Presente a Oxum no Dique do Tororó antecede Festa de Iemanjá; entenda

Neste sábado, 1º de fevereiro, a celebração será realizada no Dique do Tororó

Por Bruna Castelo Branco.

Antes das homenagens à Rainha do Mar, a tradição determina que a Rainha das Águas Doces seja saudada. É com esse sentido que ocorre, anualmente, o Presente às Águas Sórodó, dedicado a Oxum. Neste sábado, 1º de fevereiro, a celebração será realizada no Dique do Tororó, a partir das 17h30, em frente à Arena Fonte Nova, em Salvador.

A previsão é que o cortejo deixe o local de concentração por volta das 19h, sendo conduzido pelo Afoxé Filhos de Gandhi, pelo cacique Carlinhos Brown, pela Orquestra de Agogôs e pela banda afrofeminina Yaya Muxima.

Antes das homenagens à Rainha do Mar, a tradição determina que a Rainha das Águas Doces seja saudada. | Foto: Wikipedia Commons

O Dique do Tororó é tradicionalmente escolhido para a celebração por ser um ponto de águas doces próximo a uma quantidade significativa de terreiros de Candomblé. A origem do ritual remonta à década de 1990, quando uma moradora da região pediu pela saúde da filha. Após a cura, decidiu agradecer a Obaluaiê, que, segundo a tradição, teria orientado: “Quem curou sua filha foi Oxum, e é a ela que devem agradecer”. Desde então, o presente passou a ser oferecido anualmente, instituindo o ritual.

Festa de Iemanjá movimenta o Rio Vermelho

No dia seguinte, 2 de fevereiro, as atenções se voltam para o bairro do Rio Vermelho, onde ocorre a Festa de Iemanjá. Desde a madrugada, fiéis vestidos de azul e branco se reúnem na praia e nas ruas para homenagear a orixá, considerada a protetora dos pescadores e rainha das águas.

Sincretizada no catolicismo como Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora de Candeias, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade e Virgem Maria, Iemanjá é cultuada tanto na umbanda quanto no candomblé e é considerada a mãe de quase todos os orixás.

Desde a madrugada, fiéis vestidos de azul e branco se reúnem na praia e nas ruas para homenagear a orixá. | Foto: Jefferson Peixoto/Secom

Tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador, a festa é celebrada no Rio Vermelho desde 1924, segundo o Babalorixá Indarê Sá dos Santos, do terreiro do Obatayó, em Cajazeiras. Ele afirma que relatos orais indicam que o culto ocorre desde o século XIX. O historiador Murilo Mello destaca que registros do intelectual Manoel Querino já apontavam, naquele período, grandes concentrações de pessoas para cultuar Iemanjá na capital baiana.

Mudanças no local dos cultos

Não há consenso sobre os locais onde os cultos ocorriam antes da consolidação da festa no Rio Vermelho. “Os filhos de santo e os pais de santos cultuavam a Mãe D'Água atrás do Forte São Bartholomeu, atrás da Ponta do Humaitá”, afirma Murilo. Com o tempo, o festejo também ganhou força em Itapuã.

Indarê explica que as primeiras oferendas relacionadas ao culto ocorreram no próprio Dique do Tororó. “Essa oferta a Iemanjá, na verdade, foi feita primeiramente no Dique do Tororó, quando era feita uma oferta para a entidade chamada Yá Odô, a Mãe do Rio”, detalha. Segundo ele, a escassez de peixes causada por contaminações levou à transferência do ritual para o Rio Vermelho, impulsionada por pescadores e jangadeiros.

Tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador, a festa é celebrada no Rio Vermelho desde 1924. | Foto: Jefferson Peixoto/Secom

“Os pescadores e jangadeiros entenderam que Iemanjá atendeu aos pedidos deles e passaram a fazer a procissão no mar. Eles começaram a presentear Iemanjá nas águas salgadas”, completa Indarê. Ele ressalta ainda que, dentro das religiões de matriz africana, o título de “Rainha do Mar” é associado a Olocum, considerada a Senhora dos Mares.

Murilo acrescenta que os festejos em homenagem a Iemanjá também ocorrem em outros países, como Cuba e regiões da América Central e do Caribe, e que nem sempre acontecem no mês de fevereiro.

Significado e resistência religiosa

O nome Iemanjá, também grafado como Iemanjá, tem origem no idioma iorubá, a partir da expressão “Yéyé Omó Ejá”, que significa “mãe cujos filhos são peixes”. A relação com a água e com os pescadores deu origem a diversos títulos atribuídos à orixá ao longo do tempo, como Princesa do Mar, Sereia do Mar, Dona Iemanjá, Janaína, Inaé e Dandalunda, entre outros.

Para Indarê, o crescimento do interesse pela festa representa a resistência das religiões de matriz africana, que ainda enfrentam episódios de intolerância. Dados apontam que, em 2018, foram registradas 615 denúncias de intolerância religiosa no Brasil. Em 2023, o número subiu para 1.418, um aumento de 140,3%.

O nome Yemanjá, também grafado como Iemanjá, tem origem no idioma iorubá. | Foto: Jefferson Peixoto/Secom

“A importância dessa festa é manter viva uma tradição que foi perseguida por séculos, e é uma prova da resistência negra, da resistência do povo de axé, da resistência da fé”, afirma o babalorixá.

Além do aspecto religioso, a Festa de Iemanjá também se consolidou como um evento cultural da Bahia. No dia 2 de fevereiro, moradores e visitantes vestem branco ou azul e ocupam a Praia do Rio Vermelho ao longo do dia. Ao fim da celebração religiosa, manifestações culturais tomam as ruas, misturando o sagrado e o profano.

“Essa celebração é muito importante para mantermos viva a lembrança da mãe das mães. Iemanjá é a mãe que sustenta seus filhos. O sustento de seus filhos são os peixes. Iemanjá é a mãe da procriação, da distribuição, da igualdade. É uma forma de a gente lembrar que um depende do outro”, conclui Indarê.

Além do aspecto religioso, a Festa de Yemanjá também se consolidou como um evento cultural da Bahia. | Foto: Jefferson Peixoto/Secom

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