Nesta edição do projeto Aratu Comunidade – que mostra os lados não tão corriqueiros de localidades soteropolitanas – fomos até Itapuã. O primeiro desafio é não começar essa reportagem com um dos versos mais bonitos de Caymmi, que de tão lindos e ardentes ao pôr do sol viraram rotina ao resumir boemia e costumes locais.

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O bairro é um dos mais famosos e antigos de Salvador. Aliás, a formação de seu povo coincide, em termos cronológicos, com a época inicial de desenvolvimento da população de Salvador. Os primeiros habitantes do lugar começaram a se estabelecer na região ainda no processo de colonização brasileira.

Detalhe: apesar de tanto tempo, muitos entre os atuais moradores ainda preservam costumes relacionados, principalmente, à cultura e economia que estão inseridos em sua comunidade. Por isso, o Aratu Online, além de ir conhecer referências locais, buscou a colaboração de um historiador baiano para referendar os registros da visita.

O professor Roberto Pessoa teve contribuição importante no sentido de identificar esses elementos e evidenciar as manifestações da comunidade que resistem a barreiras e influências.

Vamos acompanhar!

O bairro de Itapuã surgiu como uma grande vila de pescadores. A pesca da baleia, permitida por longos anos, e de peixes da região eram atividades que garantiam a sobrevivência de quase todos os nativos.

À época, as primeiras residências se estabeleceram nos pontos mais altos, por uma questão natural de segurança e pela presença da fonte de água doce. Foi por isso que os índios tupinambás, primeiros ocupantes do lugar, povoaram, inicialmente, as margens da Lagoa do Abaeté.

Dessa forma, não foi à toa que a vila recebeu um nome indígena. Na língua tupi-guarani, Itapuã quer dizer pedra erguida ou destacada, em referência à formação rochosa que, por ali, emerge do mar. No entanto, a tradução “pedra que ronca” é também muito popular, já que uma grande cavidade existente no interior da rocha, produzia certo estrondo durante o vazamento das marés.

Na segunda metade do século XVI, o português Francisco Garcia D’ Ávila iniciou um processo de povoamento em extensas fazendas da região e, um pouco depois, chegaram negros escravizados, que fugiam de outros pontos da Bahia, principalmente do Recôncavo, e buscavam aquele local, que oferecia condições de moradia, como água doce e possibilidades de pesca, além da disponibilidade de algumas frutas nativas.

Por muito tempo, a pesca da baleia foi a principal atividade econômica em Itapuã. Não só pela carne que servia de alimento, mas pelo fornecimento do óleo que após o refino era utilizado na iluminação da cidade. Porém, o transporte de produtos saindo ou chegando a Itapuã só era possível pelo mar através de saveiros dos pescadores.

Neste período, a comunidade estava muito afastada do centro de Salvador e a acessibilidade ao local para os que estavam instalados na parte urbanizada da capital era muito complicada. Quem, atualmente, utiliza a Avenida Octávio Mangabeira para fazer o trajeto, não faz ideia dos transtornos que envolvia tal percurso.

A situação começou a melhorar nas primeiras décadas do século XX, com a fundação do Aeroporto de Santo Amaro de Ipitanga, o mesmo que virou o internacional 2 de Julho e hoje se chama Luís Eduardo Magalhães.

A construção do terminal deu origem ao surgimento de algumas vilas militares que se instalaram em diferentes partes do bairro. A novidade despertou o interesse de moradores de outros cantos da capital baiana, que vislumbraram, naquele momento, o surgimento de um polo gerador de empregos.

Coincidentemente, esse foi o motivo que levou, há 45 anos, o compositor Reginaldo Raimundo de Souza para Itapuã. Atualmente, aposentado e com 76 anos, ele é o senhor simpático que introduz essa matéria cantando Lição de Vida, um dos seus sucessos que valoriza a riqueza cultural da comunidade que o adotou.

O CANTO DO MESTRE RÉGI

Seu Reginaldo, ou Mestre Régi, é oriundo da Estrada Velha de São Caetano e conheceu, muito bem, a dificuldade que era chegar a Itapuã. Funcionário do setor de abastecimento de aeronaves, ele conta que levava quase três horas em deslocamento para o trabalho.

Para sair de sua casa e chegar ao aeroporto, era preciso pegar um ônibus e ir à Praça Municipal, onde embarcava em outra marinete, que o levava até Itapuã. Daí, ainda era necessário tomar outra condução.

