Da Timbalada ao Arrastão: a história de Carlinhos Brown no Carnaval de Salvador

Poucos artistas possuem uma ligação tão profunda com o Carnaval de Salvador quanto Carlinhos Brown

Por Bruna Castelo Branco.

Poucos artistas possuem uma ligação tão profunda com o Carnaval de Salvador quanto Carlinhos Brown. Percussionista, compositor, cantor e agitador cultural, o artista ajudou a moldar a identidade sonora da festa baiana e se tornou um dos principais responsáveis pela expansão do axé music e do samba-reggae dentro e fora do país.

Nascido como Antônio Carlos Santos de Freitas, no bairro do Candeal Pequeno de Brotas, em Salvador, Brown cresceu cercado pelas manifestações afro-brasileiras que mais tarde se transformariam em marca registrada da sua carreira. O artista iniciou a trajetória musical ainda jovem, influenciado pela percussão dos terreiros de candomblé e orientado pelo Mestre Pintado do Bongô.

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Além da carreira como cantor e percussionista, Carlinhos Brown também se destacou como compositor. | Foto: Júnior Improta/Agecom

Participação na criação do axé e do samba-reggae

Considerado um dos artistas mais inovadores da música brasileira, Brown participou diretamente dos primeiros arranjos que deram origem ao axé music e ao samba-reggae, gêneros que se consolidaram como símbolos do Carnaval baiano.

Ainda nos anos 1980, tornou-se um dos músicos mais requisitados da Bahia, passando por grupos como Mar Revolto e Acordes Verdes, de Luiz Caldas. Em 1985, já acumulava 26 músicas tocando simultaneamente nas rádios de Salvador.

Entre as composições que marcaram o período estão “Visão de Cíclope”, “Remexer”, “O Coco” e “É Difícil”. O reconhecimento levou Brown a conquistar o Troféu Caymmi e abrir espaço para parcerias com artistas como Caetano Veloso, João Gilberto, Djavan e João Bosco.

Poucos artistas possuem uma ligação tão profunda com o Carnaval de Salvador quanto Carlinhos Brown. | Foto: Alfredo Filho/Secom PMS

Timbalada revolucionou a percussão baiana

Na década de 1990, Brown consolidou o nome nacional e internacionalmente como líder da Timbalada, grupo criado no Candeal e formado majoritariamente por jovens percussionistas da comunidade.

A banda revolucionou a sonoridade da música baiana com o protagonismo do timbau e a criação de novos instrumentos percussivos, como a bacurinha, os surdos-virados e o rubber nose.

O sucesso da Timbalada também impactou diretamente o Carnaval de Salvador, principalmente com os desfiles marcados pela estética percussiva, coreografias e forte ligação com a cultura afro-baiana.

O sucesso da Timbalada também impactou diretamente o Carnaval de Salvador. | Foto: Gilberto Júnior/Secom PMS

Arrastão da Quarta-feira de Cinzas

Outra contribuição histórica de Brown para o Carnaval foi a criação do Arrastão da Quarta-feira de Cinzas, realizado pela primeira vez em 1990.

A proposta surgiu para permitir que trabalhadores e foliões que não conseguiam aproveitar os dias oficiais da festa também participassem do Carnaval. O desfile sem cordas acabou se transformando em tradição na capital baiana e passou a reunir milhares de pessoas no encerramento da folia.

Com o passar dos anos, diversos artistas aderiram ao modelo criado por Brown, transformando o Arrastão em um dos momentos mais simbólicos do Carnaval de Salvador.

Outra contribuição histórica de Brown para o Carnaval foi a criação do tradicional Arrastão da Quarta-feira de Cinzas. | Foto: Joka Gueiros/Secom PMS

Compositor de grandes sucessos da folia

Além da atuação como percussionista e cantor, Brown se tornou um dos maiores compositores da música baiana. O artista possui mais de 800 canções registradas e mais de mil gravações cadastradas no banco de dados do Ecad.

Suas composições ajudaram a construir trilhas sonoras históricas do Carnaval. Entre os maiores sucessos estão:

  • “Rapunzel”, gravada por Daniela Mercury;
  • “Dandalunda”, interpretada por Margareth Menezes;
  • “Cadê Dalila?”, sucesso de Ivete Sangalo;
  • “Meia Lua Inteira”, eternizada na voz de Caetano Veloso;
  • “Uma Brasileira”, parceria com Herbert Vianna e sucesso dos Os Paralamas do Sucesso;
  • “Magalenha”, conhecida internacionalmente na interpretação de Sérgio Mendes.

Brown também teve músicas gravadas por artistas como Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Cássia Eller e até pela banda Sepultura.

Dono de uma carreira consolidada na música brasileira, Carlinhos Brown construiu uma trajetória marcada por sucessos autorais. | Foto: Igor Santos/Secom e Gilberto Júnior/Secom

Museu du Ritmo e o Sarau du Brown

A relação de Brown com o Carnaval e com a cultura baiana também passa pelos projetos culturais criados pelo artista em Salvador.

Entre eles está o Museu du Ritmo, instalado no antigo Mercado do Ouro, no bairro do Comércio. O espaço se tornou um dos principais centros culturais da cidade e abriga shows, exposições e eventos ligados à música e à arte.

No local também acontece o tradicional Sarau du Brown, realizado desde 2006 durante o verão soteropolitano. O projeto reúne música, poesia, teatro, moda e artes visuais, ajudando a renovar o conceito dos ensaios de verão do Carnaval baiano.

Além da atuação como percussionista e cantor, Brown se tornou um dos maiores compositores da música baiana. | Foto: Joka Gueiros/Secom PMS

Reconhecimento internacional

Ao longo da carreira, Brown acumulou prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais. O artista foi o primeiro brasileiro a integrar a Academia do Oscar e também recebeu os títulos de Embaixador Ibero-Americano para a Cultura e Embaixador da Justiça Restaurativa da Bahia.

Entre os principais reconhecimentos estão dois Grammy Latino, oito indicações ao prêmio e uma indicação ao Oscar em 2012, pela canção “Real in Rio”, da trilha sonora da animação Rio.

Ao longo da carreira, Brown acumulou prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais. | Foto: Joka Gueiros/Secom PMS

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