OS INVISÍVEIS: O frio. A fome. O medo. A droga. O drama dos moradores de rua em Salvador
OS INVISÍVEIS: O frio. A fome. O medo. A droga. O drama dos moradores de rua em Salvador
No auge dos seus 40 e poucos anos, Edilson ‘Negão’ — conforme se identificou — não consegue lembrar assim, de supetão, a idade certa. No entanto, com precisão, ele sabe dizer quanto tempo mora nas ruas de Salvador: ?há 15 anos?, pontua, convicto.
Edson relembra com detalhes os caminhos que o levaram até lá. Aos 12 anos aprendeu a beber com o pai e, de lá para cá, foi apresentado a outras drogas lícitas e não tão lícitas assim. Este processo veio a transformá-lo em um dependente químico. “Sem ela (as drogas) não vivo”, gritou em plena luz do dia, durante entrevista ao Aratu Online na praça dos Mares, onde atualmente ‘mora’.
Perguntei a ele: “quem é Edilson ‘Negão’? Como surgiu este nome?”
De cabeça baixa, ‘Negão’ olhou para um ponto fixo e se dispôs a falar. Contou que seu verdadeiro sobrenome é de uma família conhecida na Cidade Baixa e, que por isso, não poderia revelar. Muito confuso, provavelmente pelo consumo ou abstinência momentânea das drogas, foi sucinto ao dizer que “as ruas não são um bom lugar para ninguém viver”.
Durante nossa conversa, em dado momento, ele levantou do chão forrado por um papelão, sacudiu a poeira do corpo, deu as costa para mim e seguiu em busca de algo para comer.
Do outro lado da praça tinha uma família (pai, mãe e uma menina). Tentei me aproximar deles, mas nesta simples menção de chegar mais perto, se afastaram rapidamente.
Nesta fauna urbana está todo tipo de gente: honestas, com problemas mentais, procuradas pela Justiça ou pelo tráfico. É difícil distinguir cada um. O que pensam? Quais suas reais intenções?
Mais a frente vejo um jovem sentado na grama, aparentemente cansado e com fome. Pergunto se posso conversar. O rapaz sorri e com o dedo indicador sinaliza que não. Insisto. Ele acaba aceitando.
VEJA VÍDEO SOBRE OS MORADORES DE RUA EM SALVADOR:
Ele me conta que se chama Ronaldo Freitas e que tem 21 anos. Diz que conheceu as drogas na adolescência. Começou fumando maconha até experimentar a cocaína. Sem trabalhar, foi se endividando ao ponto de sofrer uma tentativa de homicídio.
Os traficantes tentaram matar o rapaz. O valor da dívida evidencia o tamanho do vício:R$ 2.546.
Ronaldo conseguiu escapar da morte. Sem ter para onde ir encontrou nas ruas o único lugar para sobreviver. Nas ruas, ele vende tudo o que encontra: papelão, latinha de cervejas, lava carros e, nas noites de sexta-feira e sábado, recebe sopa de grupos religiosos.
Há três nas ruas, ele confessou que deseja voltar para casa, mas tem medo de ser morto. “Quero voltar a estudar. Conseguir um trabalho e pagar tudo o que devo”, relatou, com os olhos molhados pelas lágrimas.
Ele teme a morte.
CRIANÇA
Uma menina aparentando ter entre dois ou três anos se aproxima de mim para brincar com meu aparelho celular que uso na gravação das entrevistas. Aproveito para sentar num balde utilizado para armazenar água para banho e preparo de alimentos.
A mãe da curiosa menina é Bianca Sacramento, de apenas 19 anos. Ela contou que mora nas ruas de Salvador há três anos — exatamente a mesma idade da filha mais velha.
A mãe de Bianca a expulsou de casa quando soube da gestação. Sem opção, foi morar com seu companheiro nas ruas. Estava grávida.

Repórter senta em um balde para conversar com moradores de rua na praça em Mares. Foto: André Chaves
Os anos foram passando e a expectativa de dias melhores se esvaindo com o tempo.
“Vida de maloqueiro não é fácil não, moça. Tá viajando, é? Nós vivemos em situação precária e ninguém nos dar assistência, somos invisíveis”, disse.
Os invisíveis — como são considerados — vivem em condições sub-humana. Comem coisas que são jogadas no lixo, não tem banho diário, não têm atendimento de saúde. A maioria não possui sequer documentos de identificação.
São inexistentes.
A Secretaria Municipal de Promoção Social Esporte e Combate à Pobreza (SEMPS) – órgão responsável por atender pessoas em situação de rua – informou que, com base nos dados da pesquisa realizada em 2009, pelo Ministério do Desenvolvimento Social, estima-se que 3.500 pessoas estejam em situação de rua na capital baiana.
Deste total, 80% são jovens e adultos, pardos e negros.
Para o acolhimento de população em situação de rua, a SEMPS disponibilizou 12 Unidades de Acolhimento Institucional, com 50 vagas cada, totalizando 600.
Veja relação de cada local abaixo:
EXECUÇÃO DIRETA
UNIDADES CONVENIADAS
Ainda de acordo com a Semps, 434 pessoas em situação de rua foram atendidas nas unidades de acolhimento nos últimos anos na capital.
A pasta diz que ofertou atendimentos socioassistenciais necessários. E garante que, todos estes, foram contemplados com o auxílio moradia no valor de R$ 300 mensais.
REALIDADE
Ainda com estes números na cabeça, em meio à multidão que circulava pela praça, um homem sai andando em minha direção. Ele contou que, apesar de ter sido vítima agressões nas ruas, não tem perspectiva de voltar para casa. Admitiu ser usuário e que não pretende largar as drogas: “Moro sozinho nas ruas. Não tenho filhos ou mulher. Apenas ela (a droga) me faz companhia” acrescentou.
Ele faz uns ‘bicos’ para garantir suas refeições. E conta que, do pouco que consegue, divide com seus familiares. Ou seja, mantém a mesma relação de trabalho e sustento como qualquer um de nós.
Mas não é visto como um de nós. O simples fato de não ter um abrigo é suficiente para reduzi-lo a uma categoria abaixo da nossa. Seu sofrimento é latente. Ele grita. Mas ninguém vê.
É invisível.
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