Entre fios e negócios: jovens baianas reinventam saberes ancestrais
Entre agulhas, linhas e memórias familiares, uma nova geração de mulheres baianas mantém viva a tradição do feito à mão e transforma crochê, costura e bordado em empreendedorismo e autonomia
Por Rosana Bomfim.
As mãos percorrem a linha com rapidez, repetindo um movimento que atravessa gerações. Hábitos que já foram vistos como práticas ancestrais e ultrapassadas se revelam atuais e autorais por meio de jovens mulheres das gerações Z e millennial, que transformaram raízes e heranças culturais em empreendedorismo e fonte de renda.
Costura, bordado e crochê deixaram de ser apenas hobbies para se tornarem oportunidades de negócio para uma geração que une tradição, criatividade e inovação. Nesta reportagem, você conhecerá as histórias de quatro mulheres que ajudam a manter viva a tradição cultural e reforçam o protagonismo feminino no empreendedorismo baiano.

Tradição que virou renda
Amanda Santos, de 27 anos, moradora de Simões Filho, transforma fios em roupas, bolsas e peças de decoração há três anos. O gesto parece simples, mas carrega uma história que começou muito antes de seu nascimento. Sua bisavó produzia rendas de bilro e peças de crochê que ainda hoje fazem parte das lembranças da família.
Ao ser questionada sobre como aprendeu as técnicas, Amanda revela: "Ninguém tem paciência nessa família. Aprendi tudo sozinha, assim como minha mãe, que costumava observar minha bisa enquanto ela fazia as rendas de bilro".
Amanda uniu esse conhecimento ancestral aos ensinamentos adquiridos por meio de vídeos na internet, que lhe apresentaram diferentes técnicas de crochê e ajudaram a transformar um passatempo em uma oportunidade de empreendedorismo.

Ela conta que o hobby começou com o objetivo de reduzir o tempo diante das telas. "Eu comecei a assistir a tutoriais no YouTube e praticar. Comprei o material errado na primeira vez, mas, depois que corrigi isso, percebi que o crochê ajudava até na ansiedade. Como é uma atividade longa e repetitiva, você precisa manter uma continuidade para que os pontos tenham o mesmo padrão".
O que começou como uma atividade terapêutica logo se transformou em negócio. A experiência de Amanda reflete uma tendência crescente na Bahia, onde cada vez mais jovens mulheres têm encontrado no artesanato, na costura e no bordado uma oportunidade de empreender.
Segundo o Relatório de Jovens Empreendedores do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), referente ao quarto trimestre de 2024, a Bahia possui 276,4 mil jovens empreendedores, dos quais 41,2% são mulheres. O cenário revela o crescimento da participação feminina nos pequenos negócios e ajuda a explicar a expansão da economia criativa em segmentos ligados à moda artesanal.

A tendência também aparece em nível nacional. Uma pesquisa divulgada em 2025 por uma das mais tradicionais fabricantes de máquinas de costura do mundo revelou um crescimento de 9% na participação da Geração Z entre os consumidores do segmento.
Realizado com 1.223 entrevistados, o levantamento apontou que esse público passou de 43% para 52% dos consumidores em apenas dois anos. Os dados mostram que jovens entre 18 e 29 anos já representam a maioria dos novos usuários da categoria, impulsionados pela busca por personalização, consumo consciente e pelo movimento DIY (Do It Yourself), ou "faça você mesmo".
Fio que une gerações
Antes de criar sua própria marca de roupas, Eduarda Assis, de 30 anos, moradora de Lauro de Freitas, acumulou diferentes experiências empreendedoras. Vendeu acessórios, geladinhos, salgados e camisetas. Foi na moda, porém, que encontrou seu propósito.

Ela lembra que, desde criança, gostava de personalizar roupas, criar combinações e experimentar estilos. Sem nunca ter feito um curso formal de costura, aprendeu de forma autodidata por meio de conteúdos gratuitos disponíveis na internet. "Depois que entendi que esse era o meu caminho, percebi que a moda sempre esteve presente na minha vida".
A trajetória de Eduarda representa uma característica comum entre os novos empreendedores da economia criativa: o aprendizado independente impulsionado pelo acesso à informação digital. Hoje, ela desenvolve uma linha de roupas pensada para atender às necessidades da mulher contemporânea. "Quero fazer uma moda funcional, que resolva problemas da rotina da mulher real".

Para ela, empreender vai além da venda de produtos. É também uma forma de expressar identidade, criatividade e propósito, elementos cada vez mais valorizados por consumidores que buscam peças autorais e produzidas em menor escala.
Bordando oportunidades desde criança
Assim como as demais entrevistadas, Stephane Freitas, de 32 anos, moradora de Salvador, teve o primeiro contato com a costura ainda na infância. Foi também nesse período que deu os primeiros passos no empreendedorismo.

