O sabor da floresta: a família que transformou um sonho orgânico em negócio na Bahia

Conheça a história de um café que nasceu da agrofloresta de uma mãe baiana

Por, Ananda Costa e Bruna Castelo Branco.

Mãe, você não pode desistir. Olha tudo o que você já fez”.

Foi assim que Arlene Andrade encontrou forças para seguir em frente com o sonho de empreender a partir dos produtos cultivados na própria agrofloresta, a Agrossilvicultura São Cosme e Damião, localizada na cidade de Ubaitaba, no sul da Bahia.

Mas a história não começou aí. Para ser mais precisa, começou em 1992, há mais de 30 anos, com Arlene Andrade e Eduardo Guimarães. Naquele ano, o casal decidiu comprar um terreno que estava infestado pela vassoura-de-bruxa, doença fúngica que ataca plantações, especialmente de cacau. Mesmo diante desse desafio, eles resolveram apostar em um modelo diferente de produção, criando um ambiente diversificado, com frutas e verduras, para oferecer uma alimentação mais orgânica e sustentável.

Arlene Andrade encontrou forças para seguir em frente com o sonho de empreender a partir dos produtos cultivados na própria agrofloresta. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

“A gente começou porque ele tinha uma amiga que havia feito um curso sobre agroecologia na época. Também conhecemos um consultor orgânico, que despertou muito o nosso interesse por uma produção diferente. Ele nos ajudou bastante e foi aí que começamos a produzir o biogel. Com esse fermentado, passamos a fazer a adubação para recuperar o solo, que estava muito degradado”, contou Arlene.

No início, a produção se concentrou no cacau, que já era cultivado na propriedade. Depois, vieram outras espécies, como açaí, cupuaçu e abacate. Graças às técnicas utilizadas no manejo da agrofloresta, os resultados começaram a aparecer e os frutos passaram a prosperar nas terras.

No início, a produção se concentrou no cacau, que já era cultivado na propriedade. | Foto: Arquivo Pessoal

Mas, como nem tudo são flores, os primeiros anos foram marcados por grandes desafios. Todo o dinheiro da família era investido na agrofloresta, um projeto que exigia atenção constante, trabalho intenso e muitos recursos financeiros.

“No início foi um choque. Trabalhávamos apenas eu e ele. Todo o dinheiro que tínhamos era investido aqui. Comprávamos mudas, buscamos plantas em Manaus, era uma verdadeira loucura. Eu perguntava a ele: ‘Eduardo, o que vamos fazer com essas meninas? A gente está colocando todo o dinheiro aqui’. Eu tinha medo de não dar certo, mas seguimos em frente”, relembrou.

Graças às técnicas utilizadas no manejo da agrofloresta, os resultados começaram a aparecer e os frutos passaram a prosperar nas terras. | Foto: Arquivo Pessoal

Comercialização dos produtos

Após anos de cuidado, dedicação, investimentos e disciplina, a agrofloresta começou a dar frutos, literalmente. Com a produção constante, a família passou a pensar na comercialização dos alimentos.

“Fornecíamos produtos da fazenda para restaurantes naturais e estabelecimentos de Salvador, como carne de jaca congelada, palmito fresco, chocolate artesanal e geleias. Também participamos ativamente da construção e do fortalecimento de feiras orgânicas e agroecológicas na cidade, contribuindo para ampliar o acesso a alimentos sem agrotóxicos e fortalecer a conexão entre produtores e consumidores”, contou Maria Eduarda Guimarães Andrade, uma das filhas do casal.

Maria Eduarda, filha de Arlene. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

Foi nesse período que surgiu um dos momentos mais marcantes da trajetória da família. Em uma viagem para Salvador, onde levaria os produtos para comercialização, Arlene teve parte da mercadoria confiscada por agentes da vigilância sanitária.

Na época, como os recursos financeiros eram limitados e praticamente todo o investimento era direcionado para a agrofloresta, as embalagens ainda eram simples. Os produtos continham apenas informações básicas, como data de fabricação e validade. Por não atenderem às exigências necessárias, acabaram sendo recolhidos.

Ver o resultado de tanto trabalho ser descartado abalou Arlene, que pensou em desistir do sonho. Foi então que recebeu o incentivo da filha, Maria Eduarda.

Com o passar dos anos, a família percebeu que poderia ir além da produção agrícola e ampliar ainda mais o alcance do projeto. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

“Eu fiquei muito chateada. Estava no carro e falei: ‘Sabe de uma coisa? Vamos desistir disso. Todo o dinheiro que a gente tem é investido e depois acontece uma coisa dessas’. Foi aí que minha filha falou: ‘Não, mãe, não faça isso. Você não pode desistir. Olha tudo o que fez’. Aquilo me deu coragem para continuar. As meninas sempre me apoiaram”, contou.

