrenta o problema?

A trajetória de Daniel tem um ponto em comum com a de Tainá, mas ganhou um novo capítulo. Natural de Salvador e morador de Periperi, ele passou cerca de seis anos vivendo nas ruas do Comércio. Até ser atendido pelo Seas.

Depois da abordagem, Daniel foi encaminhado para uma Unidade de Acolhimento Institucional em Cajazeiras. Dois meses depois, recebeu a notícia de que havia sido aprovado para a primeira etapa do Vida Nova Empregabilidade.

Ele ingressou no programa em novembro do ano passado. Atualmente, trabalha como educador social na UAI de Pirajá. A função fez com que sua experiência de vida ganhasse um novo significado. Daniel passou a conversar com pessoas que chegam às unidades de acolhimento carregando muitas das mesmas incertezas que ele próprio já enfrentou. E, para essas pessoas, ele tem uma história para contar.

O que Daniel diz para quem ainda vive nas ruas?

Ele conta a própria trajetória para mostrar que é possível buscar uma mudança. Muitos chegam às unidades sem esperança e acreditando que voltarão para as ruas. Daniel tenta mostrar, a partir da própria experiência, que existe outro caminho.

A mensagem que transmite é baseada naquilo que viveu. Ele conseguiu deixar as ruas, conquistar um emprego e ter novamente um espaço para chamar de casa. Hoje, valoriza poder chegar e sair quando quiser, ter uma cama confortável, uma televisão, uma geladeira, um fogão e, principalmente, um salário depositado regularmente. Para quem já viveu sem essas garantias, cada uma dessas conquistas tem um peso diferente.

Quantas pessoas já conseguiram transformar a própria trajetória?

As histórias de Tainá e Daniel fazem parte de uma iniciativa que, desde o início, busca transformar a empregabilidade em uma ferramenta de autonomia.

O Programa Vida Nova Empregabilidade disponibilizou inicialmente 50 vagas para pessoas acompanhadas pela rede socioassistencial do município. Atualmente, 40 pessoas estão ativas no programa.

Entre os 50 beneficiários, 84% permanecem ativos, enquanto 16% foram desligados por motivos como abandono das atividades laborais, retorno à cidade de origem ou solicitação de desligamento por interesse próprio.

Os resultados também aparecem na educação. Do total de participantes, 27% retomaram os estudos por meio da EJA, 17% estão cursando nível técnico ou superior e 56% participam de processos de qualificação profissional.

Os números mostram que a proposta vai além da contratação. A ideia é criar condições para que o trabalho seja o ponto de partida de uma reconstrução mais ampla.

Como funciona o programa que oferece uma nova chance?

Criado pela Prefeitura de Salvador por meio da Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre), o programa reúne diferentes frentes de atendimento.

Inicialmente, os participantes são inseridos em postos formais de trabalho na própria estrutura da Sempre, com remuneração e direitos trabalhistas. Também recebem auxílio-aluguel, auxílio complementar para a compra de móveis e acompanhamento psicossocial de uma equipe especializada. A participação ainda está ligada à continuidade da formação.

Os beneficiários são incentivados a retomar os estudos na etapa em que interromperam a escolarização e a participar de cursos profissionalizantes oferecidos pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda (Semdec), por meio do Serviço Municipal de Intermediação de Mão de Obra (Simm).

Depois da experiência nos órgãos e equipamentos da Sempre, os trabalhadores podem ser encaminhados para oportunidades na iniciativa privada. Quando isso acontece, a vaga ocupada anteriormente fica disponível para uma nova pessoa. Assim, o programa cria um ciclo de oportunidades.

Por que o trabalho se tornou tão importante para quem estava tentando recomeçar?

Para Tainá, o emprego trouxe a possibilidade de pensar novamente no futuro. Para Daniel, abriu espaço para transformar uma experiência difícil em uma ferramenta de incentivo para outras pessoas. Em ambos os casos, o trabalho aparece associado a algo maior: autonomia.

Não se trata apenas de ter uma ocupação. É poder organizar a própria vida, administrar o próprio dinheiro, voltar a estudar, fazer planos e recuperar a sensação de que o futuro pode ser construído.

Daniel, por exemplo, participa das capacitações oferecidas pelo programa e aprendeu a elaborar currículo e controlar as próprias finanças. Ele conta que antes não sabia administrar o dinheiro e que hoje consegue calcular melhor o que pode gastar. São aprendizados que ultrapassam o ambiente profissional.

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E depois do primeiro recomeço?

A história não termina quando o emprego é conquistado. Esse é apenas o início de uma nova etapa. Tainá quer voltar a estudar Enfermagem e conquistar a casa própria. Daniel pretende concluir os estudos, cursar uma graduação em Educação Física e comprar a primeira moto.

São planos que poderiam parecer distantes durante os períodos em que os dois viviam nas ruas. Agora, eles fazem parte do cotidiano. E existe ainda outro aspecto nessa transformação: as duas histórias começam a alcançar outras pessoas.

Tainá trabalha ajudando quem procura os serviços do Cadastro Único. Daniel conversa com pessoas que chegam às unidades de acolhimento e compartilha uma experiência que conhece de perto. Quem um dia precisou de uma oportunidade passou a ajudar a construir oportunidades para outros.

Afinal, o que significa recomeçar?

Para quem passou pela situação de rua, recomeçar pode significar coisas diferentes. Pode ser voltar a estudar. Conseguir um emprego. Receber o primeiro salário. Alugar uma casa. Comprar os próprios móveis. Ter uma cama para dormir. Ou simplesmente voltar a fazer planos.

As histórias de Tainá e Daniel mostram que a superação não acontece de uma única vez. Ela pode ser construída em pequenas conquistas, ao longo do tempo, com apoio e novas oportunidades.

O Programa Vida Nova Empregabilidade nasceu justamente com essa proposta: transformar a inclusão produtiva em um caminho para a autonomia e para a reconstrução de projetos de vida. Para Tainá, uma porta se abriu quando todas as outras pareciam fechadas. Para Daniel, a própria história se transformou em uma mensagem para quem ainda acredita que não há saída.

E, enquanto eles seguem construindo os próximos capítulos de suas vidas, outras pessoas também começam a receber a chance de escrever os próprios recomeços.

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