Estados Unidos batendo recordes consecutivos no número diários de infectados. Reino Unido, França e Espanha voltando a adotar novas medidas de restrição, ainda que parciais. Sistema de saúde da Bélgica colapsado e Alemanha cogitando implementar normas rígidas de controle da mobilidade social. A segunda onda de Covid-19 já é uma realidade na nação mais poderosa do mundo, e no continente europeu, e deve chegar em terras tupiniquins nos próximos meses. O alerta é do neurocientista e coordenador do Comitê Científico do Nordeste, professor Miguel Nicolelis. “A Europa está olhando para o Brasil e dizendo: eu sou você amanhã!”.

Para Nicolelis, o entendimento da gravidade da situação ainda não alcançou a maioria dos brasileiros. Muito disto se deve à falta de uniformidade no discurso e de um direcionamento único que mostrasse, desde o princípio, o tamanho do problema que a sociedade tem pela frente. “A mensagem, desde o começo, deveria ter sido: você está disposto a perder a sua vida? Você está disposto a ver seus parentes, seus filhos, seus irmãos, sua mãe, seu avô, seu tio falecerem sem estar com você? Próximos de você? Você consegue encarar essa realidade ou você prefere combater o vírus e fazer o que tem que ser feito do ponto de vista sanitário e o que é recomendado pela ciência e pela saúde pública?".

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Especialista no funcionamento do cérebro humano, o cientista defende ser necessário um choque de realidade que coloque em xeque o comportamento dos cidadãos e mostre, claramente, o tamanho da aposta que está sendo feita e tudo o que está em jogo. “Nós nunca propusemos para as pessoas, como adultos, o que elas têm a perder. E o que elas têm a perder são os bens mais importantes das vidas delas, que são os seus entes queridos. Então, essa perda é real, é tangível, e ela não foi apresentada para o povo brasileiro, como nós apresentamos as perdas dos italianos, dos americanos, dos franceses. Eu acho que se o público brasileiro visse 30 segundos do que se passou nessas UTIs, nesses hospitais, pensaria duas vezes antes de achar que está seguro. É uma guerra!”.

Nem a matemática atual, que aponta diminuição no número diário de infectados e redução na média móvel de mortes, serve como paliativo. Este foi exatamente o mesmo quadro vivido, por exemplo, pelos países citados no início desta reportagem e que, atualmente, voltam a sofrer com o poder devastador do vírus. "Ela (a segunda onda) tem uma grande chance de acontecer. Como houve uma queda nas últimas semanas no Brasil, no número de casos e de óbitos, as pessoas tendem a olhar para o presente e a achar que ele vai ditar o futuro, e isso não é necessariamente verdade. Como a Europa, que teve uma queda semelhante, liberou tudo no verão, e agora está pagando o preço. É uma explosão! Muito maior do que na primeira onda, pelo visto”.

CONFIRA O ALERTA DO NEUROCIENTISTA MIGUEL NICOLELIS:

Isto acontece porque dados atuais não guardam relação com a segunda onda de Covid-19. “O número de óbitos poderia estar zerado neste momento na Bahia, e não está, mas a segunda onda nada tem a ver com o que está acontecendo no momento presente, isso é muito importante que as pessoas entendam. Nós estamos olhando para o futuro. Nós sabemos o que está acontecendo no presente, mas a situação presente não nos ajuda a prever o futuro. Nós temos que olhar para a Europa, Estados Unidos, Ásia porque quando você maneja uma pandemia, você não a maneja só localmente, você tem que olhar para todo o planeta”.

Foi com base nestas análises que o Comitê Científico do Nordeste divulgou, no final do mês de outubro, um alerta destacando o impacto que uma retomada do coronavírus poderá ter em nosso país e a necessidade de adoção de um planejamento que tenha uma visão macro, que analise dados e projeções e que tenha um olhar voltado, também, para o amanhã. “A própria Bahia, apesar da queda grande que houve, como nunca fez um lockdown real, sobretudo em Salvador, que nós recomendamos desde julho, como foi liberado tudo e, agora, com os movimentos das aglomerações causadas pelas campanhas, nós estamos com muito receio de que, no final do ano, tudo isso se acumule, com os próprios dois dias das eleições, as festas natalinas, mais o afluxo de casos da Europa e gere uma tempestade perfeita aqui no Brasil”.

