ENTREVISTA: “Arte é aquilo que, se você não colocar para fora, fica com câncer”, diz integrante do grupo 5 a seco

ENTREVISTA: “Arte é aquilo que, se você não colocar para fora, fica com câncer”, diz integrante do grupo 5 a seco

Por Da redação.

ENTREVISTA: “Arte é aquilo que, se você não colocar para fora, fica com câncer”, diz integrante do grupo 5 a secoLaura Del Rey

Os fãs baianos da banda paulista 5 a seco “estão felizes pra cachorro”, como diria uma das canções mais conhecidas do grupo. O quinteto vêm a Salvador, neste final de semana, para tocar num dos principais pontos turísticos da cidade, o Pelourinho (no Largo Tereza Batista). Com a proposta de ser um coletivo de cinco compositores que expressam suas individualidades em conjunto, esta será a primeira apresentação do 5 a seco na capital baiana.

O Aratu Online conversou com Leo Bianchini, um dos integrantes do grupo, sobre o show que acontece na cidade, música, política e arte. Confira a íntegra abaixo:

Aratu Online: Esta é a primeira vez que a banda vem a Salvador. O show acontece no Pelourinho, um dos principais pontos turísticos e símbolos culturais da cidade. Como vocês pretendem conciliar o MPB da música de vocês com a efervescência cultural do lugar?

Leo Bianchini: Na verdade, não sei se é uma conciliação, porque o público vai estar lá já sabe e gosta do que a gente vai tocar. Então eu acho que o lugar do show vai servir para potencializar a ligação entre o público com a gente, nossa música. Para a gente, tocar num lugar histórico assim é muito emblemático. É a primeira vez que a gente vai à Bahia, temos um fã clube muito grande aí. Quando você vai pra a capital e toca num teatro fechado, que é uma zona meio neutra, é diferente de você tocar num cartão postal da cidade. Então eu acho que isso vai tornar o show ainda mais especial.

Aratu Online: No último disco de Saulo Fernandes, Baiuno, Tó Brandileone cantou com o baiano a faixa Leve-me ao mar. Neste show em Salvador, vocês pretendem levar algum convidado da terra para dividir o palco?

Leo Bianchini: A gente queria muito, mas acabamos não nos programando para isso. Mas o Saulo vai continuar orbitando, vai continuar sendo uma possibilidade de parceria. Ele é um querido e seria um prazer dividir o palco com ele. Mas, desta vez, vamos fazer só o nosso show mesmo. É a primeira vez que a gente vai a Salvador, então vai ser interessante ser só o nosso show mesmo, também para a gente conhecer qual é a nossa ligação com o público baiano, sabe?

Aratu Online: No álbum Ao Vivo no Ibirapuera, vocês mostraram algumas referências clássicas do MPB, como Lenine. O último álbum de vocês, Policromo, ecoou ainda mais essas referências, acrescidas a Caetano Veloso e Chico César. Vocês têm sido considerados uma das revelações do MPB. Como vocês conseguem beber na fonte de renomados clássicos e, mesmo assim, manter a identidade?

Leo Bianchini: Talvez a gente consiga porque a gente é músico, e a música tem desses mistérios, desse poder de transformação. Tem um campo do inconsciente, com quem trabalha com arte, que é assim. A gente é inundado por transformações e isso tem um tempo de maturação para que a gente converta de forma natural em músicas. Estamos inseridos num momento de renovação, acho que por isso que as pessoas vêm a gente dessa forma, como uma renovação. Cabe ao nosso tempo reformular um pouco dos padrões, adequá-los ao nosso tempo. Para a gente, é uma honra ser enquadrado neste lugar.

Aratu Online: Você tem um projeto a parte do 5 a seco, o Mudrungo. Diferente do 5 a seco, a banda faz uma mistura mais intensa de ritmos, que passa pelo brega, o funk e até pelo pagode. O termo ??mundrungo?? significa ??inconveniente, zé mané??. Porque esse nome? É uma tentativa de abordar de forma diferente gêneros musicais que, muitas vezes, são tachados como inferiores pelo público erudito?

