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Bombeiros da Bahia criam curso e protocolo para atendimento a tentativas de suicídio

Entre 2022 e 2025, o Corpo de Bombeiros Bahia registrou 1.188 ocorrências envolvendo tentativas de suicídio

Por Da redação.

Entre 2022 e 2025, o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) registrou 1.188 ocorrências envolvendo tentativas de suicídio. Uma pesquisa realizada com 328 bombeiros para avaliar a preparação dos profissionais nesses atendimentos mostrou que apenas 20, cerca de 6%, se consideravam plenamente preparados para lidar com esse tipo de situação.

Mais de 90% dos entrevistados classificaram as ocorrências como mais difíceis do que outros tipos de salvamento, enquanto 97% manifestaram interesse em uma formação específica.

Entre 2022 e 2025, o Corpo de Bombeiros Bahia registrou 1.188 ocorrências envolvendo tentativas de suicídio. | Foto: Divulgação

Foi a partir dessa realidade operacional que os tenentes-coronéis Jamile Lutiane Ferreira Mattos e Ramon Dieggo Pimentel Valle Baylão Diniz desenvolveram trabalhos que resultaram em duas soluções complementares: um curso específico de capacitação e um Procedimento Operacional Padrão (POP) para orientar a atuação da corporação.

Os resultados foram apresentados nesta quinta-feira (24), em Salvador, durante um encontro sobre prevenção do suicídio, acolhimento e atuação em situações de crise, promovido pelo Corpo de Bombeiros Militar da Bahia em parceria com o Mestrado Profissional em Segurança Pública, Justiça e Cidadania da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“Eu fiz a estrutura e escrevi a capacitação do curso, e Ramon, o protocolo. Eles se somam e fizeram com que o trabalho efetivamente acontecesse”, explicou a Ten Cel BM Jamile Lutiane Ferreira Mattos. “Nosso objetivo, enquanto instituição, é servir melhor a sociedade”.

A proposta desenvolvida incorpora uma atuação estruturada, que envolve organização e segurança do cenário. | Foto: Divulgação

Da atuação tática a uma abordagem estruturada

Segundo Ramon, antes da adoção de uma metodologia específica de abordagem técnica, a resposta dos Corpos de Bombeiros a esse tipo de ocorrência era predominantemente tática.

A proposta desenvolvida incorpora uma atuação estruturada, que envolve organização e segurança do cenário, definição das funções da equipe, comunicação, escuta, avaliação permanente de riscos, atendimento pré-hospitalar, encaminhamento à rede de saúde e articulação com outros serviços.

“Antes de tudo, empatia. Depois, cautela e respeito. Quem ouve mais, erra menos”, afirmou o Ten Cel BM Ramon Dieggo Pimentel Valle Baylão Diniz, presidente da Comissão Permanente de Análise das Atividades de Abordagem Técnica a Tentativas de Suicídio do CBMBA.

O POP desenvolvido a partir da pesquisa de Ramon organiza a atuação desde a chegada ao local até o encerramento da ocorrência e o encaminhamento da pessoa atendida. A doutrina e o protocolo já tiveram suas versões ajustadas e estão em fase de encaminhamento para publicação.

A formação já começou a ser aplicada aos bombeiros. | Foto: Divulgação

Já o trabalho de Lutiane deu origem ao Curso de Abordagem Técnica a Tentativas de Suicídio (CATTS). Com 40 horas de duração, a capacitação reúne conteúdo teórico, atividades práticas, discussão de casos e simulações.

A formação já começou a ser aplicada aos bombeiros. A primeira turma foi realizada e, durante o encontro, Lutiane anunciou outras cinco turmas ainda em 2026, incluindo atividades na capital e no interior.

A expectativa é alcançar militares dos 20 batalhões do CBMBA, com a mesma padronização e entendimento sobre a abordagem.

Os dois produtos funcionam de maneira complementar: enquanto o protocolo estrutura a resposta institucional, o curso prepara os profissionais para executá-la de forma técnica, segura, padronizada e humanizada.

Quem salva também precisa ser cuidado

Além da preparação para atuar nas ocorrências, o encontro discutiu a saúde mental dos profissionais que trabalham diretamente no atendimento a situações de crise.

O soldado Leonardo Lago, psicólogo do Corpo de Bombeiros, chamou atenção para o desgaste associado à atividade. Segundo ele, em ocorrências envolvendo tentativas de suicídio, o profissional que estabelece o vínculo inicial permanece na abordagem até o encerramento, e o atendimento pode se prolongar por muitas horas.

