Comerciante detalha racismo de gaúcha no Pelourinho: 'fazendo chacota'

Gisele foi presa em Salvador na última quarta-feira (21), suspeita de cometer injúria racial contra uma comerciante que trabalhava no Pelourinho

Por Bruna Castelo Branco.

A comerciante Hanna Rodrigues, de 26 anos, vítima de injúria racial por parte da turista gaúcha Gisele Madrid Spencer Cesar, 50, contou ao Aratu On, com exclusividade, detalhes de como o ataque racista aconteceu.

Gisele foi presa em Salvador na última quarta-feira (21), suspeita de cometer injúria racial contra uma comerciante que trabalhava no Pelourinho, no Centro Histórico da capital. Antes do crime, a criadora de conteúdo estava em um show da Timbalada, também no Pelourinho. Ela passa por audiência de custódia na tarde desta sexta-feira (23).

Gisele foi presa em Salvador na última quarta-feira (21), suspeita de cometer injúria racial contra uma comerciante que trabalhava no Pelourinho. | Foto: Redes Sociais

Segundo Hanna, tudo começou no momento em que um grupo de clientes do bar pediu cerveja. "Quando fui até o bar, ela já estava chamando os atendentes de lixo. Peguei o produto do cliente, passei ao lado dela, e ela falou: 'Mais um lixo'. [...] Depois, eu voltei, e perguntei: 'A senhora me chamou de quê?'. E ela: 'De lixo'. E eu falei: lixo é você", relatou.

Após a discussão, Gisele se encaminhou até a porta do estabelecimento para ir embora, mas, antes de sair, se virou para trás e cuspiu na vítima. "Ela escarrou e cuspiu em mim. Eu tirei o rosto, mas o cuspe acabou pegando no meu pescoço. Me abaixei e limpei o rosto, e acabei perdendo ela de vista. Com isso, fiquei desesperada, procurando ela. Quando encontrei, ela já estava envolvida em outro conflito, com seguranças já segurando ela. [...] Ela dizia a todo tempo: 'Eu sou branca, eu sou branca', e o segurança, bem paciente, esperando o tempo dela", relatou. Veja vídeo:

Ao perceberem o que estava acontecendo, as pessoas que estavam na mesma festa começaram a chamar Gisele de "racista". "Alguns clientes viram e, a todo tempo, tentaram me acolher, me ajudar, porque eu só sabia chorar. [...] Os seguranças tentaram tirar ela do evento, mas, ela não queria sair. Até que, em um momento, os seguranças pegaram ela pelo braço, e ela falou: 'Ela [Hanna] é uma preta fud*da'. Falava isso constantemente".

Após esse novo ataque, os seguranças do local acionaram a Polícia Militar, que conduziu Gisele e Hanna para a delegacia. "Veio só uma viatura, e o policial queria que eu e ela fôssemos no carro, juntas. E eu falei: 'Não vou no mesmo carro que ela. Sabe por quê? Se fosse eu que tivesse feito tudo o que ela fez comigo, eu teria saído daqui algemada, e vocês iriam me colocar no porta-mala'. E ela, dentro do carro, já sentada no banco de trás, ficou fazendo chacota de mim". Na sequência, outra viatura foi encaminhada para levar Hanna para prestar depoimento.

Gisele já visitou a capital baiana diversas vezes. | Foto: Redes Sociais

Quer ser avisado primeiro sobre casos como este? Clique AQUI e entre no canal de segurança do Aratu ON no WhatsApp para receber notícias em tempo real.

Essa foi a primeira vez que a comerciante foi vítima de racismo na vida. "Todo mundo que já passou por isso, procure os seus direitos. Uma mulher dessa não pode ficar impune. Eu sei que hoje ela vai sair pela porta da frente com a cabecinha dela erguida, porque essa é a Justiça. Eu sei que ela vai sair. Já tenho dois dias sem conseguir dormir. Tenho que ter forças porque tenho duas filhas para criar, não posso desmoronar, porque a vontade que eu estou é de ficar em um quarto escuro, sem ouvir a voz de ninguém. Peço justiça".

Racismo na delegacia

Segundo a Polícia Militar, mesmo após a detenção, a Gisele Madrid Spencer Cesar manteve comportamento discriminatório ao exigir atendimento exclusivo por um delegado de pele branca.

Desde 12 de janeiro de 2023, com a sanção da Lei 14.532, a prática de injúria racial passou a ser expressamente uma modalidade do crime de racismo, julgada de acordo com a Lei 7.716/1989, com pena de reclusão. Isso significa que quem comete racismo não pode ser solto mediante fiança e o crime não prescreve com o tempo, podendo ser punido mesmo após muitos anos.

Antes do crime, a criadora de conteúdo estava em um show da Timbalada, também no Pelourinho. | Foto: Redes Sociais

Redes Sociais

Gisele já visitou a capital baiana diversas vezes.  Em publicações no Instagram, a suspeita, que se diz criadora de conteúdo para viajantes, diz ser "Baianucha": "Sou baianucha, sangue gaúcho, amor baiano". A gaúcha, que publica fotos na capital baiana há anos, está em Salvador pelo menos desde a Lavagem do Bonfim, e postou selfies ao lado de baianas de acarajé e Filhos de Gandhi, com legendas como: "O que é que a baiana tem" e "Salvador, meu amor".

A gaúcha se diz Filha de Iemanjá, e também já fez publicação na Festa de Iemanjá na capital baiana, e escreveu: "Homenagem à minha mãe Yemanjá Odoya" e "Uma boa filha à casa retorna".

Os seguranças do local acionaram a Polícia Militar, que conduziu Gisele e Hanna para a delegacia. | Foto: Redes Sociais

Após a repercussão do caso, internautas encontraram o perfil no Instagram da suspeita e encheram as fotos dela de comentários negativos. "Essa foto foi antes ou depois de você ser racista no show?", comentou um. "Eu também sou gaúcha e dá uma dor, uma vergonha que pesa ver alguém agindo de forma tão preconceituosa, desumana e cruel, ainda mais quando isso acaba sendo associado ao lugar de onde a gente vem", escreveu outra.

"Vai pedir uma cela branca na cadeia?", questionou um internauta. "Gritou 'eu sou branca!'. Como se isso fosse motivo de se orgulhar, mas, adivinha só? Você nasceu no Brasil, e para os brancos de origem anglo-saxã, não passa de uma mestiça", criticou. "Injúria racial não é ofensa: é violência e tem consequência. Quem faz isso não comete erro, comete crime", informou uma usuária da rede social.

Siga a gente no InstaFacebookBluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).

Comentários

Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Aratu On.

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.