Jogando com 30 quilos nas costas
O Brasil precisa decidir se quer proteger quem produz riqueza ou continuar impondo desvantagens a quem gera emprego, renda e desenvolvimento
Imagine uma partida de futebol. De um lado, um time entra em campo carregando uma mochila de 30 quilos nas costas. Do outro, os jogadores entram leves, livres, sem peso algum.
Quem você acha que terá mais chances de vencer?
A resposta parece óbvia. No entanto, é exatamente isso que acontece diariamente com o empresário brasileiro, com o produtor nacional e, no final das contas, com o próprio povo do nosso país.
Estamos assistindo a um debate que ficou conhecido como "taxas das blusinhas". Mas a discussão vai muito além de uma camisa, um tênis ou uma compra feita pela internet. O que está em jogo é algo muito maior: a capacidade do Brasil de competir, produzir e gerar oportunidades para sua própria população.
Hoje, milhares de produtos entram no país com uma carga tributária infinitamente menor do que aquela enfrentada por quem produz ou comercializa dentro do território nacional. Enquanto isso, o empresário brasileiro enfrenta impostos elevados, burocracia, fiscalização constante, custos trabalhistas, licenças, taxas e uma infinidade de exigências.
Não estou defendendo privilégio para ninguém. Estou defendendo a mesma isonomia que invocamos quando discutimos concorrência desleal, informalidade ou guerra fiscal entre estados.
Quando um comerciante paga todos os seus tributos e vê alguém vender o mesmo produto sem cumprir as mesmas obrigações, chamamos isso de concorrência desleal. Quando uma empresa enfrenta uma carga tributária maior do que a de outra por questões de localização, discutimos equilíbrio federativo.
Mas por que deixamos de falar em concorrência desleal quando o concorrente está do outro lado do mundo?
Muitos brasileiros respondem imediatamente: "Mas eu estou comprando mais barato."
Será mesmo?
Aparentemente, sim. Mas o preço que não aparece na etiqueta também precisa ser contabilizado.
Você pode não pagar o imposto naquele momento específico da compra. Mas paga quando uma fábrica fecha, quando uma loja reduz seu quadro de funcionário, quando a arrecadação diminui, quando menos empregos são criados, quando aumenta a informalidade ou quando a riqueza deixa de ser produzida aqui para ser produzida em outro país.
É preciso compreender uma verdade simples: imposto não nasce nas empresas; está embutido no preço pago pelo consumidor.
Se a carga tributária brasileira é excessiva - e ninguém tem dúvida disso - o caminho lógico deveria ser aliviar o peso sobre quem produz aqui, e não criar vantagens para quem produz lá fora.
O Brasil não pode continuar tratando seu setor produtivo como adversário. Quem empreende, investe, gera empregos e paga impostos não é o problema; é parte da solução.
Infelizmente, muitas das decisões tomadas hoje parecem estar mais preocupadas com disputas eleitorais do que com uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o país.
E é justamente aí que entra a consciência cidadã transformadora. Precisamos olhar além das narrativas fáceis, entender como a economia funciona e compreender quem produz, quem gera riqueza e quem sustenta a máquina pública.
Por isso mesmo, a pergunta mais importante não é quanto custa uma blusinha, mas quem paga a conta quando o Brasil deixa de produzir?
E mais: quem paga quando uma indústria fecha suas portas? Quando um comércio reduz seu quadro de funcionários? Quando um jovem perde uma oportunidade de trabalho? Quando um empreendedor desiste de investir? Quando a riqueza que poderia ser gerada aqui passa a ser produzida em outro país?
O consumidor pode até comemorar um desconto hoje. Mas nenhuma nação constrói prosperidade duradoura comprando cada vez mais barato e produzindo cada vez menos.
O desenvolvimento sustentável acontece quando existe equilíbrio. Quando quem produz, emprega, investe e assume riscos encontra condições minimamente justas para competir.
O Brasil não precisa de privilégios; precisa de coerência.
Não faz sentido exigir que nossos empresários disputem o mercado carregando nas costas o peso dos impostos, da burocracia, da insegurança jurídica e dos elevados custos de produção, enquanto seus concorrentes estrangeiros entram em campo livres desse mesmo fardo.
A grande questão não é defender empresas ou governos. É defender o Brasil. Porque toda vez que ignoramos quem produz riqueza, enfraquecemos nossa capacidade de gerar empregos, oportunidades, arrecadação e desenvolvimento.
No final, a partida não é entre empresários e consumidores. A partida é entre um Brasil que acredita na sua própria capacidade de produzir, inovar e prosperar, e um Brasil que se acostumou a assistir sua riqueza, seus empregos e suas oportunidades serem construídos em outro lugar.
Afinal, a realidade sempre nos mostrou que nenhum país vence o jogo jogando contra si mesmo.
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