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Casos de violência envolvendo torcidas organizadas marcam jogos de futebol em Salvador; relembre ocorrências

Confrontos, agressões, ataques, depredações e mortes marcaram episódios envolvendo torcidas organizadas em Salvador nos últimos anos

Por Laraelen Oliveira.

A rivalidade entre as torcidas organizadas ultrapassam, em diferentes momentos, os limites dos estádios e tem sido marcada por diversos episódios de violência ao longo dos anos em Salvador. Confrontos envolvendo integrantes ou suspeitos de integrar torcidas organizadas dos quais deixaram pessoas feridas, provocaram prisões, depredações e, mais recentemente, terminaram com mortes. 

Torcidas organizadas protagonizam série de confrontos em Salvador 

O Aratu On reuniu as principais ocorrências registradas em diferentes pontos da capital baiana e também na Região Metropolitana de Salvador ao longo dos anos. Entre os casos mais emblemáticos, estão agressões com armas brancas e objetos contundentes, ataques a ônibus, confrontos entre grupos rivais e episódios investigados pelas forças de segurança.

A Polícia Civil da Bahia foi procurada para fornecer dados oficiais sobre ocorrências envolvendo torcidas organizadas, mas informou não possuir um levantamento consolidado específico sobre esse tipo de ocorrência. 

Setembro de 2022: batalha campal em São Caetano deixa três feridos

Em 4 de setembro de 2022, uma briga envolvendo integrantes de torcidas organizadas do Bahia e do Vitória terminou com pelo menos três homens gravemente feridos no bairro de São Caetano, em Salvador.

Segundo informações encaminhadas à reportagem na época, os envolvidos seriam integrantes da Bamor e de Os Imbatíveis (TUI). O confronto ocorreu nas proximidades de uma unidade das Lojas Americanas.

Após a ocorrência envolvendo as torcidas organizadas, policiais militares foram acionados e diversas guarnições foram deslocadas para a região/Foto: Chico Lopes/TV Aratu 

Imagens que circularam nas redes sociais mostraram homens caídos no chão e objetos que teriam sido utilizados durante a confusão. A Polícia Militar foi acionada para conter o confronto e dezenas de torcedores com camisas da TUI foram rendidos e colocados sentados no chão.

O episódio ficou conhecido como a batalha campal do Largo do Argeral. Segundo o levantamento da pauta, três torcedores do Bahia ficaram gravemente feridos e 53 pessoas foram detidas.

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Janeiro de 2024: torcedor é atacado próximo à Fonte Nova

Em 31 de janeiro de 2024, um torcedor do Bahia foi agredido nas imediações da Arena Fonte Nova, no bairro de Nazaré.

Quatro homens foram conduzidos à delegacia após serem flagrados por uma equipe do Grupamento de Rondas da Capital (Rondac), da Guarda Civil Municipal de Salvador.

De acordo com a Guarda Municipal, os suspeitos estavam em um veículo e teriam saído do carro para atacar a vítima. Com o grupo, foram encontrados um taco de madeira, uma barra de ferro, duas facas estilo caçador e um soco-inglês.

Agosto de 2024: torcedor do Vitória fica em estado gravíssimo

Em 21 de agosto de 2024, o torcedor do Vitória Diego Bispo, de 27 anos, foi vítima de uma agressão no bairro de Sete Abril, em Salvador.

Segundo as informações reunidas na pauta, a agressão foi atribuída a integrantes da Bamor. Diego teria sido atacado por pelo menos 27 torcedores do Bahia e sofreu traumatismo craniano, além de ter parte de uma orelha arrancada.

O jovem ficou internado em estado gravíssimo em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ainda de acordo com o levantamento, pelo menos 27 torcedores foram detidos após o episódio e posteriormente liberados depois de prestar depoimento. Outros cinco colegas de Diego também ficaram feridos.

