Júri de PMs acusados de matar e carbonizar corpo de Geovane começa em Salvador
Geovane foi encontrado morto dias após desaparecer; PMs são investigados pelo crime
Por Bruna Castelo Branco.
Teve início nesta quarta-feira (17), no Fórum Ruy Barbosa, o julgamento dos sete policiais militares acusados de participar da morte de Geovane Mascarenhas de Santana, desaparecido após uma abordagem policial em 2014. A previsão é que o júri popular dure três dias.
Geovane foi encontrado morto dias após desaparecer. Segundo as investigações, o jovem teve o corpo carbonizado, foi decapitado, teve os órgãos genitais removidos e duas tatuagens retiradas.

O julgamento estava inicialmente marcado para abril deste ano, mas acabou sendo adiado. Os réus respondem por homicídio qualificado, mediante motivo torpe e com recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Quem são os policiais julgados
Os sete policiais militares levados a júri popular são:
- Cláudio Bonfim Borges;
- Jesimiel da Silva Resende;
- Daniel Pereira de Sousa Santos;
- Alan Morais Galiza dos Santos;
- Alex Santos Caetano;
- Roberto dos Santos Oliveira;
- Jailson Gomes Oliveira.
Segundo o Ministério Público da Bahia (MP-BA), os acusados também respondem por roubo qualificado. Além disso, todos, com exceção de Jailson Gomes Oliveira, são acusados de ocultação de cadáver.
O que diz a denúncia
De acordo com a denúncia do MP-BA, Geovane foi abordado por policiais militares em 2 de agosto de 2014 enquanto pilotava sua motocicleta.
Segundo os promotores, o jovem foi colocado em uma viatura policial e levado inicialmente para a Rua Luiz Maria, no bairro da Calçada. Em seguida, teria sido conduzido para outro local, onde foi assassinado.
O Ministério Público sustenta que os policiais "sequestraram e mataram quem por eles foi eleito para morrer", afirmando que Geovane foi privado da liberdade sem justificativa legal e permaneceu sob custódia dos agentes até sua morte.
Outros quatro policiais chegaram a ser denunciados durante as investigações, mas não foram processados por falta de indícios suficientes de autoria.
Defesa alegou que vítima foi liberada
Nos depoimentos prestados à época, os policiais afirmaram que Geovane foi abordado por possuir características semelhantes às de um suspeito de assalto.
Segundo a versão apresentada pelos agentes, ele teria sido levado para reconhecimento por uma vítima de roubo na região da Calçada. Como não foi reconhecido, teria sido liberado em seguida.

GPS da viatura foi peça-chave na investigação
As investigações avançaram após a Polícia Civil solicitar os registros de GPS da viatura envolvida na abordagem.
Uma perícia do Departamento de Polícia Técnica (DPT) constatou que a fiação do aparelho GPS da viatura comandada pelo subtenente Cláudio Bonfim Borges havia sido danificada.
Apesar disso, os investigadores conseguiram reconstruir parte do trajeto por meio do sistema de geolocalização do rádio de comunicação utilizado pelas equipes policiais.
Os dados revelaram que duas viaturas estiveram nos locais onde os restos mortais de Geovane foram abandonados na mesma noite em que ele desapareceu.
A análise também identificou divergências entre os trajetos registrados eletronicamente e as informações apresentadas pelos policiais nos relatórios de serviço.
Contradições nos depoimentos
Inicialmente, policiais de uma das guarnições afirmaram que não tiveram contato com a outra equipe envolvida na ocorrência.
Posteriormente, mudaram a versão e admitiram ter se encontrado brevemente, alegando que o contato ocorreu apenas para comunicar a liberação antecipada de um dos agentes do serviço.
As informações de geolocalização, porém, indicaram deslocamentos compatíveis entre as equipes ao longo da noite.
Defesa nega tentativa de adiar julgamento
Em nota, os advogados Gerson Monção e Anissa Weber Almeida, responsáveis pela defesa dos réus Daniel Pereira de Sousa Santos, Alan Morais Galiza dos Santos, Alex Santos Caetano e Roberto dos Santos Oliveira, negaram que tenha havido qualquer tentativa de adiar indevidamente o júri.
Segundo a defesa, o pedido de adiamento apresentado anteriormente ocorreu porque os advogados assumiram o caso recentemente e identificaram a existência de provas sob sigilo às quais ainda não tinham tido acesso integral.
Os defensores afirmam que parte do material permanecia apenas em formato físico e não havia sido digitalizada, o que impossibilitou a análise completa antes da data inicialmente prevista para o julgamento.
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