Para Leonardo, a própria imagem construída em torno do bombeiro pode dificultar a percepção desse desgaste. Ele comparou o fardamento a uma “armadura”: ao mesmo tempo em que protege o profissional do julgamento externo, pode esconder o ser humano por trás da função.

“Autocuidado é preservar condições físicas, emocionais e mentais para continuar cuidando do outro”, afirmou. “Antes de salvar, precisamos estar inteiros. Reconhecer o risco interno é o primeiro passo para garantir a nossa integridade e a de quem servimos”.

Além da preparação para atuar nas ocorrências, o encontro discutiu a saúde mental dos profissionais. | Foto: Divulgação

A tenente Elisângela Santana de Jesus Castro, psicóloga da Polícia Militar da Bahia, abordou outra barreira: o que chamou de “mito do herói”. A ideia de que policiais e bombeiros não podem chorar ou demonstrar sofrimento.

Segundo ela, essa cultura pode dificultar a busca por ajuda, especialmente entre os homens.

“Cuidar da saúde mental é uma prática de prevenção; reconhecer sinais de sofrimento é um ato de cuidado; buscar ajuda é uma possibilidade de proteção; e cuidar de si fortalece a capacidade de cuidar do outro”, destacou Elisângela.

Leonardo também apresentou iniciativas do Corpo de Bombeiros voltadas aos próprios profissionais, como o Projeto Acolher, que mobiliza uma equipe técnica para apoiar guarnições depois de ocorrências de grande impacto emocional.

Elisângela apresentou ações desenvolvidas pela Polícia Militar, entre elas atendimento multiprofissional, psicoterapia continuada, formação de agentes multiplicadores e ronda psicossocial.

Quando a experiência profissional vira pesquisa

Os trabalhos desenvolvidos por Ramon e Lutiane nasceram de problemas enfrentados na atividade profissional e foram realizados no Mestrado Profissional em Segurança Pública, Justiça e Cidadania da UFBA, dentro da parceria com o Corpo de Bombeiros.

A trajetória dos dois projetos mostra como problemas identificados na rotina das instituições podem ser levados à pesquisa acadêmica e, posteriormente, retornar à atividade profissional na forma de soluções práticas.

“Esses trabalhos mostram o que esperamos de um mestrado profissional: que o conhecimento científico não termine na defesa da dissertação. Ramon e Lutiane pesquisaram um problema que enfrentam na própria atividade profissional e transformaram os resultados em soluções que podem chegar à rotina operacional, qualificando profissionais e contribuindo para a preservação da vida”, destacou Maria Carolina de Souza Sampaio, coordenadora do PPGSP/UFBA.

O coronel Jair dos Reis Pereira, diretor do Instituto Militar de Ensino Superior de Bombeiros (IMESB) do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA), também reforçou a importância da aproximação entre a corporação e a universidade. “É importante para o Corpo de Bombeiros esta parceria, esta ligação sempre presente com o mundo acadêmico”.

Realizado no contexto do Setembro Amarelo, o encontro também reforçou que a discussão sobre prevenção do suicídio e saúde mental não deve ficar restrita ao mês de setembro. | Foto: Divulgação

Debate sobre prevenção vai além do Setembro Amarelo

Realizado no contexto do Setembro Amarelo, o encontro também reforçou que a discussão sobre prevenção do suicídio e saúde mental não deve ficar restrita ao mês de setembro.

Na abertura, o diretor da Escola de Administração da UFBA e professor do mestrado, André Luis Nascimento, levou o debate para uma dimensão social mais ampla.

“Que crise é essa que nos leva, enquanto sociedade, a uma situação-limite como o suicídio? Que crise é essa que nos acompanha e que ainda hoje produz índices alarmantes desse evento-limite na vida das pessoas?”, questionou.

O professor do mestrado Floriano Barbosa Silva acrescentou ao debate a importância dos vínculos, do propósito e da capacidade de escutar genuinamente o outro.

Ao longo do encontro, as diferentes abordagens convergiram para a necessidade de qualificar a resposta às situações de crise. | Foto: Divulgação

Ao convidar a plateia a ser “voluntária da vida”, defendeu uma escuta que ultrapasse diferenças de religião, ideologia, gênero ou crença.

Ao longo do encontro, as diferentes abordagens convergiram para a necessidade de qualificar a resposta às situações de crise por meio de conhecimento técnico, protocolos e treinamento, sem deixar de lado a escuta, o acolhimento e o cuidado com os próprios profissionais envolvidos no atendimento.

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