Leo Bianchini: Na verdade, existem várias definição para ??Mudrungo??. É uma palavra africana que faz referência a uma pessoa inconveniente, meio ??mal vestida??, com a aparência um pouco ??ruim??, uma coisa meio indigesta. A escolha por Mudrungo tem a ver com não esconder nossa monstruosidade, os nossos monstros. A gente não quer esconder esse lado, quer mostrar aquilo que muitas vezes as pessoas não mostram. A minha voz que eu canto no Mudrungo, por exemplo, é muito diferente da voz com a que eu canto no 5 a seco. É um lado um pouco mais doidão, toda estética aponta mais pra esse lado inconveniente. A gente definia nosso som como um som meio mudrungo. Tem um pouco da coisa de não se levar a sério demais, ta sempre bem vestido, barba feita, de falar bonito, de se aparecer, ser higienizado. A gente busca explorar esse paradoxo.

Aratu Online: Além de você, todos os integrante do 5 a seco tem projetos individuais. Como vocês conseguem conciliar a diversidade de formação e gostos musicais com as composições da banda?

Leo Bianchini: O 5 a seco é um momento de encontro dessas cinco personalidades. A gente sempre diz e bate na tecla de que o 5 a seco é uma reunião de cinco compositores, de cinco individualidades. Até então, os modelos atuais tendem a encaixar a gente sob o rótulo de uma banda, o que não é mentira, mas é um pouco reducionista perto do que a gente quer passar. São cinco pessoas que trabalham muito individualmente, mas que também se juntam para dizerem coisas no coletivo. A nossa ideia é que quanto mais a gente vai amadurecimento o projeto, produzindo discos, mais a clareza desse conceito aumenta. As pessoas têm que olhar a gente como um momento de união dessas cinco pessoas, que vai condensar todas as andanças desses cinco, suas referências. Tem também o elemento místico da união, que reverbera no coletivo, nas músicas.

Aratu Online: Diferente de outras bandas, nas quais as funções dos artistas são delimitadas, no 5 a seco, há uma filosofia de que todos fazem tudo. Por que vocês optaram por esse tipo de formação?

Leo Bianchini: Essa formação nasceu de uma vontade de vivenciar um ambiente onde não há protagonista, um ambiente de coletividade pura. Não há uma posição hierárquica, todos os agentes são importantes e contribuem para a expressão de uma voz coletiva. O que a gente quer fazer é um lugar onde não existam pessoa trabalhando para ninguém (uma banda anexa), mas sim onde são todos sócios, criadores. Todo mundo que ta ali tem uma importância muito grande.

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Formação da banda 5 a Seco

Aratu Online: Artistas como Letícia Sabatella sofreram ataques por conta do posicionamento político. Vocês costumam fazer do palco um lugar para manifestações políticas também ou não levantam esse tipo de discussão nos shows por receio de um feeback ??negativo???

Leo Bianchini: Cara, a gente tem um ponto de convergência: uma visão progressista. É difícil falar como o grupo enxerga a atual conjuntura, porque são cinco individualidades. Mas o que eu sei, é que todos votaram no Haddad, e que jamais votariam em Dória. Todos votaram em Haddad porque vivenciam a cidade, o processo de florescimento da visão de cidade. Mas, obviamente, há muita gente na periferia que discorda disso e que não votou nele. Eu também não sofria o que o povo da periferia sofreu com a gestão dele, o índice de reprovação lá foi enorme e eu não tiro a razão dos caras. Mas entre o Haddad e o Dória, que é, a meu ver, um empresário sem noção, com uma pauta específica de privatizações e visões retrógradas, é óbvio que a gente votaria no Haddad, claro. O que eu posso dizer que não tem nenhum retrógrado no grupo, não existe nenhuma que existe nenhuma inclinação reacionária, todos acreditamos em direitos humanos e não tem nada disso que bandido bom é bandido morto. A gente discorda de todos esses bordões fascitas. Ah, e todos também acreditam que foi um golpe e que o Michel Temer realmente é um conspirador.