Dezembro de 2025: jovem é morto durante festa de torcida

Em 14 de dezembro de 2025, um jovem identificado como Tássio do Sacramento Nunes, de 24 anos, morreu durante um ataque ocorrido em uma chácara no município de Dias d’Ávila, na Região Metropolitana de Salvador.

Ele foi socorrido e levado para o Hospital Municipal Dr. Eurico de Freitas, em Mata de São João, mas não resistiu aos ferimentos/Foto: Redes Sociais 

Segundo a Polícia Civil, torcedores que participavam de uma festa da Bamor teriam sido alvo de bombas arremessadas por desconhecidos. Tássio teria saído para verificar o que estava acontecendo e acabou atingido por disparos.

Janeiro de 2026: ataque na Avenida São Rafael

Um dos episódios mais graves de 2026 ocorreu em 17 de janeiro, na Avenida São Rafael, em Salvador.

Segundo o Aratu On, um grupo de aproximadamente 15 a 20 integrantes da Bamor teria realizado uma emboscada contra torcedores do Vitória. As vítimas teriam sido atacadas com facas, soco-inglês e explosivos caseiros, deixando dois jovens esfaqueados.

O caso posteriormente deu origem a uma investigação da Polícia Civil. Segundo a corporação, as vítimas foram cercadas e agredidas com socos, chutes e golpes de arma branca.

A investigação sobre o episódio de janeiro resultou na Operação Bandeira Branca, deflagrada pela Polícia Civil da Bahia às vésperas de um Ba-Vi.

A operação resultou na prisão de sete homens investigados e na apreensão de três adolescentes suspeitos de envolvimento no ataque. A ação tinha como objetivo identificar e responsabilizar integrantes de uma torcida organizada investigados por participação na tentativa de homicídio.

Junho de 2026: violência durante período da Copa do Nordeste

Em 6 de junho de 2026, data da final da Copa do Nordeste entre Vitória e Fortaleza, um ônibus que transportava integrantes da torcida organizada Os Imbatíveis foi atacado no bairro de Itapuã, em Salvador.

Segundo as informações reunidas no levantamento, o coletivo foi interceptado por ocupantes de dois carros pretos nas proximidades da Prefeitura-Bairro de Itapuã. Homens armados com pedaços de madeira participaram da ação.

O motorista e o cobrador ficaram feridos. Uma pedra atingiu a cabeça do cobrador, que precisou ser encaminhado para uma unidade de saúde, enquanto o motorista ficou ferido por estilhaços de vidro após as janelas do ônibus serem destruídas.

Um homem suspeito de participação no ataque foi preso posteriormente. Segundo a Polícia Militar, o veículo utilizado na ação foi localizado e o condutor acabou detido e encaminhado à Central de Flagrantes.

Julho de 2026: confronto entre Bamor e TUI assusta moradores

Em 29 de julho de 2026, um novo confronto entre torcidas organizadas assustou moradores do bairro de Jardim Cajazeiras, em Salvador.

A confusão envolveu integrantes da Bamor e da Torcida Uniformizada Imbatíveis (TUI). Vídeos compartilhados nas redes sociais mostraram integrantes dos dois grupos trocando agressões.

O episódio das torcidas organizadas foi registrado no dia em que Bahia e Vitória entraram em campo pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro/Foto: Redes Sociais

Nas imagens, segundo o levantamento, aparecem pedaços de madeira sendo utilizados durante a briga, além do lançamento de artefatos explosivos.

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Agosto de 2026: violência antes do Ba-Vi termina em mortes, agressões e vandalismo 

Os episódios mais recentes ocorreram em 23 de agosto de 2026, antes do clássico entre Bahia e Vitória, disputado no Barradão. Antes e após do jogo uma sequência de acontecimento resultaram em mortes agressões e vandalismo causados por integrantes de torcidas organizadas

Um dos casos mais graves aconteceu na região da Via Regional, uma das principais vias de acesso ao estádio. O torcedor do Bahia José Alexandre Souza Borges, de 28 anos, foi cercado e agredido por um grupo de homens.

