Saúde e Bem-Estar

Quando a saúde mental da mulher fica para depois

Nathalia Pastori
Colunista On: Nathalia PastoriNathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação.
Quando a saúde mental da mulher fica para depois

Em que momento uma mulher pode começar a se priorizar? Depois de cuidar dos filhos? Depois de resolver o trabalho? Depois de organizar a casa? Depois de estar disponível para a família, o parceiro e os amigos? Depois de cumprir todas as obrigações? E se esse “depois” nunca chegar?

A saúde mental da mulher ainda ocupa, frequentemente, o lugar do adiamento. Primeiro vêm as responsabilidades. Depois, os outros. Depois, o que é urgente. E, se sobrar tempo, ela. O problema é que esse “depois” pode durar uma vida inteira.

É preciso dizer: não existe uma única experiência de ser mulher. Raça, classe social, idade, maternidade e condições socioeconômicas atravessam diretamente a forma como cada uma vive o sofrimento e acessa as possibilidades de cuidado.

Para algumas, a sobrecarga está na tentativa de equilibrar carreira, maternidade, relacionamentos e expectativas irreais sobre o corpo. Para outras, está em trabalhar exausta ou doente, maternar sem rede de apoio e garantir o básico para a sobrevivência.

Falar de saúde mental feminina exige reconhecer que as linhas de partida são profundamente desiguais. E há também o que fomos ensinadas sobre nosso próprio valor. Em O Mito da Beleza, Naomi Wolf discute como os padrões estéticos funcionam como mecanismos de pressão social. Não basta ser; é preciso parecer jovem, bonita, magra e desejável.

Em A Prateleira do Amor, Valeska Zanello aponta outra forma de validação: a aprovação e o amor masculino como régua de valor. Essa discussão lembra até a sensibilidade do filme Adoráveis Mulheres, que nos mostra que o problema nunca é o caminho escolhido em si (seja construir uma família, focar na carreira ou se dedicar aos estudos).

A questão central é a mulher ter autonomia sobre suas decisões e espaço para cuidar de si ao longo da vida. Ter uma família ou focar no trabalho só se torna um peso quando faltam apoio, escolha e tempo para existir além do papel desempenhado.  

Quando essas cobranças se acumulam, até o autocuidado vira mais uma tarefa da lista. É preciso cuidar do corpo, da imagem, da carreira, dos filhos, da casa e das relações, encontrando ainda tempo para “estar bem mentalmente”. Mas talvez a pergunta não seja como a mulher pode cuidar melhor de si. Talvez a pergunta incômoda seja: quando ela vai se permitir entrar na própria lista de prioridades?x

Muitas esperam uma brecha. Um mês menos corrido. Os filhos crescerem. As contas se estabilizarem. O trabalho acalmar. O dia em que tudo estiver finalmente sob controle. Só que a vida nunca fica totalmente sob controle.

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Priorizar-se não é esperar que sobre tempo; é reconhecer que o seu tempo tem valor agora. Não significa abandonar responsabilidades nem deixar de cuidar de quem se ama. Significa entender que o cuidado não pode ser uma via de mão única.

Talvez se priorizar não seja encontrar um momento em que tudo esteja resolvido. Talvez seja justamente entender que esse momento provavelmente nunca vai chegar. A vida continuará tendo demandas, pessoas precisarão de nós e sempre haverá algo urgente para fazer. Mas você também estará aqui. E talvez cuidar da própria saúde mental comece quando a gente entende que não precisa esperar sobrar tempo para se colocar na própria vida. 

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Nathalia Pastori

Nathalia Pastori

Nathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação. Atua na clínica com adolescentes e adultos e na área de orientação educacional e profissional. Em sua trajetória, desenvolve trabalhos relacionados à saúde emocional, autoconhecimento, relações amorosas e interpessoais, adolescência e escolhas profissionais.

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