Casa Floresta

Com o passar dos anos, a família percebeu que poderia ir além da produção agrícola e ampliar ainda mais o alcance do projeto, mostrando para mais pessoas a importância de uma alimentação baseada em ingredientes orgânicos e sustentáveis.

Foi dessa ideia que nasceu a Casa Floresta, localizada no coração boêmio de Salvador, no bairro do Rio Vermelho.

A proposta era simples: levar para a cidade os sabores produzidos na agrofloresta, como cupuaçu, açaí e chocolate artesanal feito da amêndoa à barra, além de oferecer um ambiente acolhedor, onde todos pudessem se sentir em casa.

Café Casa Floresta, localizado no coração boêmio de Salvador, no bairro do Rio Vermelho. | Foto: Arquivo Pessoal

“Por muitos anos, tivemos o sonho de criar um espaço onde pudéssemos transformar os ingredientes da agrofloresta, produzidos de forma sustentável, em pratos criativos, saborosos e inovadores. Quando encontramos o espaço no Rio Vermelho, ao lado do Restaurante Manjericão, sentimos que era o momento certo para tirar esse sonho do papel”, contou Maria Eduarda.

Para a família, trabalhar com alimentos orgânicos significa respeitar o tempo da natureza e compreender que os alimentos devem ser resultado de um sistema produtivo que valoriza a saúde do solo, a biodiversidade, as pessoas e os territórios onde são produzidos.

“Na prática, isso significa trabalhar com alimentos sazonais, acompanhar os ciclos de produção e adaptar o cardápio à disponibilidade dos ingredientes. Nem sempre encontramos tudo o que queremos na quantidade ou no momento desejado, e esse é um dos principais desafios. Diferentemente dos sistemas convencionais, a produção agroecológica está sujeita aos ritmos da natureza, às condições climáticas e à sazonalidade de cada cultivo”.

Para a família, trabalhar com alimentos orgânicos significa respeitar o tempo da natureza. | Foto: Arquivo Pessoal

Além de orgânicos, os produtos oferecidos pela Casa Floresta são livres de glúten e lactose. A ideia surgiu após Arlene descobrir que uma das filhas era intolerante à lactose e frequentemente se sentia mal ao consumir alimentos preparados fora de casa.

“Uma das minhas filhas era intolerante à lactose. Sempre que comia alguma coisa na rua, acabava passando mal. Muitas vezes as pessoas dizem que determinado produto não tem leite, mas colocam outros ingredientes que também causam desconforto. Foi então que comecei a desenvolver receitas diferentes e pensei: ‘Precisamos mostrar às pessoas que existe outra forma de comer, que também pode ser saborosa e fazer bem’”, contou Arlene.

Cardápio de natureza

O cardápio acompanha a sazonalidade da produção agroflorestal, reforçando a ideia de que a natureza também determina o ritmo da alimentação. Mesmo os ingredientes que não são produzidos diretamente na agrofloresta passam por uma criteriosa seleção.

“Na Casa Floresta, os ingredientes que não vêm diretamente da nossa agrofloresta são cuidadosamente selecionados de pequenos produtores, cooperativas e empreendimentos parceiros que compartilham dos mesmos valores que nós: respeito à natureza, valorização das pessoas e compromisso com uma produção mais justa e sustentável”.

No cardápio, os clientes encontram uma grande variedade de produtos, desde bolos, pães de fermentação natural e bebidas especiais até opções refrescantes, como a tigela de açaí produzida na agrofloresta, servida com banana e granola caseira.

O cardápio acompanha a sazonalidade da produção agroflorestal. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

O grande destaque da casa, porém, é o bolo de cupuaçu. A receita é preparada sem trigo e sem leite. A massa leva uma farinha produzida a partir da semente do cupuaçu, além do chocolate elaborado com a própria amêndoa da fruta. Já o recheio e a cobertura são feitos com a polpa, responsável pelo sabor marcante e levemente azedo que conquista os clientes.

“Ele representa muito bem a nossa proposta de valorizar ingredientes da biodiversidade brasileira e transformar o que produzimos na agrofloresta em experiências gastronômicas surpreendentes. Muitos clientes já chegam perguntando se o bolo está disponível no dia, e não é raro recebermos pessoas que vieram por indicação de amigos apenas para experimentá-lo. Ele acabou se tornando um dos produtos mais queridos da Casa Floresta e uma verdadeira porta de entrada para conhecer o nosso trabalho”, contou Maria Eduarda.