Aos 14 anos, ela trabalhou em um quiosque de bordados em um shopping. Foi ali que aprendeu a operar máquinas, criar desenhos e atender clientes. "O bordado foi meu primeiro amor e também meu primeiro emprego", conta.
Mas sua história começou ainda antes. Aos oito anos, produziu suas primeiras peças de roupa. Aos 12, já ensinava clientes a utilizar máquinas domésticas na loja onde sua mãe trabalhava. O dinheiro obtido com as aulas era reinvestido em tecidos e materiais para novas criações.
Em 2019, poucos meses antes da pandemia, Stephane inaugurou uma loja virtual especializada em bordados. Com o crescimento das vendas online, a demanda por uniformes personalizados e produtos bordados aumentou significativamente.

Apesar da formação técnica em Eletrotécnica e Eletromecânica, ela nunca abandonou sua principal paixão: o trabalho manual. A empreendedora conta que, durante a pandemia, enfrentou um dos períodos mais desafiadores da trajetória da empresa. Com o fechamento das lojas físicas, os pedidos diminuíram significativamente.
O cenário começou a mudar quando outras empresas passaram a atuar no ambiente digital e investiram em produtos personalizados, como máscaras bordadas e lembrancinhas. Outro desafio foi a transição do ambiente virtual para uma loja física. "Muitos pensam que é fácil abrir uma loja e apenas pagar aluguel e luz. Mas, se eu não tivesse uma boa contadora e organização financeira, não teria conseguido avançar".
Hoje, a empresa de Stephane comemora sua evolução produzindo itens voltados para datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Avós e Natal. No fim do ano passado, ela chegou a confeccionar cerca de 100 uniformes e 300 unidades de brindes personalizados.

Quanto vale o "feito à mão"?
Apesar do crescimento do setor e do aumento do interesse por produtos artesanais, as empreendedoras ainda enfrentam desafios semelhantes no dia a dia dos negócios. O principal deles é convencer os consumidores de que o valor de uma peça artesanal vai muito além do custo da matéria-prima. "Tem muita gente que gosta do crochê, mas não valoriza a mão de obra", afirma Tatiane.

Segundo ela, muitos clientes não compreendem o tempo necessário para produzir uma peça. Além da execução dos pontos, existem etapas como acabamento, costura manual, personalização e aplicação da marca. Amanda também destaca que o trabalho artesanal exige dedicação intensa. "Existem peças que podem levar mais de 50 horas para serem produzidas. Ainda há quem não veja o crochê como profissão".
Além da oscilação constante nos preços dos materiais, as artesãs também enfrentam os impactos físicos da atividade. Movimentos repetitivos por longos períodos podem causar lesões e limitar a capacidade produtiva, exigindo pausas e cuidados constantes com a saúde.

Redes sociais como vitrine
Parte da superação desses desafios passa pelo uso estratégico das redes sociais. Se antes a divulgação dependia quase exclusivamente de feiras, indicações e do tradicional boca a boca, hoje plataformas como Instagram, WhatsApp e TikTok se tornaram vitrines fundamentais para os pequenos negócios.
Além de ampliar o alcance das marcas, essas ferramentas também democratizaram o acesso ao aprendizado. Tutoriais, cursos online e comunidades digitais permitem que novos artesãos desenvolvam técnicas e aprimorem seus conhecimentos sem precisar investir grandes quantias em formação presencial.
Nesse contexto, a tecnologia não substitui o saber artesanal. Pelo contrário: ela amplia seu alcance e fortalece a conexão entre produtores e consumidores.
O futuro costurado à mão
Entre linhas, tecidos e agulhas, essas jovens empreendedoras representam um movimento que cresce na Bahia: a transformação de saberes tradicionais em oportunidades econômicas.
O segmento do artesanato cresceu 26% nos últimos dez anos e, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), reúne cerca de 1,3 milhão de pessoas em ocupações ligadas ao artesanato no Brasil.
O avanço acompanha o surgimento de uma nova economia artesanal, impulsionada por consumidores que buscam autenticidade, sustentabilidade e conexão cultural. As mulheres são maioria expressiva no setor, representando 60,7% dos profissionais.
A Pesquisa de Artesãos no Mercado Nacional, do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), publicada em janeiro de 2026, mostra que seis em cada dez artesãos são jovens adultos. A faixa etária entre 25 e 34 anos representa 34,2% dos profissionais do setor.
Em relação à fonte de renda, 35,3% afirmam que o artesanato é sua única fonte de sustento, realidade semelhante à de Stephane. Outros 32,7% informam que a atividade funciona como complemento financeiro, caso de Tatiane. Já 29,2% dizem que o artesanato é sua principal fonte de renda, embora mantenham outras atividades paralelas. Apenas 2,8% afirmam praticar o artesanato predominantemente como hobby.

Mais do que produzir roupas, bordados ou peças de crochê, Amanda, Tatiane, Eduarda e Stephane preservam memórias familiares, fortalecem a economia criativa e constroem negócios próprios em um mercado cada vez mais interessado em autenticidade e personalização.
Ao finalizar mais uma peça, elas cortam a linha e observam o resultado. O gesto dura apenas alguns segundos, mas carrega décadas de história, aprendizado e resistência. Em cada ponto estão as marcas das mulheres que vieram antes delas e o futuro de uma geração que decidiu transformar tradição em empreendedorismo.
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