Prova do Enem 2026 tem perfil crítico, reflexivo e social; veja análise de professores por área
Prova do ENEM deste domingo contou com áreas de humanas, linguagens e ainda uma redação de até 30 linhas; veja análise de professores
Por João Tramm.
A prova do Enem 2026 apresentou uma abordagem marcada por questões sociais, interpretação crítica e conexões entre diferentes áreas do conhecimento. Professores do Bernoulli Educação analisaram para o Aratu On os destaques da avaliação neste domingo (8) e apontaram características que chamaram a atenção nas provas de Linguagens, História, Geografia, Filosofia e Sociologia, além da proposta de redação.
Entre o que chamou atenção está a presença de debates sobre inclusão, racismo, machismo, diversidade cultural, movimentos sociais e questões ambientais. Os especialistas também observaram a valorização da capacidade interpretativa dos candidatos, com textos, gráficos e referências culturais que exigiram repertório e leitura atenta.
A redação, que teve como tema “A valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito universal”, também foi considerada relevante por permitir discussões sobre cidadania, direitos constitucionais e os desafios enfrentados pela saúde pública brasileira. Apesar disso, o tema exigiu atenção dos alunos no que tange a problematizar o SUS e não apenas elogiá-lo.
Nos dois domingos de aplicação, 8 e 15 de novembro, os portões serão abertos ao meio-dia e fechados pontualmente às 13h. O início do exame está previsto para as 13h30, seguindo o horário de Brasília.

Linguagens e redação no ENEM: inclusão, tecnologia e literatura ganham destaque
Na avaliação da professora Maria Raquel Dias Sales Ferreira, a prova de Linguagens manteve o perfil interpretativo característico do exame, com textos bem selecionados e alternativas que ofereceram pouca margem para ambiguidades. Os assuntos abordados acompanharam discussões contemporâneas, com questões sobre racismo, machismo, capacitismo, arte indígena, redes sociais e inteligência artificial.
Entre os conteúdos que apareceram na avaliação estavam campanhas sobre segurança no trânsito, um infográfico relacionado à Lei Rouanet, obras de Candido Portinari, uma canção de Dona Onete e referências à produção artística de Chico Buarque, com a obra Calabar.
O maior grau de dificuldade, entretanto, ficou concentrado nas questões de Literatura. Segundo a professora, algumas perguntas exigiram domínio mais aprofundado da historiografia literária e capacidade de relacionar aspectos estruturais, estéticos e temáticos das obras. Um dos destaques foi um conjunto de questões baseado em Menino de Engenho, de José Lins do Rego.
Sobre a redação, Maria Raquel considerou a proposta alinhada ao perfil do Enem. Os textos motivadores apresentaram fundamentos constitucionais e informações sobre a atuação do SUS em áreas como vacinação, transplantes e vigilância sanitária.
História: prova do Enem 2026 prioriza grupos vulnerabilizados e memória coletiva
A dimensão social também marcou as questões de História. Para o professor Márcio Edriano, a avaliação deu visibilidade às trajetórias de grupos historicamente marginalizados e às mobilizações por direitos e reconhecimento.
Entre os assuntos abordados estavam as reivindicações dos povos originários, a participação política feminina, a população escravizada, os povos ciganos, os trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O combate ao fascismo e ao nazismo também apareceu, assim como conteúdos tradicionais da História brasileira, a exemplo da ditadura militar e da Guerra do Contestado.
Outro aspecto que chamou a atenção foi a utilização de um mesmo texto como referência para cinco questões sobre museus e preservação da memória. A abordagem ultrapassou os limites da disciplina e estabeleceu relações com Geografia e Sociologia.
Na avaliação do professor, a prova apresentou dificuldade entre média e alta, exigindo dos participantes capacidade de relacionar acontecimentos históricos às questões sociais contemporâneas.
Geografia: sustentabilidade e agricultura familiar aparecem entre os destaques
Em Geografia, a prova manteve características observadas em edições anteriores, com predominância de questões interpretativas e menor necessidade de memorização de conteúdos específicos. O professor Juninho Lopes destacou a presença de discussões sobre problemas socioeconômicos e ambientais brasileiros.
Na parte de Geopolítica, o Estreito de Ormuz apareceu em uma questão sobre a aproximação entre Irã e Paquistão. Já o debate sobre terras raras trouxe informações sobre as reservas de China, Brasil e Índia, com enfoque no potencial estratégico dos países do Sul Global.
A agroecologia foi outro assunto recorrente, aparecendo em três questões. O exame abordou a produção de commodities voltada ao mercado externo e a importância da agricultura familiar para o abastecimento interno.
As questões ambientais exploraram a destinação de resíduos sólidos, os processos de salinização e assoreamento e os possíveis impactos do descarte de materiais utilizados na produção de energia fotovoltaica.
O professor também ressaltou o uso de mapas e gráficos, que exigiram habilidades de interpretação cartográfica e análise de dados. A prova ainda estabeleceu uma conexão entre o crescimento econômico brasileiro durante a ditadura militar, entre 1968 e 1973, e a crise de endividamento que marcou a década de 1980.
Filosofia e Sociologia: movimentos sociais e debates éticos orientam questões
A prova de Ciências Humanas também trouxe discussões sobre diversidade cultural, participação política e questões éticas. Para o professor Renato Faria, os candidatos precisaram demonstrar capacidade de interpretação e relacionar diferentes campos do conhecimento.
Entre os assuntos abordados estiveram a identidade dos povos indígenas, o ingresso e a permanência desses estudantes nas universidades, o movimento feminista, a valorização da cultura negra e as conquistas dos trabalhadores no século XIX.
Na Sociologia, uma das questões utilizou a obra Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, para discutir o conceito de patrimonialismo.
Um dos pontos destacados pelo professor foi a presença de textos mais extensos. Um material de Lilia Schwarcz sobre a construção dos museus, por exemplo, serviu de referência para cinco questões que estabeleceram relações com o pensamento pré-socrático, o etnocentrismo e a pluralidade cultural.
Em Filosofia, a avaliação exigiu menos domínio de vocabulário técnico e mais capacidade de interpretação de textos complexos. Ainda assim, conhecimentos sobre os pré-socráticos, os contratualistas Hobbes e Rousseau e o pensamento de Aristóteles foram importantes.
A discussão sobre os limites do melhoramento genético na escolha de características dos filhos também apareceu. Entre as questões consideradas mais complexas pelo especialista esteve uma que relacionou Hannah Arendt e Walter Benjamin para abordar a espetacularização e a estetização da política.
Na análise de Renato Faria, o exame valorizou o repertório sociocultural e a capacidade de estabelecer conexões entre Filosofia, política e sociedade.

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