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Aprovados, mas sem vaga: 70% dos cotistas convocados pela Uneb são considerados inaptos; professor questiona critérios

Candidatos cotistas aprovados na Uneb denunciam ter perdido as vagas após serem considerados inaptos

Por Bruna Castelo Branco.

Candidatos cotistas aprovados no Processo Seletivo Especial 2026 (veja edital) da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) denunciam ter perdido as vagas após serem considerados inaptos ou não confirmados em etapas de validação das cotas.

Uma análise dos resultados divulgados pela universidade aponta que cerca de 70% dos candidatos convocados nas modalidades destinadas a negros, indígenas, quilombolas, pessoas trans e pessoas com deficiência tiveram as inscrições impactadas por inaptidões documentais, não confirmações em procedimentos de validação ou pelas duas situações.

Candidatos cotistas aprovados na Uneb denunciam ter perdido as vagas após serem considerados inaptos. | Foto: Divulgação

O levantamento foi apresentado ao Aratu On pelo professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e antropólogo Felipe Fernandes, que questiona os critérios utilizados pela instituição e afirma que o processo estaria atingindo justamente grupos historicamente contemplados pelas políticas de ações afirmativas.

A reportagem questionou a Uneb sobre a denúncia, e a instituição informou que irá apurar as informações apresentadas.

Os números ainda podem sofrer alterações, já que os candidatos podem apresentar recursos.

Candidatos passaram na seleção, mas perderam a vaga

Segundo resultados publicados pela própria universidade, parte dos candidatos considerados inaptos ou não confirmados já havia sido aprovada na seleção e só perdeu a vaga posteriormente, durante as etapas de comprovação e validação previstas para as modalidades de cotas.

Para Felipe Fernandes, o cenário levanta questionamentos sobre a efetividade dos mecanismos adotados pela universidade.

“É alarmante e revoltante constatar o número expressivo de candidatos cotistas considerados inaptos ou não confirmados no Processo Seletivo Especial da UNEB 2026. Entre os atingidos estão candidatos negros, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, pessoas trans e outras populações historicamente excluídas, justamente os grupos que a política de cotas deveria proteger e incluir. Quando tantas identidades são invalidadas por barreiras documentais e processos de validação que terminam por excluir mais do que incluir, é legítimo questionar: para quem servem as cotas?”.

Caso de José Carlos chama atenção

Entre os casos relatados está o de José Carlos da Conceição Ferreira, de 48 anos, que trabalha como zelador e é músico nas horas vagas. Carlos obteve a maior nota entre os candidatos do polo para o curso que pretendia ingressar, mas foi considerado inapto na etapa de análise da documentação.

De acordo com Carlos, o problema ocorreu porque ele concluiu o ensino médio em uma instituição privada. Para a modalidade de cotas à qual concorreu, o processo seletivo exige que o candidato tenha cursado integralmente o ensino médio em escola pública.

O candidato, porém, afirma que não tinha condições financeiras para pagar pela formação e estudou na instituição privada por meio de uma bolsa integral concedida pelo Projeto Axé. Segundo ele, nunca houve pagamento de mensalidades.

Entre os casos relatados está o de José Carlos da Conceição Ferreira, de 48 anos, que trabalha como zelador e é músico nas horas vagas. | Foto: Arquivo Pessoal

“Ao submeter meu diploma para análise, ele foi considerado inválido. A instituição recusou o documento sob a justificativa de que se tratava de uma escola privada”, explicou.

Carlos afirma que a situação é especialmente difícil porque, embora tenha estudado em uma instituição particular, sua formação ocorreu por meio de uma bolsa integral.

“É importante esclarecer que cursei essa instituição por meio de uma bolsa de estudos integral, concedida pelo Projeto Axé. Como eu não dispunha de condições financeiras na época, essa oportunidade foi fundamental para a minha formação, sendo que jamais realizei qualquer pagamento pela mensalidade”, afirmou.

O diploma apresentado por Carlos possui o brasão do Governo do Estado.

Aprovação foi vista como oportunidade de mudar de vida

Carlos conta que recebeu a aprovação com entusiasmo, por enxergar no ingresso na universidade uma possibilidade de mudar de vida. A alegria, porém, deu lugar à frustração quando consultou o resultado e descobriu que havia sido considerado inapto.

“Foi uma sensação muito, muito boa, até porque eu tinha uma necessidade muito grande, que eu vi uma oportunidade de eu mudar de vida”, relatou.

Segundo ele, a aprovação representava a possibilidade de ter acesso ao ensino superior e construir uma nova trajetória: “Agora vou mudar de vida, agora vou ter uma outra oportunidade, vou ter um outro caminho”.

Depois da divulgação do resultado da análise documental, no entanto, veio a frustração. Carlos diz que ficou muito triste ao perceber que havia perdido a oportunidade.

“Eu passo com a melhor nota e não consigo ingressar na universidade”, resumiu. Ele afirma que passou a noite sem dormir após descobrir a inaptidão. “Eu acordei três horas da manhã com esse pesadelo”, contou.

Professor questiona critérios de validação

Para Felipe Fernandes, o caso de Carlos demonstra o impacto que critérios formais podem ter sobre candidatos que enfrentam dificuldades socioeconômicas e que, apesar de apresentarem desempenho suficiente para aprovação, acabam impedidos de ocupar a vaga.

“Um negro retinto, se tivesse se declarado branco, teria sua vaga garantida. O fato de ter se declarado preto prejudicou ele”, afirmou.

O professor também questiona a proporção de candidatos que aparecem como inaptos ou não confirmados nos resultados divulgados pela universidade: “A UNEB está seguindo critérios que fazem com que 70% de cotistas percam suas vagas. Ela vai argumentar que seguiu o edital. Mas que edital é esse? Um edital que elimina 70% de pessoas que já tinham sido previamente aprovadas?”.

Fernandes afirma ainda que o objetivo das políticas afirmativas deve ser considerado na aplicação dos critérios. “Nenhuma regra razoável deveria justificar 70% de exclusão de pessoas que passaram”.

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