Saúde e Bem-Estar

Setembro Amarelo: quando o autocuidado vira mais uma cobrança

Nathalia Pastori
Colunista On: Nathalia PastoriNathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação.
Setembro Amarelo: quando o autocuidado vira mais uma cobrança

Nunca se falou tanto sobre saúde mental. Especialmente com a expansão das redes sociais, temas como ansiedade, burnout, autocuidado, terapia e qualidade de vida passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas cotidianas. Influenciadores e profissionais nos lembram diariamente da importância de cuidar de nós mesmos: faça terapia, pratique exercícios, medite, viaje, tenha tempo para você, durma bem, coma de forma saudável, desacelere.

Há algo positivo nesse movimento. Hoje conseguimos nomear melhor aquilo que sentimos. “Estou ansioso.” “Estou sobrecarregado.” “Preciso de ajuda.” Dar nome ao sofrimento é importante e pode ser o primeiro passo para buscar cuidado. Mas existe uma contradição que me faz questionar: quem, de fato, consegue cuidar da própria saúde mental da maneira como ela é apresentada?

As redes sociais trouxeram informação, mas também velocidade. Somos constantemente atravessados por conteúdos, opiniões, rotinas e possibilidades. Em poucos minutos, podemos passar de uma pessoa ensinando a meditar para outra mostrando uma rotina de exercícios, uma alimentação saudável ou uma viagem dos sonhos. 

A sensação é de que existe sempre alguma coisa que deveríamos estar fazendo. Faça skincare. Vá à academia. Faça yoga. Medite. Leia. Viaje. Durma oito horas. Coma bem. Beba água. Tenha uma rotina produtiva. Tenha momentos de lazer. Faça terapia. Trabalhe menos.

O Luxo De Descansar Quando O Autocuidado Vira Cobrança

Nada disso é necessariamente ruim. Todas essas práticas podem fazer parte de uma vida mais saudável. O problema aparece quando o autocuidado deixa de ser uma possibilidade e passa a ser apresentado como uma obrigação. Quando aquilo que deveria cuidar começa a funcionar como mais uma cobrança.
Afinal, essas condições não estão igualmente disponíveis para todos.

Nem todo mundo tem dinheiro para fazer terapia, frequentar uma academia, comprar determinados alimentos ou viajar. Nem todo mundo tem tempo para meditar diariamente. Nem todo mundo consegue escolher um trabalho menos adoecedor, tirar férias quando está exausto ou dormir oito horas por noite.

Imagine uma pessoa que acorda cedo, enfrenta horas de transporte público, trabalha, cuida da casa, dos filhos e das próprias responsabilidades. Chega ao final do dia cansada, muitas vezes sem tempo sequer para descansar. E, ao abrir as redes sociais, encontra uma série de recomendações sobre como deveria cuidar melhor de si.

Ela deveria correr dez quilômetros. Meditar. Fazer terapia. Cozinhar uma refeição saudável. Dormir oito horas. Ter momentos de lazer. Mas ela não consegue. E então surge uma nova camada de sofrimento: além de estar cansada, ela passa a se sentir culpada por não conseguir cuidar do próprio cansaço. É nesse ponto que o autocuidado pode se transformar em mais uma forma de cobrança.

O Luxo De Descansar Quando O Cuidado Vira Cobrança

Como psicóloga, acredito que cuidar da saúde mental também significa olhar para aquilo que existe ao redor do indivíduo. Saúde mental não é apenas terapia. Ela também passa pelas relações que construímos, pelas condições de trabalho, pelo descanso, pela segurança, pela renda, pela moradia, pela educação, pelo acesso aos serviços de saúde, pela rede de apoio e pela possibilidade concreta de ter algum tempo para si.

Não adianta dizer para uma pessoa simplesmente “aprenda a controlar a sua ansiedade” quando a realidade em que ela vive produz constantemente insegurança, sobrecarga e exaustão. Saúde mental virou pauta. Isso é um avanço. Mas será que ela se tornou, de fato, um direito acessível?

Reconhecer o sofrimento é importante. Mas reconhecer é apenas uma parte do processo. Precisamos também perguntar: que condições essa pessoa tem para ser cuidada?

Talvez a questão não seja simplesmente se saúde mental é um luxo. Talvez a pergunta mais importante seja por que ainda permitimos que o cuidado seja tão desigual. Cuidar da saúde mental não deveria ser um privilégio de quem pode pagar uma sessão de terapia, tirar férias quando está esgotado ou escolher um trabalho menos adoecedor.

Precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa cuidar e, principalmente, ampliar as possibilidades de acesso a esse cuidado. Porque saúde mental não deveria ser o prêmio de quem conseguiu organizar a própria vida. Ela deveria fazer parte das condições necessárias para que uma vida possa ser vivida.

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Nathalia Pastori

Nathalia Pastori

Nathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação. Atua na clínica com adolescentes e adultos e na área de orientação educacional e profissional. Em sua trajetória, desenvolve trabalhos relacionados à saúde emocional, autoconhecimento, relações amorosas e interpessoais, adolescência e escolhas profissionais.

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