Marcha de Nikolas tenta tomar da esquerda monopólio do poder das ruas
A chegada à Esplanada dos Ministérios não deve ser vista como o fim, mas como o marco zero de um projeto de longo alcance. Se o sucesso de público for consolidado, Nikolas Ferreira se cacifa como o herdeiro natural do capital político da Direita
Por Pablo Reis.
A política brasileira ensandecida nas telas: likes em fúria, vídeos verticais, indignações de 30 segundos. Nesse tabuleiro luminoso e nervoso, Nikolas Ferreira fez um movimento estranho - quase primitivo. Saiu do feed e foi para o asfalto. Colocou o corpo onde antes bastava a retórica. Pés na BR-040. Minas Gerais às costas. Brasília no horizonte. Caminhar virou mensagem.
Durante o recesso parlamentar, o movimento já nasceu como principal evento político no início de 2026. E olha que o ano já promete emoções intensas, pelo calendário eleitoral e pelas pautas em estoque. Com a reunião de uma multidão no ponto de chegada em Brasília, tornou-se um evento catalisador de apoios e de hates, quase na mesma proporção.
Um nativo digital buscando transmutar sua influência em uma jornada do herói, utilizando o suor e a exaustão física como ferramentas de marketing político. Não é um gesto inocente. O deputado mais votado do país sabe que o digital cria ondas, mas não deixa pegadas. E pegadas — reais, sujas, cansadas — ainda emocionam mais do que mil threads inflamadas. O suor vira prova. A dor, credencial. O corpo, argumento. Antes de completar 30 anos, o parlamentar, filho legítimo do algoritmo, percebeu que o mundo real ainda cobra presença física para legitimar lideranças.
Batizada de “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, a travessia funciona como um reality show político com roteiro messiânico: cada bolha no pé é documentada, cada oração na beira da estrada é transmitida, cada passo vira símbolo. O sacrifício não é metáfora. É cena com dor verdadeira — e isso importa. Na política, sofrimento encenado sem dor costuma soar falso; sofrimento com dor, mesmo calculado, convence.

O calvário dos mártires: via crúcis e glória
Antes mesmo da apoteose em Brasília, o ato evocava um simbolismo messiânico. Com o líder principal, Bolsonaro, amargando o cárcere e a agonia física, os mais fieis seguidores passam a se sacrificar pelo grupo. A narrativa é conhecida, eficaz e antiga como as religiões: alguém se levanta contra um sistema corrompido, paga um preço pessoal e se oferece como voz dos silenciados. O alvo é claro: o Judiciário, a prisão de Bolsonaro, a sensação difusa de perseguição. O método, também: deslocar a indignação do sofá para a estrada, do meme para o músculo.
A estética da marcha não nasceu ontem. Lula percorreu o país em 1993 nas Caravanas da Cidadania, transformando estrada em palanque e poeira em capital político. Em 2018, o próprio Lula reviveu a experiência, já em outra condição, prestes a ser preso.
Há outras, mais antigas, mas tão famosas quanto. A coluna Prestes, conduzida pelo revolucionário Luiz Carlos, durou dois anos e meio, percorreu 25 mil quilômetros por treze estados. Sempre monitorada, para não dizer perseguida, pelo governo de Artur Bernardes.
Teve a marcha de Selma a Montgomery, liderada por Martin Luther King. Marcha do Sal, por Mahatma Gandhi.
Marchar é mais do que andar: é dramatizar a política, aproximá-la da liturgia. Nikolas bebe dessa fonte, mas troca o discurso social pelo moral, a desigualdade pelo ressentimento institucional. A forma é a mesma; o conteúdo, outro evangelho. E dava para perceber que a reação de crescentes ataques dos adversários, tentativas de ridicularização e memes contra o mineiro e seus discípulos, só demonstraram que o movimento estava se expandindo.
A rua constrange e tira monopólio da esquerda
Marchas sempre foram armas dos que querem pressionar sem romper. A rua constrange. O corpo em movimento cobra resposta. Ao caminhar, Nikolas tenta roubar da esquerda um monopólio simbólico: o poder das ruas. Mesmo que sejam as rodovias os palcos desses comícios itinerantes. Quer provar que a direita também sabe suar, sofrer, persistir — sem quebrar vitrines, sem rasgar a Constituição, mas tensionando seus limites.
A estrada vira altar. O caminho, rito. Na linguagem da antropologia, cria-se uma communitas: gente diferente, unida pelo cansaço, pela fé política, pela sensação de estar “do lado certo da história”. As hierarquias se diluem na exaustão compartilhada. O líder caminha junto — ainda que cercado por câmeras. Ainda que tudo seja conteúdo.
Nada disso é improviso. É storytelling puro. O "herói" sai de casa, enfrenta provações, resiste ao desgaste e promete redenção ao chegar ao destino. A Esplanada dos Ministérios não é o fim. É o prefácio. Se a adesão popular se confirmar, Nikolas testa algo crucial: sua capacidade de existir fora da bolha digital, de transformar seguidores em corpo presente, de converter engajamento em massa.
Horizonte 2034: A longa marcha para o poder
A chegada à Esplanada dos Ministérios, prevista para domingo, não deve ser vista como o fim, mas como o marco zero de um projeto de longo alcance. Se o sucesso de público for consolidado, Nikolas Ferreira se cacifa como o herdeiro natural do capital político da direita, testando sua popularidade para além das bolhas digitais. Esta caminhada é, simbolicamente, o primeiro passo de uma maratona que visa o Palácio do Planalto em um horizonte futuro. Pode não ser em 2030, mas o foco é 2034, com maturidade e bases solidificadas. O que é inegável é que, ao trocar o teclado pelas botas, o deputado mineiro compreendeu que, na liturgia do poder, o suor do rosto ainda é o mais forte dos argumentos.
O artigo 5º da Constituição garante o direito de ir e vir. Nikolas transforma esse direito básico em provocação política. Caminhar vira desafio institucional. Obriga o sistema a reagir não a um post, mas a uma multidão em movimento. Ao fim dos 240 quilômetros, restará a pergunta essencial: o asfalto forjou um líder ou apenas produziu mais um espetáculo eficiente para redes famintas?
Uma coisa já ficou clara. Ao trocar o teclado pelas botas, Nikolas Ferreira entendeu algo que muitos esqueceram: na liturgia do poder, ainda é o corpo — cansado, exposto, vulnerável — que dá peso às palavras. O resto é filtro.
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