A passagem é “mais cara” para quem pega o ônibus que faz a linha 0139 - Lapa/Campo Grande. São R$ 4 mais um abraço. É que a cobradora, Valdirene Rocha, a "Val", ou, “Lôra”, 49 , faz questão de recepcionar todos de forma mais calorosa desde a primeira viagem, às 5h10 da manhã.

“É difícil dizer que não gostam [do carinho], porque quebra ‘aquele clima’, sabe? Tem gente que nem dava ‘bom dia’ e agora dá. As pessoas estão mudando. É comum falarem que estavam precisando muito desse abraço”, diz Val ao Aratu On.

Trabalhando há 12 anos como cobradora, ela diz que já rodou em vários pontos da capital baiana e até em Arembepe [na Região Metropolitana de Salvador], sempre com um sorriso no rosto e uma mensagem de afeto. Mas isso não se resume ao tempo que passa dentro do coletivo.

“Sou assim na igreja, com meus amigos, com a minha família. Gosto muito de abraçar, de beijar... independente de idade, se está arrumado ou não. Tem quem fale que está suado e eu digo que não tem problema. Jesus te abraça suado e você nem vê”, conta.

ENCONTROS

O carinho de "Val", muitas vezes, muda o dia de quem a encontra, como aconteceu com a estudante de Pedagogia Gabriella Pitta, de 23. A jovem conhecia a cobradora apenas pelo apelido e pela simpatia. “Durante o ano todo, ela nos acolheu abraçando, cantando… Já chegávamos na faculdade com um ânimo diferente!”. Foi a jovem quem falou sobre a rodoviária no Instagram e chamou a atenção da nossa reportagem (e fomos atrás dela). 


 

Na última semana de aula da jovem - estressada às vésperas de entregar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) -, a atitude de Val fez diferença. “Ela estava abraçando todo mundo, na entrada, dizendo que estava acabando, que tudo ia passar e que a gente precisava ser forte”, narra Gabriella. “Estava com os nervos ‘à flor da pele’ e aquilo mexeu muito comigo”, completa.
 

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Val e Gabriella | Foto: Aratu On
 

Mas não é só quem frequentemente sobe no "0139" - ou “o carro da ‘Lôra’” -, que se encanta com a atenção recebida. Depois de um "bom dia, meu amor" e "aqui só tem diva", Dona Aurora, de 77 anos, não escondeu a alegria ao ficar na companhia da rodoviária. Mesmo que por pouco tempo, por conta do seu trajeto rápido, confessou: "o que a gente mais quer na vida é que que as pessoas sorriam ‘pra’ gente”.

"NÃO ESPERE 'SER' DEZEMBRO"

E não importa se o dia for atribulado e o sorriso custe a aparecer. Para Valdirene, esposa, mãe - de dois filhos e um cachorro - e dona de casa, que levanta às 2h, todos os dias, não é necessário ser fim de ano ou época de festa para praticar boas ações. "É preciso retribuir o que tem dentro de você", afirma, ressaltando que não devemos "eperar 'ser' dezembro" - época em que ações solidárias são mais comuns.

Ao chegar em casa, por volta das 15h, Valdirene ainda realiza afazeres domésticos. "Ah, comprei 'um tal de' um terreno, construí uma 'mini-garagem' onde moro eu, meu esposo e meu cachorrinho; quando chego em casa está tudo bagunçado!", fala, aos risos.

Mais tarde (e mais "sossegada"), vai à igreja. Evangélica, atribui à fé boa parte da sua essência - acredita que "Deus colocou isso em seu coração" -, e explica que as pessoas, de modo geral, estão precisando de mais carinho, mas ter atitudes de empatia e afeto fazem bem não só a quem recebe, mas principalmente, para ela.

"Não espere alguém contar uma piada para você rir. Às vezes, fico sorrindo sozinha ao lembrar das coisas boas da vida", reflete. "Beije mais, abrace mais, ame mais e diga que você ama. É tão importante...", conclui a "Lôra", para então fazer um pedido: "deixa eu abraçar você?".

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