No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, dados e relatos mostram a persistência do racismo em Salvador

O advogado Bruno Moura relata casos recorrentes em 2026 e destaca que as vítimas ainda enfrentam medo de denunciar episódios de racismo

Por Liven Paula.

Salvador, capital com o maior número de pessoas pretas no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda registra casos frequentes de racismo em diferentes espaços da cidade. Dados do Censo de 2022 mostram que 34,14% da população da capital se declara preta (825.509 pessoas) e 49,07% parda (1.186.416), somando mais de 2 milhões de moradores negros.

Dados do relatório Quando a cor da pele define o alvo – Racismo, território e desafios para a sociedade baiana (2022–2024), realizado pelo Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal (ISPE), apontam que, em 2024, foram registrados 1.642 casos de racismo e intolerância na Bahia. O levantamento analisou cerca de 4,5 mil ocorrências no período.

O estudo indica ainda que as ocorrências se concentram principalmente em bairros de áreas centrais e de classe média alta, caracterizados pela maior circulação de pessoas e presença de espaços comerciais e de serviços. Entre os locais com maior número de registros estão Caminho das Árvores (9,6%), Pituba e Itapuã (ambos com 7,8%) e Barra (7,1%).


O advogado Bruno Moura, de 30 anos, que atua em casos do tipo, afirma já ter atendido, apenas em 2026, quatro situações envolvendo racismo, injúria racial e intolerância religiosa. “Infelizmente, esses casos de racismo ainda continuam muito presentes na nossa sociedade. Nesse ano de 2026, eu já fui procurado quatro vezes para tratar desses assuntos”, afirmou.

Segundo ele, não há um perfil econômico específico entre as vítimas. “Já atendi desde pessoas mais simples até pessoas de classe média e alta que também passaram por situações de racismo”, disse.



Pituba Por Sitenl

Um dos pontos que mais chama atenção, de acordo com o advogado, é o local onde os casos acontecem. “O que me chama bastante a atenção é que todos os casos de racismo ocorreram em ambientes públicos”, destacou.

Moura aponta ainda que o medo de retaliações faz com que muitas vítimas evitem denunciar. “Essas pessoas ficam receosas em processar por medo de retaliações”, afirmou.

Para ele, o apoio de quem presencia situações de racismo é essencial. “As pessoas precisam se colocar à disposição para coibir o ato e também servir como testemunha no processo”, disse.

Na avaliação do advogado, o aumento no número de registros não significa, necessariamente, mais casos, mas sim maior conscientização. “O que eu percebo não é o aumento dos casos, e sim o aumento da coragem das pessoas em registrar, filmar e procurar a delegacia e o advogado”, concluiu.

 

Agência Brasil

Ser preto é ser alvo

Além dos atendimentos profissionais, o advogado relata também ter sido vítima de racismo. Segundo ele, a situação mais grave ocorreu durante uma abordagem policial. “Um policial apontou um fuzil para o meu carro de forma agressiva, sem motivo. Depois, outros vieram também apontando armas e começaram a questionar o que eu estava fazendo ali e a afirmar que o carro não era meu”, contou.

A postura dos agentes mudou após sua identificação. “Só depois que eu apresentei a carteira da OAB foi que o tratamento mudou”, afirmou.

Mesmo com a população negra sendo maioria em Salvador, casos de racismo continuam sendo registrados. Neste sábado (21), Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, os dados e relatos reforçam que a prática ainda está presente no cotidiano e segue desafiando o enfrentamento efetivo do problema.

 

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