Clínica em Salvador é interditada após casos de cegueira em cirurgias
Mais de 30 pacientes relataram complicações após o procedimento. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) confirmou a interdição e informou a suspensão do convênio da clínica
Por Dinaldo dos Santos.
Quatro pessoas perderam a visão de um dos olhos após participarem de um mutirão de cirurgias de catarata em uma clínica oftalmológica de Salvador. A Clivan, situada na Avenida Garibaldi, foi interditada após as denúncias.
Informações preliminares dão conta que mais de 30 pacientes relataram complicações após o procedimento. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) confirmou a interdição e informou a suspensão do convênio da unidade com a Prefeitura.
Entenda a catarata
A catarata é uma doença ocular caracterizada pela opacificação do cristalino, lente natural do olho responsável por focar as imagens na retina. Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), trata-se da principal causa de cegueira reversível no mundo e afeta, sobretudo, pessoas acima dos 60 anos.
Contudo, a catarata também pode surgir de forma congênita ou associada a traumas, uso prolongado de corticoides e doenças como o diabetes.
Entre os principais sintomas estão visão embaçada ou nublada, dificuldade para enxergar à noite, sensibilidade à luz, percepção de cores mais opacas e necessidade frequente de trocar o grau dos óculos.

Clínica é interditada após problemas em mutirão
A SMS informou que, tão logo tomou conhecimento da situação envolvendo procedimentos oftalmológicos, interditou a clínica Clivan, responsável pelas intervenções, e suspendeu e convênio desta unidade com o município.
A pasta reforçou que, de imediato, adotou medidas sanitárias para apuração dos fatos e minimização de riscos à população. A clínica Clivan, conforme a SMS, é devidamente licenciada junto à Vigilância Sanitária Municipal, com alvará sanitário vigente, tendo atendido aos requisitos técnicos e normativos exigidos para funcionamento.
De acordo com a SMS, no âmbito da Vigilância Sanitária, foram adotadas as seguintes providências cautelares:
• Suspensão cautelar do alvará sanitário;
• Interdição temporária dos serviços relacionados aos procedimentos em apuração;
• Instauração de processo administrativo sanitário para verificação das condições de funcionamento e conformidade com as normas vigentes;
• Notificação ao Ministério Público e CREMEB para acompanhamento nas esferas cabíveis.

Mutirão de cirurgias
A SMS esclareceu, ainda, que não procede a informação de que o mutirão mencionado tenha sido uma iniciativa da Prefeitura, uma vez que não havia contrato ativo vigente para realização de mutirões com a clínica citada.
Informou também que a unidade possui contrato para realização de procedimentos oftalmológicos regulares, e que está apurando as circunstâncias em que os atendimentos do dia 26 de fevereiro foram realizados, incluindo a verificação de autorizações, registros nos sistemas oficiais e a conformidade com os fluxos assistenciais estabelecidos.
Ainda de acordo com a SMS, informações sobre o quantitativo de procedimentos e possíveis intercorrências também estão sendo levantadas no âmbito da Vigilância Sanitária e da Diretoria de Regulação, Controle e Avaliação, para elucidação completa dos fatos.
Em relação ao ônibus disponibilizado, a Secretaria informou que a medida foi adotada de forma pontual e assistencial, com o objetivo de acolher os pacientes que tiveram o atendimento suspenso, garantindo mais segurança, organização e apoio na condução dessas pessoas para continuidade do cuidado.
Pacientes reclamam de dores
Em contato com a nossa reportagem, Eronildes Ribeiro relatou os problemas enfrentados pela mãe, após realizar a cirurgia. A idosa Maria Ribeiro Brito, 72 anos, moradora de Acajutiba, no interior do estado, corre o risco de perder a visão, por conta do procedimento.
Segundo Eronildes, a mãe não tem comorbidades importantes, além de uma hipertensão arterial. Ela disse para a filha que o procedimento foi muito sofrido.
"Fizeram de uma forma agressiva e ela reclamava muito de dor. Quando terminou o procedimento e ela foi pra casa, no mesmo dia, o olho dela começou a escorrer muita secreção. À noite, não conseguiu dormir e o olho começou a ficar bastante inchado e com muita vermelhidão", disse.
A paciente, no dia seguinte, retornou para revisão e encontrou várias pessoas com reclamações idênticas. De acordo com Eronildes, todos foram submetidos a tratamento com antibiótico.
"Desde o dia que fez a cirurgia, ela não está enxergando. A SMS acolheu os pacientes e encaminhou todo mundo para o Hospital Santa Luzia, mas já foi constatado que ela perdeu a visão. Agora é tentar preservar o globo ocular pra não ter que remover, como aconteceu já com outras pessoas", acrescentou.

Nossa reportagem entrou em contato também com a criminalista Eveline Santos. Ela defende os interesses de outro paciente que perdeu a visão. A advogada relatou que seu cliente realizou, ontem à noite, a cirurgia para retirada do globo ocular. "Ele, felizmente, passa bem, mas a família está desolada.", contou.
O paciente que não teve a identidade revelada por Eveline, fez a colocação de uma prótese no local do olho esquerdo. A advogada também informou que, já foi procurada por parentes de outros pacientes e está requerendo que essas pessoas busquem por prontuários e históricos dos atendimentos na Clivan, para que sejam apuradas as informações necessárias, a fim de que tudo seja bem analisado.
O Aratu On tentou falar com a representação da Clivan, mas até o momento da publicação desta matéria, não obteve retorno.
Má higienização causou problema semelhante no RN
Em 2024, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) apurou que uma falha nos procedimentos de higienização e esterilização de equipamentos cirúrgicos foi a causa da contaminação de 15 pessoas após um mutirão de procedimentos cirúrgicos de catarata na cidade de Parelhas.
Do total de pessoas infectadas, nove perderam o globo ocular devido à ação da bactéria Enterobacter cloacae, normalmente encontrada no trato intestinal. Na ocasião, o MP instaurou um procedimento para determinar com exatidão o aparelho ou aparelhos infectados.
“De fato, houve uma falha na higienização e esterilização no ambiente. Nós não sabemos ainda qual foi o instrumento que estava infectado e não sabemos se foi uma falha humana, mas com as evidências que temos, é possível dizer que houve uma falha na higienização”, afirmou a promotoria de Justiça à época da ocorrência.
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