Segundo as investigações, ele foi atingido por pauladas, garrafadas e golpes de arma branca. José Alexandre chegou a ser socorrido, mas morreu em decorrência dos ferimentos. Familiares, amigos e integrantes da Bamor se despediram, na tarde desta segunda-feira (24), do torcedor.

Seis homens foram presos em flagrante pela Polícia Civil suspeitos de envolvimento na morte. Outros quatro foram detidos por suspeita de tentativa de homicídio contra outros torcedores durante a sequência de episódios.

José Alexandre, conhecido como Nakombi, era integrante da torcida organizada Bamor. Ele chegou a ser socorrido após as agressões, mas não resistiu aos ferimento/Foto: Redes Sociais 

De acordo com a polícia, os seis suspeitos foram localizados após uma tentativa de fuga. Equipes da Polícia Militar teriam encontrado vestígios de sangue nas roupas utilizadas pelo grupo. Eles foram encaminhados ao DHPP e autuados por homicídio qualificado, tentativa de homicídio, posse de artefato explosivo e promoção de tumulto, conforme previsto no Estatuto do Torcedor.

Segundo torcedor do Bahia morre no mesmo domingo

Ainda no domingo (23), outro torcedor do Bahia morreu em Salvador. Lucas dos Reis Bomfim, de 19 anos, foi baleado no bairro de Castelo Branco.

Lucas foi sepultado nesta terça-feira (25), no Cemitério Bosque da Paz. Antes da cerimônia, familiares fizeram um apelo para que não fossem utilizadas camisas, símbolos ou qualquer outra referência a torcidas organizadas durante o enterro. O objetivo, segundo a família, era preservar um ambiente de respeito, oração e despedida.

Ataques também atingiram ônibus e estabelecimentos

A violência registrada antes do Ba-Vi não ficou restrita aos confrontos entre torcedores.

Um ônibus do transporte público de Salvador foi atingido por um rojão no bairro de Plataforma. O artefato atingiu o para-brisa e deixou o motorista ferido.

Em Plataforma, o ataque feito por integrantes das torcidas organizadas aconteceu contra um ônibus que fazia a linha 1568 – Vista Alegre / Fazenda Coutos x Barra/Foto: Reprodução 

Na Estação Pirajá, outro grupo ligado a uma torcida organizada teria empurrado um ônibus da frota de apoio. Uma das portas do veículo foi danificada e policiais precisaram intervir para garantir a segurança dos operadores e passageiros.

Também houve registro de invasão e depredação de uma oficina nas proximidades do Barradão, em Canabrava. Imagens de câmeras de segurança mostraram integrantes de uma torcida ligada ao Vitória entrando no estabelecimento e provocando danos no portão e em veículos.

Prisões após as mortes

Após os episódios de violência do domingo, integrantes da TUI foram presos em Salvador por suspeita de vandalismo. Um dos detidos chegou a ser apontado como possível envolvido na morte de José Alexandre, mas, até o momento registrado no levantamento, não havia confirmação oficial de participação dele no homicídio.

Nesta terça-feira (25), os seis homens presos pela morte de José Alexandre passaram por audiência de custódia no Fórum Criminal de Sussuarana, em Salvador.

A Justiça da Bahia decidiu manter a prisão dos seis suspeitos. Eles foram identificados como Caíque Santos Chaves, Guilherme Maia da Luz, Marcos Vinícius Costa Magalhães, conhecido como “Beethoven”, Néton Oliveira dos Santos, Sérgio Gabriel Reis dos Santos e Tiago Franco Barbosa Lima Silva.

