Comandante da PM alerta mulheres evangélicas sobre violência doméstica

Comandante da PM alerta mulheres evangélicas sobre violência doméstica e desafios enfrentados dentro do ambiente religioso: ‘não existe na Bíblia lugar que diga que a mulher deve aceitar violência’

Por Laraelen Oliveira.

A comandante da Polícia Militar (PM) da Bahia, Angela Maria, da Ronda Maria da Penha de Itabuna, fez um alerta importante durante um encontro com mulheres evangélicas ao abordar a violência doméstica e os desafios enfrentados por vítimas dentro do ambiente religioso. Em sua fala, ela destacou dados preocupantes e reforçou a necessidade de romper o silêncio e buscar ajuda diante de qualquer tipo de agressão.

Se você ou alguém que conhece está em situação de violência doméstica, é possível denunciar pelo telefone 180/Foto: Redes Sociais 

No podcast “magdavozdopovo”, a comandante declarou que um dos dados que mais chama atenção é o número de mulheres evangélicas entre as vítimas de violência doméstica. “Talvez seja um choque ouvir isso, mas dentre todos os dados que a gente falou aqui, o maior número de mulheres agredidas dentro do âmbito doméstico e familiar está relacionado com mulheres evangélicas”, afirmou.

+Morte de sargento da PM pode ter sido emboscada; veja o que se sabe

Ela ressaltou ainda que a fé não deve ser usada como justificativa para tolerar violência. Para a comandante, não existe base religiosa que sustente a submissão à agressão. “Não existe nenhum lugar na Bíblia que diga que a gente precisa ser submetida a esse tipo de coisa”, disse. A fala também buscou desconstruir interpretações equivocadas sobre a submissão feminina citada em textos bíblicos. “Quando fala que a mulher tem que ser submissa, não é estar embaixo, é estar ao lado. A costela foi tirada daqui, não foi do pé”, explicou.

 

 

 

Comandante fala sobre acolhimento dentro da igreja 

Durante o encontro, foi relatado o caso de uma mulher que viveu durante anos em um contexto familiar de violência. De acordo com o relato, a mãe dessa jovem procurou ajuda diversas vezes dentro da igreja, pedindo orientação ao pastor porque não suportava mais a situação. Em uma das ocasiões, o agressor foi chamado para conversar. No entanto, ele utilizou argumentos religiosos para convencer o líder religioso de que a separação não deveria acontecer.

A violência doméstica geralmente ocorre em ciclos: primeiro surgem tensões e discussões, depois acontece a agressão/Foto: Redes Sociais 

Segundo a comandante, o homem afirmou que, no momento do casamento, a esposa prometeu diante de Deus que ficaria com ele até que a morte os separasse. Esse tipo de argumento, explicou ela, acaba sendo utilizado para pressionar mulheres a permanecerem em relações abusivas.

 

 

 

+Advogada é sequestrada durante assalto no bairro Stella Maris em Salvador

A comandante ressaltou que a questão não se limita a uma igreja específica, mas a crenças e interpretações que podem reforçar o silêncio das vítimas. “Não estamos falando de placas de igreja, estamos falando de crenças. Às vezes a fé leva as mulheres a se submeterem em cenários de violência”, afirmou.

Ela destacou ainda que muitas mulheres são aconselhadas a ter paciência e apenas orar pela mudança do companheiro. “Muitas vezes elas ouvem: tenha paciência, ore pelo seu companheiro, Deus vai trabalhar e transformá-lo. Mas enquanto isso a violência continua”, disse.

 

 

Recorde racial de violência doméstica no Brasil mostra mulheres negras como principais vítimas

Outro ponto abordado foi o recorte racial da violência doméstica no Brasil. “Entre 73% e 78% das mulheres negras são as grandes vítimas de violência. Precisamos de políticas públicas para isso? Com certeza ", afirma a comandante.

Para ela, esse dado revela desigualdades estruturais que precisam ser enfrentadas por meio de políticas públicas. “Por que a minha cor vai validar alguém dizer que eu não mereço ser respeitada? Por que o tipo do meu cabelo vai me tornar passível de ser violentada?”, questionou.

 

 

Além da violência física, ela chamou atenção para outras formas de agressão que muitas vezes passam despercebidas. Segundo a comandante, a agressão física costuma ser o estágio final de um ciclo de violência que começa muito antes.

Entre os exemplos citados estão humilhações, xingamentos, controle financeiro, privação de necessidades básicas e impedimento de acesso à saúde. “Você precisa se perguntar: eu mereço ser xingada? Eu mereço ser humilhada? Eu preciso passar fome ou ser privada de um médico para provar que sou uma boa esposa?”, pontuou.

+Baiano é preso suspeito de dopar e estuprar colegas de trabalho

Para a comandante, identificar os primeiros sinais de violência é fundamental para interromper o ciclo antes que ele se agrave. Ela reforçou que quanto mais cedo a mulher buscar ajuda, maiores são as chances de evitar consequências mais graves.

“O quanto antes você romper esse ciclo e sair fora, melhor para você. Porque talvez no dia seguinte não haja tempo para pedir socorro”, alertou.

Ao final da fala, ela incentivou as mulheres a reconhecerem seu próprio valor e seus direitos. “Você precisa se posicionar. Entender que merece respeito, dignidade e uma vida sem violência”, concluiu.

TJ-BA lança aplicativo para solicitar medida protetiva contra violência

O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) anunciou o lançamento de um aplicativo que dará uma maior facilidade para mulheres vítimas de violência doméstica solicitar medida protetiva de urgência de forma mais rápida e acessível. A ferramenta começará a funcionar a partir da próxima segunda-feira (9). 

O aplicativo se chama TJBA Zela e estará disponível para dispositivos com sistemas iOS e Android. Para acessar a plataforma, será necessário utilizar uma conta gov.br.

De acordo com promotora denúncias de violência contra mulher crescem e exigem rede de proteção

O aumento das denúncias de violência contra a mulher tem sido visto como um avanço no enfrentamento ao problema, mas também expõe um desafio significativo, a necessidade de ampliar a estrutura da rede de proteção. A promotora de Justiça  Sara Gama alertou que as denúncias de violência contra mulher crescem e exigem estrutura.

A especialista é também coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher do Ministério Público da Bahia (MP-BA). Em entrevista ao Aratu On, ela apontou que a necessidade de incentivar as vítimas a denunciar segue sendo fundamental, mas com dez anos desde a criação de leis e campanhas sobre feminicídio, a resposta do poder público precisa está alinhado com o crescimento das demandas.

Parceiros ou ex-namorados são responsáveis por 72,9% dos casos de feminicídios na Bahia

A Rede de Observatórios da Segurança divulgou a sexta edição do boletim Elas Vivem: a urgência da vida, que reúne dados sobre violência contra mulheres em nove estados brasileiros, entre eles a Bahia.

De acordo com a pesquisa, o estado da Bahia registrou 240 casos de violência contra mulheres em 2025, número que representa uma redução de 6,6% em relação ao ano anterior. O estudo também aponta lacunas na identificação das vítimas, em 85% das ocorrências não havia informação sobre raça ou cor.

Siga a gente no InstaFacebookBluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).

Comentários

Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Aratu On.

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.