Golpe do Pix de quase R$ 3 milhões na Bahia: como funcionária desviou valor e quais cuidados evitam a fraude
Golpe do Pix de quase R$ 3 milhões na Bahia envolve funcionária suspeita de usar Pix para desviar valores de empresas
Desde que foi lançado, em 2020, o Pix se consolidou como uma das principais formas de transferência de dinheiro no Brasil. A facilidade e a rapidez do sistema, porém, também podem ser exploradas em fraudes internas, principalmente quando funcionários possuem acesso direto às contas de empresas.
Por exemplo, nesta quinta-feira (27), uma funcionária de 26 anos foi presa suspeita de desviar quase R$ 3 milhões de empresas por meio de transferências via Pix. Segundo a investigação, ela inseria no campo do beneficiário os nomes de fornecedores reais, mas direcionava os valores para contas de familiares.

Segundo as investigações, para impedir que os sócios percebessem os desvios, a funcionária teria criado situações de suposta urgência financeira e mencionado possíveis riscos de multas. Com isso, conseguia obter aprovação rápida para as transferências e dificultava a fiscalização.
Falhas de controle abrem brechas
Segundo a especialista em Direito Digital Larissa Pimenta, o Pix não é, por si só, o principal ponto vulnerável, em casos como este. Para ela, a segurança deve funcionar em camadas, com medidas como controle de acesso, segregação de funções, dupla aprovação e limites financeiros.
Cada uma dessas etapas reduz a possibilidade de que uma única pessoa consiga realizar uma fraude sem ser identificada. “Não basta proteger a conta bancária contra invasores externos. Também é preciso proteger o próprio processo de autorização contra o abuso interno”, explica.

O problema está na forma como as empresas administram acessos, permissões e controles internos. Para especialista o risco começa surgir quando a concentração de funções reduz a possibilidade de uma segunda pessoa identificar uma operação irregular antes que ela seja
“Do ponto de vista do banco, não necessariamente há uma invasão. Em alguns casos, o problema está justamente no uso indevido de um acesso legítimo”, destaca. Segundo a especialista, o compartilhamento de credenciais, limites elevados para transferências e a falta de dupla aprovação estão entre os fatores que aumentam o risco de fraude.
Sinais que indicam desvios
Entre os sinais que podem levantar suspeitas estão transferências recorrentes para destinatários desconhecidos, movimentações fora do padrão histórico da empresa, pagamentos em horários incomuns e aumentos repentinos no volume de transações via Pix.
A especialista ressalta, no entanto, que um comportamento isolado não comprova uma fraude. O principal alerta é a quebra do padrão histórico, especialmente quando diferentes sinais aparecem ao mesmo tempo.“Um dos indicadores mais importantes é justamente a quebra do padrão histórico”, pontuou a especialista.
Como evitar que uma pessoa controle os pagamentos
Para especialista, a principal recomendação é a chamada segregação de funções. Na prática, quem cadastra ou solicita um pagamento não deve ser a mesma pessoa responsável por conferi-lo, aprová-lo e efetivá-lo.

As empresas também devem adotar credenciais individuais, definir limites de movimentação conforme a função de cada funcionário e utilizar dupla aprovação para operações de maior valor.
Outro mecanismo importante é a conciliação bancária independente, feita por alguém que não seja responsável pelos pagamentos. Alertas de movimentação, validação de novos fornecedores e registros detalhados dos acessos também ajudam a identificar irregularidades.
Os sistemas devem permitir verificar quem acessou a conta, quando, o que foi alterado e quais operações foram realizadas. Em caso de desligamento ou mudança de função, os acessos precisam ser imediatamente revogados ou ajustados.
Pix deixa rastros e permite acompanhar dinheiro
Apesar de uma transferência fraudulenta poder ser realizada rapidamente, o dinheiro não desaparece sem deixar registros. “O Pix deixa uma trilha eletrônica relevante, que pode ser utilizada para reconstruir o caminho percorrido pelos recursos e ajudar na investigação.” A especialista explica que, durante a apuração, podem ser analisados dados como as contas de origem e destino, os titulares, valores, horários e a identificação da transação.
Dependendo do caso, também podem ser considerados registros de autenticação, dispositivos utilizados e alterações em cadastros e limites.
Se o dinheiro for transferido para outras contas, também é possível acompanhar a sequência de movimentações para tentar identificar os envolvidos e reconstruir o percurso dos recursos.
Golpe do Pix: o que fazer após descobrir um desvio?
Em casos como o da funcionária que teria utilizado a função exercida nas empresas para manipular ordens bancárias realizadas por meio do Pix, a primeira medida deve ser bloquear os acessos relacionados ao problema, segundo Larissa Pimenta. Isso inclui revogar usuários e credenciais, além de interromper sessões e bloquear dispositivos que possam estar envolvidos nas movimentações suspeitas.
Ao mesmo tempo, a empresa deve comunicar imediatamente os bancos envolvidos e solicitar os procedimentos disponíveis para contestação e tentativa de recuperação dos valores.

Em casos específicos de fraude, pode ser utilizado o Mecanismo Especial de Devolução (MED), embora a ferramenta não garanta o ressarcimento. A recuperação depende das circunstâncias do caso e, entre outros fatores, da existência de recursos nas contas que receberam o dinheiro.
Também é importante preservar extratos, comprovantes, e-mails, mensagens, documentos, registros de acesso, computadores, celulares corporativos e demais evidências que possam ajudar na investigação.
A empresa deve ainda formalizar a ocorrência e comunicar as autoridades competentes. Em situações de maior gravidade, a orientação de um advogado especializado pode auxiliar na adoção de medidas judiciais para tentar recuperar valores que ainda estejam disponíveis.
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