Saúde e Bem-Estar

A Infância é o chão que a gente pisa a vida toda

Nathalia Pastori
Colunista On: Nathalia PastoriNathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação.
A Infância é o chão que a gente pisa a vida toda

Quantas coisas que você faz hoje começaram muito antes de você saber explicar por quê? Talvez a dificuldade de dizer não. A necessidade de agradar. O medo de decepcionar. A sensação de que precisa dar conta de tudo. A dificuldade de pedir ajuda ou de dizer o que sente.

Às vezes, chamamos tudo isso de personalidade. “Eu sou assim mesmo". Mas será que algumas características que hoje fazem parte de nós, em algum momento, foram  formas que encontramos para nos adaptar ao mundo?

A infância é a fase em que começamos a aprender, muito antes de termos consciência disso, sobre amor, cuidado, segurança, conflitos, limites, reconhecimento e pertencimento. Também construímos algumas das primeiras ideias sobre nós mesmos: se somos bons o suficiente, se podemos errar, se podemos incomodar, se precisamos agradar para sermos amados.

Coluna Infância 2

Em Pequena Miss Sunshine, Olive embarca com a família em uma viagem para participar de um concurso de beleza infantil. Enquanto a família atravessa suas próprias frustrações e expectativas, Olive também vai aprendendo, através dos adultos ao seu redor, o que significa vencer, ser bonita, ser boa o bastante e merecer reconhecimento.

Talvez seja assim que algumas de nossas crenças comecem: não necessariamente através de grandes acontecimentos, mas nas pequenas mensagens que recebemos sobre quem devemos ser para sermos aceitos, amados ou admirados.

Quando aprendemos desde cedo que é preciso ser bom para evitar conflitos, podemos nos tornar adultos com dificuldade de impor limites. Já quem recebia reconhecimento principalmente diante de bons resultados tende a crescer acreditando que sua relevância depende da produtividade. Da mesma forma, a falta de espaço para expressar sentimentos no passado faz com que muitos prefiram guardar tudo para si.

E quantas dessas mensagens continuam nos acompanhando mesmo depois que deixamos de ser crianças?
Isso não significa que toda dificuldade da vida adulta tenha origem na infância. Nem que nossos pais sejam responsáveis por tudo o que somos. A infância é parte da nossa história, mas não é uma sentença.

O que acontece é que, muitas vezes, continuamos respondendo ao presente com recursos que foram construídos para um passado que já não existe. Aquilo que um dia foi necessário pode deixar de ser. Uma forma de se proteger que fez sentido em determinado momento pode, anos depois, dificultar nossos relacionamentos, nossas escolhas e até a maneira como nos enxergamos.

Coluna Infância 1

Talvez seja por isso que algumas situações do presente provoquem reações que parecem maiores do que o acontecimento em si. Uma crítica pode despertar uma sensação antiga de inadequação. Um afastamento pode ser vivido como abandono. Um erro pode parecer uma confirmação de que não somos bons o suficiente. 

E não é sobre culpar a infância por tudo. É sobre compreender. Compreender de onde algumas dores podem ter vindo. Perceber quais histórias ainda influenciam nossas escolhas. Reconhecer quais formas de se proteger continuam sendo usadas mesmo quando já não são necessárias.

Olhar para a infância não precisa significar procurar culpados. Pode significar olhar para a criança que fomos com mais cuidado e menos julgamento. A infância é o chão que a gente pisa a vida toda. Mas crescer é perceber que, embora a base seja a mesma, hoje somos nós que escolhemos como dar cada passo sobre ela.

Entender a criança que fomos pode explicar muita coisa. Mas não precisa determinar quem seremos.

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Nathalia Pastori

Nathalia Pastori

Nathalia Pastori é psicóloga, gestalt-terapeuta e pós-graduada em Neuroeducação. Atua na clínica com adolescentes e adultos e na área de orientação educacional e profissional. Em sua trajetória, desenvolve trabalhos relacionados à saúde emocional, autoconhecimento, relações amorosas e interpessoais, adolescência e escolhas profissionais.

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