Seu Reginaldo tem mais de 50 músicas dedicadas à comunidade de Itapuã. Foto: Dinaldo dos Santos

Olha rapaz, às vezes o ônibus quebrava ou tinha que parar pra colocar água no radiador e aí atrasava ainda mais, lembrou. Então, eu procurei um lugar mais fácil pra morar e comprei um terreno em Itapuã. Depois de um tempo, construí minha casa e quando casei mudei de vez para o bairro, relatou.

Seu Reginaldo, no entanto, não sabia que se tornaria um morador ilustre da comunidade. A música sempre fez parte de sua vida, mas foi a beleza de Itapuã que deu um novo foco e encanto às suas composições.

Quando eu era garoto gostava de fazer paródias e tinha fama de gozador, mas aqui foi que acabei me descobrindo como compositor. Forçosamente, a beleza de Itapuã me inspirou e hoje eu tenho mais de cinquenta músicas que falam de locais e pessoas daqui, disse o compositor.

Recentemente, no último dia 10 de dezembro, data de seu aniversário, Mestre Régi foi homenageado em um Sarau realizado no espaço cultural, a Casa da Música, que fica no Alto do Abaeté. Na oportunidade, intérpretes de suas canções como a sambista Juliana Ribeiro, o grupo Barlavento e as Ganhadeiras de Itapuã se apresentaram no evento.

PRESERVAÇÃO CULTURAL

A Casa da Música, mantida pelo Governo da Bahia, é um equipamento que tem, entre os principais desafios, fomentar a produção cultural da comunidade e socializá-la entre os seus integrantes.

No espaço, acontecem além de saraus, oficinas e bate-papos, sempre com temas ligados à música e a preservação do complexo do Abaeté. O local é coordenado, não por acaso, pelo compositor e musicista Amadeu Alves. Nativo de Itapuã, ele tem uma forte ligação com a história da comunidade.

“Chorinho pra Sorrir” é uma composição de Amadeu Alves que faz um convite à revisitação de memórias e à projeção de um novo momento cultural em prol de Itapuã e do “itapuanzeiro”, como é chamado o nativo, que se sente honrado com a riqueza do lugar. A reflexão, segundo ele, é para uma caminhada, da qual faz parte, dentro de um processo histórico de preservação dos valores dessa comunidade.

Nesse contexto, Amadeu tem importante participação na fundação, em 1997, do Grupo de Revitalização de Itapuã o GRITA. A manifestação surgiu da necessidade de resgatar elementos importantes da cultura local, antes que apagassem com o tempo. Nós pegamos os fragmentos e juntamos o que ainda existia de memória, naquele momento, pra que não se perdesse muito do que, ainda, se tinha, declarou.

Algumas das pessoas envolvidas já estavam com idades avançadas, na época, e o movimento, por isso, foi muito oportuno, enquanto concedeu méritos a talentos vivos. Foi o caso da saudosa moradora Francisca Passos, a Dona Francisquinha. Ela faleceu em 2002, deixando grande legado para o povo de Itapuã. A ilustre itapuanzeira, além de ter sido uma contadora de histórias do local, dedicou parte de sua vida para fortalecer os laços da comunidade.

O compositor Amadeu Alves é um dos que militam pela preservação cultural de Itapuã. Foto: Dinaldo dos Santos

O trabalho de resgate cultural, no entanto, não parava por aí. De acordo com Amadeu, em 2004, como resultado de uma pesquisa feita com moradores nasceu a ideia da criação de um coral de pescadores e lavadeiras. O questionário era simples: (Itapuã, o que é que houve? O que é que há?). 

O grupo formado interpreta cânticos de trabalhadores que, no passado, eram entoados para aquebrantar a dureza da labuta. O coral recebeu o nome de…

AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ

Ao todo, quase 20 senhoras integram As Ganhadeiras de Itapuã. Elas contam com a participação de algumas crianças e músicos locais. O grupo homenageia, principalmente, mulheres que no século XIX e início do século XX “lavavam roupas de ganho” e que revendiam em seus tabuleiros peixes comprados nas mãos dos nativos pescadores.

Essa era a forma como as “antigas ganhadeiras” conseguiam o sustento e ajudavam a garantir a sobrevivência das famílias. Porém, para as integrantes, esta celebração tem, hoje, o objetivo de estender as homenagens a todas as mulheres que lutam no dia a dia com um trabalho digno e honesto, em busca de suas melhorias.

“Ganhadeira é toda pessoa que vive do ganho, do suor do rosto”, defendeu uma das componentes, “Maria de Xindó”, durante nossa reportagem.

