Será que algumas pessoas não sabem pedir ajuda porque aprenderam que precisar de alguém é fracassar?
A cultura do “eu dou conta” está presente na nossa sociedade, e, em tempos de redes sociais e performance, existe uma ideia de que nós podemos, sim, dar conta de tudo sem precisar de ninguém, e aí vêm algumas justificativas: ser forte, produtivo e funcional é sinônimo de sucesso; ser sobrecarregado é ser importante; precisar do outro é sinônimo de fracasso, de drama, vergonha e incapacidade.
Dizer “não estou bem” é se expor emocionalmente, e existe o medo de ser visto como alguém frágil demais ou vulnerável demais. Quantas vezes você deixou de mostrar como você realmente está se sentindo com medo do julgamento do outro, da não compreensão ou até do seu autojulgamento, quando pensa: “Mas eu não tenho motivos para estar mal”, “Tem gente passando por coisa pior”, “Meu problema não é tão grave”?

Acaba sendo construída uma hierarquia da dor, comparamos o nosso sofrimento com o do outro e, quando acreditamos que a dor do outro é maior que a nossa, concluímos que o nosso sofrimento não pode existir ou não merece tanta atenção. E eu sempre me pergunto: Quem determinou o nível de sofrimento necessário para que alguém possa pedir ajuda?
A escritora norte-americana Brené Brown, no seu livro A Coragem de Ser Imperfeito, aborda a ideia de que precisa existir vulnerabilidade para ter conexão, pertencimento, empatia e coragem. Vulnerabilidade é associada muitas vezes a uma fraqueza, mas é a partir dela que podemos sentir diversas emoções e experimentar segurança emocional dentro de uma relação.
Existe uma diferença grande entre precisar de ajuda e ser uma pessoa incapaz. Precisar de ajuda em alguns momentos não diminui aquilo que somos capazes de fazer. Assim como ser uma pessoa funcional, trabalhar, conseguir resolver problemas, cumprir com nossas responsabilidades e conseguir ajudar o outro não são sinônimos de estar bem.
Que tipo de ambiente estamos criando para que o outro se sinta confortável o suficiente para falar que não está bem e que precisa ser ajudado? Como nossas relações têm dificultado ou facilitado que alguém possa pedir ajuda sem medo de ser julgado, diminuído ou visto como incapaz?

Em muitos momentos, a última coisa que a pessoa precisa é de uma solução para aquele problema. Ela pode estar precisando ser escutada e acolhida. Precisa perceber que não está sendo julgada, nem colocada em um lugar de decepção ou incapacidade. Precisa perceber que sua dor não será colocada em uma escala para determinar se é grande o suficiente para merecer atenção.
Para que alguém consiga dizer “eu não aguento mais”, talvez seja importante que antes tenha encontrado espaço para dizer “eu não estou bem”. Pedir ajuda é uma forma de cuidar de si, de respeitar as próprias necessidades, reconhecer os próprios limites e compreender que não precisamos sustentar tudo sozinhos o tempo inteiro.
Talvez o problema não seja apenas não saber pedir ajuda. Talvez seja acreditar que só temos direito a pedi-la quando já não conseguimos mais dar conta.
Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).