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Educação inclusiva: professores enfrentam desafios para atender alunos neurodivergentes

Em Salvador, professores enfrentam desafios como salas lotadas, sobrecarga e falta de preparo no atendimento a estudantes atípicos

Por Liven Paula.

Nesta quinta-feira (6), é celebrado o Dia Nacional dos Profissionais da Educação. A data traz à tona um cenário de forte contraste nas salas de aula baianas: enquanto marcos legais avançam para garantir a inclusão de alunos neurodivergentes, professores enfrentam desafios com uma rotina marcada por desassistência e esgotamento físico e mental.

Professores enfrentam desafios para atender alunos neurodivergentes. | Foto: Secom

Professores enfrentam desafios com formação e rotina

Um dos problemas centrais apontados pelos profissionais da capital baiana é a lacuna na formação acadêmica. Licenciaturas em áreas específicas, como Matemática e Português, preparam o docente para a transmissão de conteúdos, mas raramente oferecem ferramentas práticas para lidar com diversos níveis de desenvolvimento cognitivo em uma mesma turma.

O professor de matemática K.M., que atua na rede privada de Salvador, relata a complexidade de gerenciar dinâmicas pedagógicas opostas no mesmo tempo de aula.

"A gente não aprende na faculdade como tratar matemática para um aluno no espectro autista em seus diferentes níveis de suporte. Em 100 minutos de aula, preciso ensinar equação do segundo grau para a turma do 9º ano e, na mesma sala, explicar adição com material dourado para alunos adaptados. Isso consome noites e finais de semana. A rotina está nos adoecendo".

A dificuldade de adaptar currículos sem o acompanhamento necessário também é destacada pelo professor de química L.C., que atua na rede privada soteropolitana:

"Meu planejamento de aula tinha que ser duplo, porque percebia que eles não acompanhavam o ritmo regular da turma. Ao mesmo tempo, o professor precisa gerenciar o uso de celulares e conflitos comportamentais. É muito difícil dar a atenção individualizada que o aluno atípico precisa sem um suporte ao lado".

O que diz a lei 

A sobrecarga dos docentes contrasta com o arcabouço legal brasileiro, amparado pela Constituição, pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e pela LDB, que garante acesso, permanência, participação e aprendizagem ao estudante atípico.

Recentemente, o Decreto nº 12.686/2025 reforçou essas diretrizes ao tornar obrigatória a elaboração do Plano de Desenvolvimento Individualizado (PEI), regulamentar o papel dos profissionais de apoio e definir que o atendimento depende da necessidade pedagógica do aluno, e não apenas de laudo médico.

No entanto, sem orçamento, infraestrutura e contratação de pessoal, a responsabilidade de cumprir essas exigências legais acaba caindo unicamente sobre o professor.

Professores enfrentam desafios para atender alunos neurodivergentes. | Foto: Secom

Escassez de suporte

Para a psicopedagoga e especialista em Educação Inclusiva Kathia Fernanda, com mais de 30 anos de atuação no chão da escola e na formação docente, a dificuldade vivida em sala não é fruto de rejeição da pauta por parte dos professores, mas da falta de condições mínimas de trabalho.

"O professor não está resistindo à inclusão. O que ele demonstra é um pedido de ajuda, um pedido de socorro. Apenas matricular o aluno não garante a inclusão, e ela não começa na sala de aula. É preciso planejamento, conhecimento e apoio da gestão.

Kathia reforça a relevância de acompanhantes e mediadores escolares (ATEIs/ADIs) garantidos por lei, ressaltando que a presença deles é vital, embora não substitua a regência do professor. "Eles oferecem suporte para que o aluno tenha autonomia e acesso ao currículo, mas a responsabilidade pelo ensino continua sendo do professor. Na rede pública, a falta desse profissional muitas vezes impede até a frequência da criança na escola".

A ausência desse suporte estrutural pode gerar situações de vulnerabilidade. O docente J.M. relata ter sofrido agressão física durante um surto de descompensação de um aluno atípico em Salvador.

"Passei por uma cirurgia e precisei me afastar do trabalho. Devido ao grau de neurodivergência, o aluno deveria ter um acompanhante exclusivo. Minha indignação foi a falta de assistência da escola após o acidente, ocorrido no meu local e horário de trabalho".

O professor T.G. complementa ressaltando que a integração precisa ser acompanhada de estrutura real. "A questão não é a exclusão, mas sim uma integração digna. O que acontece frequentemente é jogar os estudantes neurodivergentes em salas lotadas, sem auxílio, deixando a administração de tudo nas costas do professor."

Nem sempre a inclusão é real 

Outro ponto crítico levantado é a banalização do conceito de adaptação curricular. Em muitas instituições, a inclusão é reduzida a ajustes formais em avaliações, sem gerar ganho pedagógico efetivo ou desenvolvimento de autonomia.

"Às vezes, as escolas fazem mais exclusão do que inclusão. Mudar a prova de A4 para A3 ou cortar opções de múltipla escolha não é inclusão. O objetivo precisa ser tornar esse indivíduo funcional para a sociedade, para que ele possa ter autonomia no futuro”, disse o professor K.M.

Professores enfrentam desafios para atender alunos neurodivergentes. | Foto: Secom

Cuidar de quem educa para efetivar a lei

A consolidação de uma educação genuinamente inclusiva passa, inevitavelmente, pelo investimento no corpo docente e nas equipes escolares. Conforme resume Kathia Fernanda, a legislação aponta o caminho, mas são as pessoas e os recursos que concretizam o direito:

"Inclusão não é improviso. Garantir um mínimo de qualidade para o trabalho do professor é condição sine qua non. Formação continuada, tempo de planejamento e suporte técnico são a mola mestra para que a inclusão chegue de forma positiva ao aluno."

Amparo financeiro para professores

Em novembro de 2025, a Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados aprovou  o projeto de lei que cria um adicional salarial para professores da educação básica pública que trabalham diretamente com alunos com deficiência.

O novo benefício, chamado Adicional Nacional de Inclusão Educacional (Anie), reconhece o esforço dos docentes que atuam no Atendimento Educacional Especializado (AEE) em salas de recursos multifuncionais. A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Educação; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de ir a votação no plenário.

Os depoimentos da rotina escolar deixam evidente que o cumprimento da legislação exige ir além da garantia da vaga: requer apoio técnico contínuo, preservação da saúde dos educadores e condições estruturais para que o direito de aprender seja uma realidade para todos.

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