Dona Amália, uma das fundadoras, disse ao Aratu Online que é uma dádiva estar no meio dessa “família”, inclusive sua bisneta, Dandara, uma criança com menos de 2 anos, já se apresenta com o grupo, passando a mensagem da preservação e continuidade desta manifestação cultural.

Desde a sua criação, o grupo já recebeu diversas premiações, entre elas: o Prêmio Culturas Populares – Mestre Duda 100 Anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura; foi vencedor, também, do 26º Prêmio da Música Brasileira, na categoria Melhor Álbum Regional.

As Ganhadeiras de Itapuã tiveram destacada participação na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Atualmente, o grupo se prepara para mais um voo: a gravação de DVD do Edital Natura Musical.

UMA ETERNA PESCARIA

Entre as tradições preservadas pelos itapuãzeiros, uma delas sempre esteve presente de forma muito forte na comunidade: a pescaria. A atividade nunca esteve ameaçada de extinção e, ao longo dos anos, mesmo convivendo com a chegada de oportunidades proporcionadas pelo progresso, muitos moradores continuam tendo ela como a sua principal fonte de renda.

Mesmo com o passar dos tempos, a pesca parece que nunca perderá sua magia. Em Itapuã, mal começa o dia, e muitos pescadores já estão na praia. A energia e a animação são contagiantes. Alguns se preparam para encarar o mar, ao tempo que outros desembarcam com o pescado, fruto de uma noite de trabalho.

Nossa reportagem conferiu de perto um desses momentos. Em uma manhã de terça-feira, por volta das 7h, a paisagem na praia da antiga Rua K tinha esse movimento:

Afastado, Seu Nélson dos Santos, 79 anos, observava tudo, mas nos aproximamos e fomos bater um papo com ele. O Pai Velho, aquele senhor de terceira idade exibe ainda muito vigor físico. Ele é um antigo e conhecido pescador de Itapuã. Vive na comunidade há 57 anos e começou a pescar quando tinha sete e morava no Rio Vermelho.

Naquela ocasião, órfão de pai que acabara de morrer na batalha de Monte Castelo, durante a Segunda Guerra mundial, encontrou na pescaria à beira mar uma forma de colaborar na subsistência em casa.

O ofício logo tomou conta de sua vida e ele passou a dividir seu tempo entre a escola e o mar. Pouco depois, muito envolvido com a pescaria, resolveu morar em Itapuã. Vim pra cá, porque as condições de navegação e do local para aportar as embarcações eram muito melhores, comentou.

Pai Velho conta que sempre sustentou sua família com o que ganhou na pescaria. Segundo ele, há mais ou menos 50 anos, a pesca e o comércio de cocos eram que movimentavam a economia de Itapuã. Quando o acesso, aqui, era complicado, a gente não sabia o que fazer com tanto peixe, lembrou.

Pai Velho é pescador de Itapuã há mais de 50 anos. Foto: Dinaldo dos Santos

De acordo com o pescador, para escoar a fartura, muitas vezes não existiam carros disponíveis e era preciso utilizar animais para transportar a carga. A gente fazia, também, o repasse para as ganhadeiras, e tinha aquelas pessoas que salgava o peixe no sol e depois levava pra vender na feira, relatou.

Além de bom pescador, Pai Velho foi sempre um militante nas causas sociais de sua categoria e, por isso, exerceu, durante doze anos, o cargo de presidente da Colônia de Pescadores de Itapuã. Atualmente, é membro de uma associação e observa quanta evolução aconteceu desde que começou pescar.

Hoje temos linhas de financiamento para aqueles que precisam de uma embarcação. Eu mesmo consegui 23 barcos de fibra pra ajudar alguns pescadores, mas eles precisam ser cadastrados e estar em dias com as obrigações na associação, explicou.

ITAPUÃ E SAUDADE

A preservação dos elementos culturais aliada à beleza natural do lugar tornou Itapuã um dos pólos turísticos de Salvador. Com acessibilidade bastante melhorada, atualmente é fácil percorrer os aproximadamente 20 km que separam o bairro do centro da cidade. Isso, inclusive, cria muitas facilidades para moradores e visitantes.

Hoje o bairro tem localidades muito diferenciadas, incluindo favelas, casas antigas, modernas e até condomínios de classe média-alta. São mudanças naturais chegadas com o desenvolvimento, mas que deixam no coração dos moradores antigos uma sensação de saudade da “Velha Itapuã”.

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