UFBA vai formar 230 profissionais de segurança pública em crimes digitais
Especialização gratuita reúne agentes de todo o país para capacitação em cibersegurança
Por Isabela Cardoso.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) iniciou uma especialização gratuita em Direitos Digitais e Segurança Cibernética para capacitar 230 profissionais de segurança pública de todo o Brasil. A formação busca preparar policiais, peritos e bombeiros para investigar crimes digitais e lidar com provas eletrônicas.

A turma reúne profissionais das 27 unidades federativas brasileiras, incluindo os 26 estados e o Distrito Federal. Segundo os dados das inscrições homologadas, apenas 8% dos alunos são da Bahia. A seleção registrou cerca de 560 inscritos, mais que o dobro do número de vagas disponíveis.
Financiado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, o curso integra a Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (Renaesp). As aulas serão realizadas a distância, ao longo de aproximadamente 14 meses, com carga horária de 360 horas.
Curso da UFBA aborda perícia digital e inteligência artificial
A especialização foi estruturada para combinar conhecimentos técnicos, jurídicos e de gestão aplicados à investigação criminal. A realização é do Instituto de Computação da UFBA, em articulação com o Centro Interdisciplinar de Estudos e Formação em Segurança Pública (CIGESP), com parceria da Faculdade de Direito e da Escola de Administração.
Segundo o coordenador do curso, Leobino Sampaio, o conteúdo começa com fundamentos de cibersegurança e cibercrimes, avança pela legislação e pelo direito digital e chega a temas como computação forense, perícia criminal, gestão de identidade digital com uso de blockchain, ciência de dados, sistemas inteligentes e inteligência artificial.
A metodologia utiliza a aprendizagem baseada em problemas, com estudos de caso e oficinas relacionados ao cotidiano dos próprios alunos. Em vez de uma monografia, cada participante deverá concluir a especialização com um projeto de intervenção voltado a um problema real da instituição em que trabalha.
Crimes digitais desafiam investigação e produção de provas
A formação ocorre em um cenário de crescimento dos registros de estelionato no país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, o Brasil contabilizou 2.261.055 registros desse crime em 2025. Os dados citados também apontam 63.771 processos penais e 4.819 pessoas presas, indicadores que precisam ser analisados conforme seus respectivos critérios e universos de referência.
Na Bahia, investigações recentes ilustram os desafios enfrentados pelas autoridades. Em Porto Seguro, a Operação Firewall levou à prisão de dois suspeitos de envolvimento em um golpe que desviou R$ 424,7 mil de uma empresa global de telecomunicações. Para alcançar o grupo, foram cumpridos mandados em outros seis estados e no Distrito Federal.
Em Salvador, uma funcionária de 26 anos foi presa em agosto, suspeita de desviar quase R$ 3 milhões de cinco empresas. Segundo as informações divulgadas sobre a Operação Fluxo Oculto, o esquema envolveu cerca de 386 transferências via Pix realizadas ao longo de pouco mais de um ano, com uso de contas bancárias da mãe e do marido da investigada.
Durante a aula magna da especialização, o diretor de Inteligência da Polícia Civil da Bahia, delegado Delmar Araújo Bittencourt, chamou a atenção para a dificuldade de investigar crimes cujos envolvidos podem estar em diferentes localidades.
“Um crime digital não tem fronteira”, resumiu o delegado, ao explicar que a vítima pode estar em Salvador, o autor em São Paulo e o dinheiro em Rondônia.

Delmar também apontou a subnotificação como um obstáculo. Segundo ele, a vergonha de admitir que caiu em um golpe pode levar vítimas a desistir de registrar a ocorrência. Sem essas informações, a polícia perde oportunidades de identificar padrões e relacionar casos semelhantes.
Prova digital exige estrutura e cuidados jurídicos
A coleta e a preservação de evidências eletrônicas também estiveram entre os temas debatidos na abertura do curso. O promotor de Justiça João Paulo Santos Schoucair, do Ministério Público da Bahia e ex-conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), destacou o custo das ferramentas utilizadas para extrair dados de celulares com garantia de integridade.
Segundo ele, enquanto um aplicativo espião pode ser vendido por cerca de R$ 100, a licença do software utilizado pelo Estado para extração forense de dados de um celular chega a R$ 1,5 milhão.
Schoucair também relatou que o Ministério Público baiano desenvolveu uma ferramenta própria de inteligência artificial para analisar processos durante a noite e sugerir, pela manhã, se cada caso deve ser arquivado, denunciado ou encaminhado para novas diligências.
O promotor ponderou, contudo, que a tecnologia não elimina os problemas humanos envolvidos no trabalho. “O problema não está na programação, está entre a mesa e a cadeira. Somos nós”, afirmou.
A formação também aborda os limites legais do uso dessas ferramentas. A prova digital precisa ser coletada e preservada conforme as regras jurídicas para sustentar uma investigação e sua eventual utilização na Justiça. O tratamento de dados pessoais exige cuidados para evitar violações de direitos.
Segurança cibernética e proteção de dados
O debate da aula magna também tratou dos riscos associados ao uso de tecnologias de monitoramento e identificação. Yuri Alexandro, profissional da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) que atua com privacidade e proteção de dados, defendeu a adoção de mecanismos de controle sobre sistemas utilizados na segurança pública.
Ele citou as câmeras corporais como instrumentos que podem ajudar a coibir abusos durante abordagens e produzir provas, mas destacou a necessidade de estabelecer limites para o uso das imagens. Sobre o reconhecimento facial, mencionou falhas de precisão que podem levar à identificação equivocada de pessoas.

Para Yuri, sistemas que processam grandes volumes de informações pessoais precisam de gestão de riscos, testes de precisão, transparência e diálogo com a sociedade civil. Ele também defendeu limites para o compartilhamento de imagens e dados com empresas privadas.
A Bahia já localizou mais de 5,3 mil foragidos da Justiça com o uso de reconhecimento facial desde a implantação da ferramenta, segundo a Secretaria da Segurança Pública do estado. Durante o debate, os participantes defenderam que tecnologias de investigação sejam acompanhadas de mecanismos de auditoria e governança.
“O Estado pode fazer muita coisa, mas ele não pode tudo”, afirmou o delegado Delmar Araújo Bittencourt.
Formação integra política nacional de segurança pública
A especialização faz parte de uma política de qualificação de profissionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Segundo Michele Gonçalves dos Ramos, diretora de Ensino e Pesquisa da Senasp, o Ministério da Justiça e Segurança Pública pactuou, em 2026, mais de duas mil vagas em cursos de especialização com universidades de todo o país.
A abertura da formação ocorreu na sexta-feira (25), no auditório da Escola de Administração da UFBA, com transmissão ao vivo para os estudantes. Participaram da mesa o reitor João Carlos Salles, a diretora da Senasp, o diretor do Instituto de Computação, Ivan Machado, a coordenadora do CIGESP, Ivone Freire Costa, e o coordenador do curso, Leobino Sampaio.
O secretário da Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner, enviou uma mensagem em vídeo para a aula magna. Na ocasião, os participantes discutiram os desafios da investigação criminal diante do avanço dos crimes digitais e a necessidade de conciliar o uso de tecnologia com a proteção dos direitos fundamentais.
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