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02/02/2024 06h00 | Atualizado em 02/02/2024 06h13

Aratu On Explica: Festa de Yemanjá já foi realizada em outros bairros e completa 100 anos no Rio Vermelho

A Festa de Yemanjá, tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador, é celebrada no Rio Vermelho desde 1924

Aratu On Explica: Festa de Yemanjá já foi realizada em outros bairros e completa 100 anos no Rio Vermelho Foto: Carla Galrão/Aratu On
Bruna Castelo Branco

Nesta sexta-feira, 2 de fevereiro, o Rio Vermelho está mais para “Rio Azul e Branco”. É que, desde a madrugada, dezenas de fiéis vestidos com as cores azul e branco se reúnem na praia e nas ruas do bairro de Salvador para saudar e presentear a protetora dos pescadores e rainha das águas, Yemanjá. A entidade, sincretizada no catolicismo como Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora de Candeias, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade e Virgem Maria, é cultuada tanto na umbanda quanto no candomblé, e é considerada a mãe de quase todos os orixás.

A Festa de Yemanjá, tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador, é celebrada no Rio Vermelho desde 1924, de acordo com o Babalorixá Indarê Sá dos Santos, do terreiro do Obatayó, em Cajazeiras. Indarê explica que, desde criança, escuta dos mais velhos que a Festa de Yemanjá surgiu lá atrás, por volta do século XIX. O historiador Murilo Mello afirma que relatos do século XIX do intelectual Manoel Querino já apontavam uma concentração de mais de milhares de pessoas para cultuar Yemanjá em Salvador.

Não há, no entanto, uma versão única sobre o local dos cultos antes da popularização da festa do Rio Vermelho, a principal da capital baiana em homenagem a Yemanjá atualmente. “Os filhos de santo e os pais de santos cultuavam a Mãe D’Água atrás do Forte São Bartholomeu, atrás da Ponta do Humaitá”, diz Murilo. Com o tempo, segundo o historiador, ganhou força o festejo em homenagem ao orixá no bairro de Itapuã. Já o babalorixá afirma que, em Salvador, as homenagens ao orixá começaram a ser feitas no Dique do Tororó.

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Carla Galrão/Aratu On

“Essa oferta a Yemanjá, na verdade, foi feita primeiramente no Dique do Tororó, quando era feita uma oferta para a entidade chamada Yá Odô, a Mãe do Rio. Devido à escassez de peixes no Dique do Tororó, por causa de algumas contaminações, passaram a fazer o ritual no Rio Vermelho. Existia uma romaria dos pescadores, que ofereciam alguns presentes no mar. E essa festa foi se popularizando. Mas, o presente aos mares é feito para outras entidades, que acabaram se reunindo em um só lugar”, detalha Indarê.

É que, na verdade, de acordo com o Babalorixá, quem transformou Yemanjá na “Rainha do Mar” foram os pescadores — inicialmente, terreiros antigos a presenteavam nos rios, e não nas águas salgadas, como explica o líder religioso.

Os pescadores e jangadeiros entenderam que Yemanjá atendeu aos pedidos deles e passaram a fazer a procissão no mar. Eles começaram a presentear Yemanjá nas águas salgadas. Mas, alguns terreiros antigos costumavam agradar a Yemanjá no rio. Depois, ela se tornou a ‘Rainha do Mar’. Mas, ‘Rainha do Mar’, dentro da religião de matriz africana, se chama ‘Olocum’, a ‘Senhora dos Mares'”, completa ele.

Murilo complementa que as oferendas ao orixá também são realizados em outros países. “Vale ressaltar que não é só no Rio Vermelho que se faz um festejo a Yemanjá. Tem festejos em Cuba, na América Central, no Caribe… E nem sempre se festeja em fevereiro”, diz o historiador.

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‘MÃE CUJOS FILHOS SÃO PEIXES’

O nome de Yemanjá, que também pode ser Iemanjá, vem do idioma iorubá, do termo “Yéyé Omó Ejá”. Numa tradução literal para o português, significa “mãe cujos filhos são peixes”. E é dessa relação com a água e da fé dos pescadores que vem a maioria dos apelidos que a entidade ganhou ao longo do tempo: Princesa do Mar, Sereia do Mar, Sereia, Dona Yemanjá, Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, entre muitos outros.

Para Indarê, ver o interesse de tanta gente, da Bahia e de fora, pela Festa de Yemanjá, é a celebração da resistência de uma fé que, em pleno 2024, ainda é alvo de ataques. Em 2018, foram registradas 615 denúncias de intolerância religiosa no Brasil. Em 2023, o número saltou para 1.418, o que representa um aumento de 140,3%.

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“A importância dessa festa é manter viva uma tradição que foi perseguida por séculos, e é uma prova da resistência negra, da resistência do povo de axé, da resistência da fé”, comenta o Babalorixá.

E, por mais que celebre a vida e os feitos de uma orixá, a Festa de Yemanjá também é um evento cultural da Bahia. Independentemente da religião, no dia 2 de fevereiro, todo mundo veste branco ou azul e passa o dia na Praia do Rio Vermelho. No final do dia, como costuma acontecer nas festas populares de Salvador, o sagrado e o profano se misturam, rosas brancas e mar viram uma coisa só, as ruas dão lugar à música baiana e é destacado como, aqui, um depende do outro, como conclui Inderê:

“Essa celebração é muito importante para mantermos viva a lembrança da mãe das mães. Yemanjá é a mãe que sustenta seus filhos. O sustento de seus filhos são os peixes. Yemanjá é a mãe da procriação, da distribuição, da igualdade. É uma forma de a gente lembrar que um depende do outro”.

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