Pacientes perdem visão após cirurgia de catarata em Salvador: o que se sabe sobre
O caso está sendo apurado pela Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), que recebeu boletins de ocorrência e colhe depoimentos de pacientes e familiares
Por Dinaldo dos Santos.
A polícia investiga os casos de pelo menos seis pacientes que perderam a visão de um dos olhos após cirurgias de catarata realizadas, durante mutirão, ocorrido no dia 26 de fevereiro, na clínica oftalmológica Clivan, que fica na Avenida Anita Garibaldi, em Salvador. Parte deles tiveram o globo ocular removido em virtude de infecções graves.
A catarata é uma doença ocular caracterizada pela opacificação do cristalino, lente natural do olho responsável por focar as imagens na retina. Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), trata-se da principal causa de cegueira reversível no mundo e afeta, sobretudo, pessoas acima dos 60 anos.
Investigação policial em curso
O caso está sendo apurado pela Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), que recebeu boletins de ocorrência e colhe depoimentos de pacientes e familiares. Laudos periciais ainda são aguardados para identificar causas e eventuais falhas técnicas ou de biossegurança no procedimento.

O que dizem outros órgãos?
- A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador interditou a clínica e suspendeu o convênio com a Prefeitura, além de instaurar processo administrativo sanitário para apurar a conformidade dos serviços;
- A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia esclareceu que a unidade não tinha convênio com a rede estadual desde dezembro de 2025 e que nenhum dos pacientes vinha da lista estadual;
- O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia realizou fiscalização técnica e prepara um relatório que poderá resultar em sanções ético-profissionais.
Situação de pacientes
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Dezenas de pacientes apresentaram complicações, incluindo mais de 30 denúncias de problemas oculares após o procedimento;
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Familiares relatam que as vítimas, em sua maioria idosos, apresentaram dores intensas, lacrimejamento, sangramento e perda de visão no pós-operatório, evoluindo para quadros infecciosos que levaram à necessidade de enucleação (remoção do globo ocular) em alguns casos;
- A paciente, Maria Ribeiro Brito, 72 anos, moradora de Acajutiba, no interior do estado, também perdeu a visão do olho operado e relatou que o procedimento foi bastante sofrido;
- As vítimas que perderam a visão foram encaminhadas para atendimento em hospitais públicos, como o Hospital Santa Luzia e o Hospital Geral do Estado (HGE), onde parte delas foi diagnosticada com infecção bacteriana severa.

Posicionamento jurídico
A criminalista que representa um dos pacientes com perda ocular, Eveline Santos, destacou que a análise dos prontuários, registros e históricos clínicos será essencial para responsabilizar civil e criminalmente os envolvidos, caso seja comprovada negligência, imperícia ou imprudência na prática médica.
No âmbito penal, a conduta pode ser enquadrada como lesão corporal gravíssima ou até homicídio culposo, dependendo dos laudos e das provas técnicas, enquanto na esfera cível pode haver pedidos de indenização por danos materiais e morais às famílias afetadas.
Má higienização causou problema semelhante no RN
Em 2024, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) apurou que uma falha nos procedimentos de higienização e esterilização de equipamentos cirúrgicos foi a causa da contaminação de 15 pessoas após um mutirão de procedimentos cirúrgicos de catarata na cidade de Parelhas.
Do total de pessoas infectadas, nove perderam o globo ocular devido à ação da bactéria Enterobacter cloacae, normalmente encontrada no trato intestinal. Na ocasião, o MP instaurou um procedimento para determinar com exatidão o aparelho ou aparelhos infectados.
“De fato, houve uma falha na higienização e esterilização no ambiente. Nós não sabemos ainda qual foi o instrumento que estava infectado e não sabemos se foi uma falha humana, mas com as evidências que temos, é possível dizer que houve uma falha na higienização”, afirmou a promotoria de Justiça à época da ocorrência.
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