Aratu Online: Vocês acreditam que é papel do artista se engajar e se posicionar no mundo político em que estão inseridos? Por que acham que tão poucos fazem isso?

Leo Bianchini: Na verdade, este não é o foco. A gente está vivendo um processo de transformação política que é recente. A gente faz uma manifestação que é progressista, onde a gente tem temática e letras que são abrangentes. Não é tão panfletária no sentido de assumir um partido, mas eu acho que a gente poderia se aprofundar nisso. Eu acho importante, neste momento, é importante se você tem uma opinião política, você repassar. Não acho que é papel do artista. Ele tem um poder de comunicação muito forte, mas eu acredito, também, na arte pela arte. O próprio material já é uma coisa em si, que não precisa, necessariamente, estar ligado a uma causa política ou partidária. Eu acho que é mais político, mais pessoal, quando você lança alguma coisa no mundo independente de qualquer partido. O engajamento não está só na polaridade política. Acredito que a maioria dos artistas não se manifesta porque, socialmente, a gente não está nessa fase ainda, estamos num processo de evolução. Mas não acho que é uma obrigação do artista tocar neste ponto. Mesmo porque, muitas vezes, de uma forma simbólica, ele está tocando mais no progresso do que quando você repete uma pauta progressista. Mas essa é a minha opinião.

Aratu Online: Quem decidir procurar a respeito da vida particular dos integrantes do 5 a seco dificilmente vai encontrar esses detalhes expostos em redes sociais como o instagram. Numa sociedade que se pauta pela superexposição, especialmente no mundo artístico, trata-se de uma exceção. Por que vocês optaram por essa postura? É uma tentativa de separar a vida profissional da pessoal e, assim, poder passar ??despercebido?? nos lugares que vocês freqüentam?

Leo Bianchini: Eu acho que naturalmente, por não sermos artistas comerciais, no sentido negativo da palavra, a gente tende a encarar com naturalidade essas coisas. Na minha página pessoal, eu não tenho muita necessidade de fazer isso, por exemplo. Isso tem a ver com o fato de a gente fazer tudo de forma muito orgânica. A nossa força maior não é a nossa força de mercado, mas o poder de criação. A gente tem muito mais poder musical que mercadológico. O forte mesmo é a coisa em si, o que a gente lança. A evolução da nossa popularidade sempre foi orgânica. Nunca tivemos um empresário. Agora que a gente trabalha com um. Mas ele não quer fabricar a gente de uma forma, a gente é do jeito que é. A gente não tem uma rede social muito ativa, não somos muito estratégicos. Estamos pensando numa reformulação, porque estamos em processo de elaboração do terceiro disco. Vamos fazer um DVD ao vivo, mais ou menos da forma do primeiro disco. É a gente vai ter um processo de um novo show. No próximo disco, vamos ter uma nova conduta, digamos, “mais comercial”. Isso vai ser o máximo, mas mesmo assim vai ser muito distante de uma banda/artista não natural.

Aratu Online: Há algum tempo, em resposta a uma entrevista, Pedro Viáfora disse que o título da música ??Eu amo Djavan?? não significa nada, pois uma letra não precisa fazer sentido para ser sentida. Para vocês, o que é arte, afinal?

Leo Bianchini: Arte é aquilo que, se você não colocar para fora. fica com câncer. A arte é uma coisa inevitável, um impulso, uma força incontrolável. E a gente faz arte dentro do universo das canções, algo que tem regras muito empíricas. Ninguém sabe dizer de onde ela vêm. Eu gosto muito de você perceber como um canal, filtra as necessidades sociais, faz uma síntese de tudo que acontece, mas coloca a sua identidade nisso. Tem uma definição de poesia aquilo que não serve pra nada. Então é isso, é aquilo que não serve para nada, mas é tudo que não pode faltar. À parte dessas necessidades como comida, bebida, existe um brilho.

A Banda convida os baianos para o show que acontece na cidade, dia 29 de outubro (sábado). Veja abaixo:

 

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