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'O sonho virou pesadelo', diz mãe de jovem vítima de tráfico humano no Camboja

Nove baianos foram vítimas de tráfico humano no exterior, e mães fazem apelo por retorno ao Brasil

Por Bruna Castelo Branco.

“Aqui é o apelo de uma mãe que não está dormindo, não está comendo e só quer o filho de volta”. O relato é de uma das mães de jovens brasileiros que, segundo familiares, foram vítimas de tráfico humano e exploração no exterior. Entre as vítimas estão nove baianos, todos de Salvador, que teriam viajado para trabalhar em um restaurante, mas acabaram sendo levados para o Camboja e obrigados a aplicar golpes pela internet.

Os jovens deixaram o Brasil em janeiro, atraídos pela promessa de um emprego no exterior e de um salário em dólar. A expectativa, segundo as famílias, era trabalhar, ajudar os parentes e construir uma vida melhor.

Nove baianos foram vítimas de tráfico humano no exterior, e mães fazem apelo por retorno ao Brasil. | Foto: TV Aratu/Reprodução

Ainda conforme os relatos, a proposta de emprego, porém, seria uma fraude. Ao chegarem ao exterior, os jovens teriam sido encaminhados para o Camboja, onde passaram a ser obrigados a trabalhar para uma organização criminosa.

Jovens foram obrigados a aplicar golpes

À repórter Lara Linhares, da TV Aratu, familiares disseram que o grupo era forçado a aplicar golpes pela internet contra pessoas de diferentes países. Os jovens também teriam sido submetidos a ameaças, agressões psicológicas, fome e controle constante.

Os celulares eram revistados e o contato com os familiares no Brasil era monitorado. Ainda de acordo com os relatos, os criminosos ameaçavam os parentes dos jovens caso eles não cumprissem as ordens.

"Eles foram enganados, foram com tudo certo, deram passaporte, passagens aéreas. Foram obrigados a trabalhar fazendo coisas erradas na internet. Eram ameaçados o tempo todo, faziam torturas psicológicas. E o celular deles sempre sendo vigiados, para que eles não passassem nenhuma impressão que fizesse a gente perceber daqui. Ele foi para me ajudar, ajudar o filho dele", detalhou a mãe de uma das vítimas.

Os jovens deixaram o Brasil em janeiro, atraídos pela promessa de um emprego no exterior e de um salário em dólar. | Foto: Arquivo Pessoal

Em algumas ocasiões, os criminosos entregavam dinheiro aos jovens para que eles enviassem aos familiares. A estratégia, segundo as famílias, seria uma tentativa de fazer parecer que os brasileiros estavam trabalhando normalmente.

Uma das mães conta que começou a desconfiar da situação quando o filho demorou para entrar em contato após chegar ao exterior. As explicações dadas pelos criminosos, no entanto, faziam parecer que tudo estava dentro da normalidade.

A realidade, segundo os relatos, era diferente. Os jovens teriam passado fome e recebido ameaças de choques, espancamentos e agressões verbais. "Ficavam todos alojados no mesmo lugar, chegavam a trabalhar 12 horas por dia. Só uma refeição por dia", contou a mãe.

Os jovens teriam passado fome e recebido ameaças de choques, espancamentos e agressões verbais. | Foto: Arquivo Pessoal

Grupo foi levado para Madagascar

Ainda segundo os familiares, quando os criminosos percebiam que poderiam ser descobertos, os jovens eram transferidos às pressas para outros locais. Em algumas situações, eles sequer tinham tempo de recolher os próprios pertences.

Depois de meses nessa situação, parte do grupo foi levada para Madagascar. Foi no país africano que alguns dos jovens conseguiram fugir.

Após a fuga, segundo as famílias, alguns chegaram a passar dias dormindo no aeroporto, até receberem auxílio de uma organização não governamental.

Agora, os jovens enfrentam outro problema: sem dinheiro e sem os passaportes, eles não têm condições de comprar as passagens de volta para o Brasil. Os documentos, segundo os familiares, continuam em poder dos criminosos.

Jovem e noiva foram atraídos por promessa de emprego

Entre as vítimas está um jovem brasileiro e a noiva dele. De acordo com a família, os dois foram atraídos pela promessa de um emprego no exterior, com pagamento em dólar.

A mãe descreve o filho como um jovem trabalhador e a noiva como uma jovem inteligente que cursava faculdade. Para a família, a oportunidade representava a possibilidade de melhorar as condições de vida.

Ainda de acordo com os relatos, os criminosos ameaçavam os parentes dos jovens caso eles não cumprissem as ordens. | Foto: Arquivo Pessoal

“Meu filho é um jovem trabalhador e a noiva dele é uma jovem inteligente, que cursava faculdade. Eles foram atraídos por uma proposta de emprego no exterior para nos dar uma melhor condição de vida. Nossos filhos acabaram sendo enganados, escravizados e forçados a trabalhar aplicando golpes”.

Em outro momento do depoimento, a mãe reforçou o desespero das famílias que aguardam o retorno dos jovens.

“São vários jovens. Todos eles só querem voltar para o Brasil. Aqui é o apelo de uma mãe que não está dormindo, não está comendo e só quer o filho de volta”.

Famílias fazem campanha para trazer jovens de volta

Sem recursos para custear o retorno dos brasileiros, as famílias criaram uma vaquinha online para arrecadar dinheiro para as passagens e também garantir alimentação aos jovens enquanto eles permanecem em Madagascar.

As mães também fazem um apelo às autoridades e a pessoas que possam ajudar na retirada do grupo do país e no retorno ao Brasil.

“Eu peço ajuda aos governadores, aos políticos e a todos que puderem nos ajudar. Não só a mim, mas a todas as mães que estão com os corações dilacerados. Ajudem nossos filhos a voltar”.

O objetivo das famílias é conseguir trazer os jovens de volta ao Brasil em segurança, depois de meses de medo, exploração e sofrimento.

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