Gilberto Gil e o Tropicalismo: música, política e resistência na ditadura
O cantor e compositor Gilberto Gil é um dos principais nomes da MPB e figura central do Tropicalismo
Por Bruna Castelo Branco.
O cantor e compositor baiano Gilberto Gil, autor de canções consagradas como "Aquele Abraço", "Drão" e "A Dança", é um dos principais nomes da Música Popular Brasileira (MPB) e figura central do Tropicalismo, responsável por uma profunda transformação estética e política na cultura nacional a partir do final da década de 1960.
Nascido em Salvador, o artista integrou o grupo que liderou o movimento ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Maria Bethânia.

Racismo e ditadura
Apesar da importância artística, estudos acadêmicos indicam que Gil não recebeu, à época, o mesmo destaque midiático dedicado a outros nomes do movimento. Em pesquisa de doutorado desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora Patrícia Anette Schroeder Gonçalves analisou a discografia do cantor entre 1963 e 1969 — período que abrange desde o início de sua carreira até o exílio em Londres durante a ditadura militar.
Segundo o estudo, a imprensa da época frequentemente privilegiava outros artistas, como Caetano Veloso, enquanto Gil aparecia com menor protagonismo, raramente ocupando capas sozinho. A pesquisadora aponta que essa diferença pode revelar um recorte racial na indústria cultural brasileira.
A análise também destaca o contexto de repressão vivido pelo artista durante a Ditadura Militar no Brasil. Em dezembro de 1968, logo após a decretação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), Gilberto Gil foi preso sob acusação de “incitar a juventude à rebeldia”. Após meses de detenção, foi forçado ao exílio em Londres, onde permaneceu por cerca de dois anos. Nesse período, entrou em contato com novas sonoridades, como o rock progressivo e o reggae, que influenciariam sua produção posterior.

Esse momento de tensão política também evidenciou um lado mais combativo do artista. A canção Aquele Abraço (1969), interpretada como uma despedida ao Brasil antes do exílio, tornou-se um de seus maiores sucessos e foi premiada com o Golfinho de Ouro em 1970, concedido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. No entanto, Gil recusou a premiação em um texto publicado no jornal O Pasquim, no qual criticou duramente a interpretação da obra e a ideia de “pureza” da música popular brasileira defendida pela instituição.
“Eu não tenho por que não recusar o prêmio dado para um samba que eles supõem ter sido feito zelando pela ‘pureza’ da música popular brasileira. Eu não tenho nada com essa pureza. Tenho três LPs gravados aí no Brasil que demonstram isso. E que fique claro para os que cortaram minha onda e minha barba que Aquele Abraço não significa que eu tenha me ‘regenerado’, que eu tenha me tornado ‘bom crioulo puxador de samba’ como eles querem que sejam todos os negros que realmente ‘sabem qual é o seu lugar’. Eu não sei qual é o meu e não estou em lugar nenhum; não estou mais servindo a mesa dos senhores brancos e nem estou mais triste na senzala em que eles estão transformando o Brasil”, escreveu o artista.
Para a pesquisadora, o texto revela um posicionamento político e racial contundente, contrastando com a imagem pública frequentemente associada à serenidade de Gil. O episódio também evidencia os limites da ambiguidade estética do Tropicalismo, movimento que utilizava ironia e múltiplos sentidos como estratégia artística e política.

Panis et Circenses
O Tropicália ou Panis et Circenses, considerado o disco-manifesto do movimento, reuniu nomes como Nara Leão, Os Mutantes, Torquato Neto, Capinam e o maestro Rogério Duprat. Gil teve papel fundamental na formulação estética do grupo, ao propor a fusão entre ritmos tradicionais brasileiros — como o samba e referências do sertão — e elementos do rock, da psicodelia e da cultura pop internacional.
Com 12 faixas, o disco sintetiza as principais diretrizes do movimento. Entre elas, a releitura de estilos considerados populares ou marginalizados, como em “Coração Materno”, de Vicente Celestino; a influência do concretismo em faixas como Bat Macumba; e a incorporação da cultura pop em músicas como Baby e Parque Industrial. Os arranjos, assinados por Rogério Duprat, também inovaram ao combinar instrumentos clássicos, como violinos e orquestras, com guitarras elétricas e ruídos urbanos.

A estética visual do movimento também dialogava com referências de fora. A capa do álbum, que reúne todos os participantes, remete diretamente ao disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, da banda The Beatles, considerado pioneiro no conceito de álbum temático.
Ainda em 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a comandar o programa Divino Maravilhoso, exibido pela TV Tupi. A atração reunia apresentações musicais, convidados e intervenções artísticas alinhadas ao espírito experimental da Tropicália, mas durou pouco, permanecendo no ar por menos de quatro meses.

Geleia geral
Décadas depois, em 1993, Gil e Caetano Veloso retomaram os princípios do movimento no álbum Tropicália 2, incorporando novas influências, como o rap e o axé, e reafirmando a vitalidade da proposta tropicalista.
Ao longo de sua trajetória, Gilberto Gil consolidou-se como um dos principais arquitetos da chamada “geléia geral” brasileira — conceito que traduz a convivência entre o arcaico e o moderno, o nacional e o global. Sua obra, marcada pela experimentação e pelo diálogo com diferentes culturas, permanece como referência fundamental para a compreensão da música e da identidade cultural brasileira.

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