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E quando olha para o Brasil, Miguel Nicolelis avalia que a situação não é nada boa. A somatória de discursos e políticas públicas desconexos e de uma conscientização social que flerta com uma normalidade desejada, mas irreal, soa como um desafio para a mente e um alerta para a realidade ainda mais dura que pode explodir daqui a alguns meses. “Não podemos permitir que o prazer, o hedonismo, sejam mais importantes do que o senso de sobrevivência e é isso o que está acontecendo. No feriado de 07 de setembro fez sol e as pessoas foram à praia. Foram para o Farol da Barra, Porto de Galinhas, Praia do Forte. Encheram as praias do Rio de Janeiro, São Paulo, de toda a costa brasileira e o que aconteceu? Tivemos picos de casos e óbitos”.

E a ser mantido este comportamento, tanto das autoridades, que deveriam adotar regras e medidas mais alinhadas com um plano nacional de preservação de vidas, quanto dos próprios cidadãos, que vivem, desde março, um embate simbólico entre aquilo que desejam fazer e aquilo que precisa ser feito, a situação tende a piorar. E para minimizar os efeitos da nova onda, que já pode ser vista, mesmo que ainda de longe, Nicolelis é claro: é preciso agir e isso precisa ser feito agora.

“Neste momento, nós temos que começar a preparar a população e preparar os estados e municípios para o que está por vir. Como eu disse, é como estar em uma guerra. Você passou pela primeira batalha e você sobreviveu, com grandes dificuldades e grandes perdas. Nós não podemos minimizar o que foi essa primeira onda, 160 mil mortos, um fato inédito na história do Brasil. Então, nós temos que nos planejar, em todos os domínios, e temos que construir uma mensagem para a população que, infelizmente, nós vamos ter que repensar as políticas de flexibilização e reverter algumas delas já, para evitar o pior, porque nós não estamos prontos para uma segunda onda no Brasil”.

"AQUI NA BAHIA, NÓS DIFICILMENTE TEREMOS UMA SEGUNDA ONDA"

Assim como alerta o ditado popular, “a ignorância é a mãe de todas as doenças”. Nesse caso, o Brasil não tem do que reclamar. Desde o início da pandemia, o país tem assistido, com antecedência, como o coronavírus age primeiro na Europa. Nesta segunda fase de contágio, não é diferente. As especificidades manifestadas pela doença nos países do continente e nos Estados Unidos, juntamente com os erros e acertos das ações aplicadas pela administração pública, de março a novembro, deram tempo para que autoridades de todos os estados brasileiros se preparassem para administrar os efeitos dessa provável segunda onda. Ou tentassem se preparar.

Na Bahia, o titular da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), Fábio Vilas-Boas, acredita que “dificilmente” o Brasil voltará a repetir o cenário da Europa, no que diz respeito à segunda onda de casos e óbitos registrados. Ele, que também é médico, leva em consideração dois fatores. “O primeiro é que os europeus fizeram um lockdown muito rigoroso, as pessoas não podiam sair às ruas. Então, elas ficaram literalmente confinadas, presas em casa durante meses. E depois, fizeram uma flexibilização sem nenhum controle. Decretaram que todo mundo podia sair e, quem estava lá preso, saiu, e aí veio a segunda onda. O segundo fator, responsável pelo aumento de contágio, é que o vírus sofreu uma mutação. Esse novo coronavírus que está circulando, agora, tem muito mais ganchinhos, muito mais espículas, para poder se grudar e conseguir infectar as pessoas. Aqui na Bahia, nós dificilmente teremos uma segunda onda, porque ela está escondida embaixo de uma maré que já está alta”, disse Vilas-Boas em entrevista ao programa Liga da Madruga, da TV Aratu.

CONFIRA ENTREVISTA COM O SECRETÁRIO FÁBIO VILAS-BOAS:

Apesar da avaliação contrária, ele garante que o estado estará preparado para tratar os novos pacientes, se este novo momento da pandemia chegar à Bahia. Para isso, o governo estadual pretende manter ativos os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) dos hospitais Espanhol, Couto Maia e do Subúrbio, para qualquer emergência.