Equipes da Polícia Militar teriam encontrado vestígios de sangue nas roupas utilizadas pelos integrantes da torcida organizada/Foto: Reprodução 

A Bamor se pronunciou após a morte de torcedores do clube antes do BA-VI deste domingo (23). Em nota, a torcida organizada afirmou repudiar “de maneira veemente qualquer forma de violência”, especialmente o uso de armas de fogo, armas brancas ou outros instrumentos utilizados para promover atos de covardia.

A torcida declarou ainda que não compactua com esse tipo de prática e defendeu que os casos sejam rigorosamente apurados, com transparência, responsabilidade e respeito às vítimas e aos familiares. Diante da repercussão dos episódios, inclusive em âmbito nacional, a Bamor cobrou das autoridades uma investigação “séria, imparcial e célere”, com a identificação e responsabilização de todos os envolvidos.

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A torcida organizada do Vitória, Os Imbatíveis, também se manifestou sobre uma das mortes registradas antes do clássico. Em nota, lamentou a perda e afirmou que “quando um integrante de uma torcida organizada morre, todo o grupo é atingido”. A entidade prestou solidariedade aos familiares e amigos da vítima e defendeu a apuração dos fatos pelas autoridades competentes.

Os Imbatíveis também reforçaram que o futebol deve continuar sendo um espaço de “paixão, festa e rivalidade”, mas sem que a disputa entre torcidas resulte em mortes.

‘Violência não representa todos os integrantes das torcidas organizadas’, diz especialista

Os episódios de violência envolvendo disputas entre as torcidas organizadas em Salvador levantam dúvidas sobre a prevenção e a responsabilização dos “integrantes” nos crimes. Para o especialista em Segurança Pública Luiz Requião, o problema mais grave não está na falta de leis, mas na dificuldade de manter ações contínuas de prevenção, identificação e punição. “O problema está na baixa capacidade de transformar uma resposta episódica em uma política contínua de prevenção, identificação, responsabilização e reinserção”, afirma.

Requião também destaca que as torcidas são grupos heterogêneos e que a existência de integrantes violentos não significa que todos os associados estejam envolvidos nos confrontos. Segundo dados do II Censo ANATORG citados pelo especialista, 65% dos entrevistados afirmaram que suas associações já haviam sofrido emboscadas, enquanto 17% disseram ter causado esse tipo de ataque. Para ele, operações realizadas apenas depois das agressões podem não impedir novos conflitos, já que de acordo com as palavras do especialista “o conflito pode ser reconstituído por núcleos menores, alianças temporárias, vinganças e ataques de surpresa”.

Requião ressalta que a biometria merece atenção especial. Ela pode reduzir anonimato na entrada de estádios e locais públicos, além de ajudar a impedir o acesso de criminosos, mas não substitui inteligência nem prova penal/Foto: Ascom-PCBA 

Requião ressalta ainda que a violência não acontece somente dentro dos estádios. Dados do Observatório Social do Futebol apontam que, em 2024, foram registrados 303 casos, sendo 272 de violência física, e 84,9% ocorreram em dias de jogos. Diante desse cenário, Requião defende que a responsabilização seja direcionada aos autores dos crimes, sem criminalizar automaticamente todos os integrantes de uma torcida.

Entre as possíveis medidas para identificação dos envolvidos em crimes como homicídio, agressão, depredações, entre outros, Requião cita o uso de biometria, câmeras de segurança, policiamento baseado no diálogo e ações preventivas. Para ele, nenhuma estratégia isolada é suficiente e a atuação deve envolver autoridades, clubes, federação, transporte público e lideranças das torcidas. O especialista defende ainda a manutenção do diálogo com as organizações, sem abrir mão da responsabilização criminal. “O diálogo serve para reduzir risco, obter informação e criar compromissos verificáveis”, conclui.

O Aratu On entrou em contato com as lideranças das torcidas organizadas BAMOR  e A Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (TUI) para receber um posicionamento sobre os diversos casos de violência expostos na reportagem, mas ainda não obteve resposta. Caso haja um retorno, nossa reportagem irá atualizar a matéria. 

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