Além dos bolos e preparações servidas na cafeteria, a Casa Floresta também comercializa diversos produtos artesanais. | Foto: Arquivo Pessoal

Produtos artesanais

Além dos bolos e preparações servidas na cafeteria, a Casa Floresta também comercializa diversos produtos artesanais produzidos a partir das frutas cultivadas na agrofloresta.

A proposta segue o princípio de que uma única fruta pode gerar inúmeras possibilidades de aproveitamento.

O cacau, por exemplo, vai muito além do tradicional chocolate. Da fruta também são produzidos cacau em pó, nibs e até chás feitos a partir das cascas.

O chocolate, inclusive, é um sucesso de vendas desde que a apresentadora Bela Gil divulgou o produto nas redes sociais e se tornou febre: “Todo mundo ligando de tudo que é estado para encomendar o chocolate”, contou.

Mesmo os ingredientes que não são produzidos diretamente na agrofloresta passam por uma criteriosa seleção. | Foto: Arquivo Pessoal

Já o cupuaçu é transformado em geleias, licores, cupulate — doce com sabor e textura semelhantes aos do chocolate, mas produzido a partir do cupuaçu — e manteiga de cupuaçu, utilizada tanto na gastronomia quanto em produtos de cuidados com a pele.

Essa é a essência do Aproveitamento Integral dos Alimentos, estratégia alinhada aos princípios da agroecologia e da produção orgânica. A prática consiste em utilizar todas as partes comestíveis dos alimentos — incluindo cascas, talos, folhas e sementes — reduzindo o desperdício e ampliando o valor nutricional das refeições.

Feito à mão

Além dos alimentos preparados por Arlene e Maria Eduarda, grande parte dos utensílios e elementos de decoração da Casa Floresta também é produzida pela própria família.

As xícaras utilizadas para servir o café, vindo diretamente da Chapada Diamantina, e os pratos que acomodam as fatias de bolo de cupuaçu são confeccionados artesanalmente por Natácia Guimarães.

Além dos alimentos preparados por Arlene e Maria Eduarda, grande parte dos utensílios e elementos de decoração da Casa Floresta também é produzida pela própria família. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

O trabalho dela também está presente nos detalhes que compõem o ambiente: vasos de flores, porta-guardanapos, recipientes para açúcar orgânico e diversas outras peças decorativas espalhadas pelo espaço.

Além de integrar a identidade visual da Casa Floresta, as criações artesanais possuem um espaço exclusivo para comercialização, permitindo que os visitantes levem para casa um pouco da experiência construída pela família.

Futuro da Casa Floresta

Mesmo com tantos frutos já colhidos, a história da Casa Floresta ainda está apenas começando. Como acontece com muitos empreendedores, o espaço atual já começa a ficar pequeno diante da crescente procura dos clientes.

Hoje, o principal desejo de Arlene é ampliar a estrutura do local para oferecer mais conforto aos visitantes e evitar situações frequentes, como clientes que chegam e não encontram mesas disponíveis ou são afetados pelas mudanças climáticas, como sol intenso e chuva, que atingem a área destinada às mesas e cadeiras.

Mesmo com tantos frutos colhidos ao longo da trajetória, a história da Casa Floresta ainda está apenas começando. | Foto: Arquivo Pessoal

“O que a gente realmente precisa é de um espaço maior. Às vezes, as pessoas chegam e acabam indo embora porque não encontram mesa disponível. Isso parte o coração da gente. Em outros momentos, uma chuva repentina atrapalha quem está aqui. Ainda bem que recebemos pessoas muito compreensivas, que entendem a situação e nos apoiam. Mas gostaríamos de oferecer mais conforto para todos”, contou Arlene.

Mas, se há algo que a família não pode reclamar, é do carinho e do reconhecimento recebidos dos clientes.

Além dos soteropolitanos, turistas de diversas partes do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, já incluem a Casa Floresta em seus roteiros e, muitas vezes, saem do Aeroporto de Salvador diretamente para experimentar os produtos da casa. É como Arlene conta:

“As pessoas vêm de todos os lugares. Tem gente que chega de viagem e já vem direto para cá porque viu recomendações e ouviu falar do nosso trabalho. Isso é o que mais nos dá satisfação. Muitas pessoas nos convidam para abrir unidades em outros estados e em outras cidades, mas, por enquanto, seguimos focados em fortalecer esse sonho”.

Além dos soteropolitanos, turistas de diversas partes do Brasil. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

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