“Nós definimos como critério, para poder flexibilizar, a criação de um colchão que pudesse vir a absorver uma eventual segunda onda. O que isso significa? Nós chegamos a ter próximo a 1.000 pacientes internados todos os dias, e em torno de 1.300 leitos disponibilizados para coronavírus. Hoje, nós temos menos de 500 pacientes diariamente. Se houver qualquer segunda onda, ou aumento no número de casos, como consequência da flexibilização, o retorno à vida normal, ou quase normal, se precisarmos de leitos de UTI, eles estarão lá, disponíveis. Precisou de vaga, a gente interna com a maior tranquilidade. Esssa disponibilidade nós não tínhamos lá no começo, em março. Tivemos que preparar o estado, fazer investimentos de centenas de milhões de reais, para dotar o estado de novos leitos de UTI, fora os leitos de enfermaria, e todo o custo de manutenção que vem impactando no caixa, e nós mantivemos”.

A posição da Sesab foi reforçada pelo governador da Bahia, Rui Costa, na última semana, em sua conta pessoal no Twitter. Na publicação, o gestor afirmou que “os índices de contaminação baixaram” e pediu que os baianos continuassem usando máscara e evitassem aglomerações. “Estamos preparados e toda a estrutura segue preservada, caso haja uma segunda onda”, completou.

Conforme alerta o neurocientista Miguel Nicolelis, as ações contra os efeitos dessa nova fase da pandemia devem ser ainda mais efetivas, no sentido de prevenção, do que o governo estadual tem planejado. Além da manutenção de leitos, o professor sugere, ainda, o controle rigoroso ou fechamento dos espaços aéreos, estocamento de materiais e treinamento de brigadas emergenciais da saúde.

“Várias medidas deveriam ser criadas e implementadas nos aeroportos internacionais, como exigir documentação dos pacientes, o que é feito na Europa no momento. Você tem que ter um documento recente dizendo que não está infectado, um teste de RT-PCR ou, na falta disso, você teria que ser testado no aeroporto, quando chegasse aqui no Brasil, e fazer uma quarentena de 14 dias obrigatória, como é feita no Reino Unido neste momento. E se isso tudo não for suficiente e você vir pacientes chegando no país infectados, não tem outra solução a não ser fechar o espaço aéreo, ou nós teremos uma repetição do que aconteceu na primeira onda”, alerta.

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Outro ponto aprendido a duras penas, e relembrado pelo coordenador do Comitê Científico do Nordeste, foi a dificuldade para adquirir materiais como máscaras, equipamentos de proteção individual, medicamentos básicos para manejo de pacientes em UTI, intubação e respiradores, no início da crise. “O Brasil deveria estocar tudo, porque o mercado internacional foi novamente saqueado, no bom sentido, pela Europa e pelos Estados Unidos, e nós estamos aqui, de braços cruzados, aparentemente. Então, nós já deveríamos estar estocando tudo que é necessário para combater o coronavírus, nos múltiplos níveis”.

Nicolelis defende, também, a criação e o treinamento de brigadas emergenciais de saúde que atuem em todo o território brasileiro. Os grupos de profissionais da saúde primária, iriam, com todos os equipamentos de proteção, munidos de testes, de oxímetros, de laptops, apontar casos que não estão sendo identificados, já que as pessoas não estão indo para os hospitais, para as unidades básicas, ou não estão sendo testadas massivamente.

“Nós fizemos essa proposta e as cinco universidades estaduais da Bahia já firmaram um acordo para fazer a revalidação destes médicos (estrangeiros, oriundos do programa Mais Médicos, que necessitam ter a validade do diploma internacional renovada) e a ideia é ir de encontro ao vírus. Você não quebra a transmissão do vírus indo em UTI e hospital. Você quebra indo nas casas das pessoas, nos lugares de trabalho, nas ruas, nas periferias, nos municípios do interior, e identificando quem está infectado, isolando se for necessário, tratando, levando para postos de saúde, mas separando da possibilidade de infecção”.

CONFIRA AS AÇÕES SUGERIDAS PELO NEUROCIENTISTA:

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                  Arte: Vivian Alecy/Aratu On

Nos próximos dias, o Comitê Científico do Nordeste deverá publicar o novo boletim, com um tom de alerta mais duro e elevado, conforme prometido pelo neurocientista. Até o fechamento desta matéria, o comunicado ainda não havia sido divulgado. 

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