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Juros altos e inflação: os desafios econômicos que Lula vai enfrentar na presidência do Brasil

Os dados econômicos indicam que o Brasil chega à mudança de governo com indicadores favoráveis de emprego e renda

Por Bruna Castelo Branco.

Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente do Brasil neste domingo (25) com 51,76% dos votos, terá pela frente o desafio de equilibrar as contas públicas, controlar a inflação e criar condições para a redução dos juros sem comprometer o crescimento econômico. A mudança de governo ocorrerá em um cenário de mercado de trabalho aquecido, mas também de endividamento elevado e pressão sobre as finanças públicas.

Os dados econômicos indicam que o Brasil chega com indicadores favoráveis de emprego e renda, mas enfrenta dificuldades relacionadas ao custo do crédito, à inflação e à trajetória da dívida pública. O cenário deve exigir decisões sobre despesas governamentais, arrecadação, investimentos e políticas de estímulo à atividade econômica.

A transição de governo ocorrerá em um cenário de mercado de trabalho aquecido, mas também de endividamento elevado e pressão sobre as finanças públicas. | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Dívida pública pressiona as contas do governo

Um dos principais desafios de Lula será conter o avanço do endividamento público. Segundo dados do Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, o equivalente a R$ 10,9 trilhões. O indicador reúne as obrigações do governo federal, do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e dos governos estaduais e municipais.

No mesmo mês, a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) chegou a 69,1% do PIB, ou R$ 9,2 trilhões. Já o déficit nominal do setor público consolidado, que considera o resultado primário e os juros da dívida, atingiu R$ 1,239 trilhão no acumulado de 12 meses, correspondente a 9,34% do PIB.

Os números mostram a dimensão do desafio fiscal que será herdado pelo presidente eleito. A necessidade de financiar a dívida e os gastos com juros limita o espaço disponível para outras despesas e amplia a importância das decisões sobre receitas, gastos obrigatórios e investimentos públicos.

A discussão, porém, não se resume a cortar despesas. O governo também precisará avaliar como preservar políticas públicas e investimentos sem comprometer a sustentabilidade das contas. O resultado dependerá das medidas adotadas e da capacidade de articulação com o Congresso Nacional.

Os dados econômicos indicam que o Brasil chega à mudança de governo com indicadores favoráveis de emprego e renda. | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Juros elevados dificultam crédito e investimentos

A taxa Selic, principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação, estava em 13,75% ao ano no início de outubro de 2026, segundo dados publicados pela imprensa econômica.

O patamar elevado encarece empréstimos e financiamentos, aumenta o custo do crédito para empresas e famílias e pode desestimular investimentos e consumo. Por outro lado, juros mais altos ajudam a conter a demanda e a reduzir pressões inflacionárias.

A política monetária também está relacionada à situação fiscal. Na ata da reunião de setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) alertou que incertezas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar o prêmio de risco e a taxa de juros estrutural da economia, dificultando o controle da inflação.

Por isso, um dos desafios da gestão de Lula será criar condições econômicas para que a inflação continue convergindo para a meta e para que os juros possam cair de forma sustentável. A redução da Selic, entretanto, depende das decisões do Banco Central e da evolução dos indicadores, não podendo ser garantida apenas por uma mudança de governo.

A taxa Selic, principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação, estava em 13,75% ao ano no início de outubro de 2026. | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Inflação exige atenção mesmo com alívio mensal

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira, registrou deflação de 0,32% em agosto de 2026. Apesar da queda mensal dos preços, o índice acumulava alta de 4,22% em 12 meses e de 3,11% no ano até agosto.

A diferença entre os resultados mensal e acumulado é importante para compreender o cenário: uma redução dos preços em determinado mês não significa que o custo de vida tenha diminuído de forma generalizada ao longo do ano.

Na ata de setembro, o Banco Central informou que a inflação cheia e as medidas subjacentes haviam desacelerado, permanecendo abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, mas ainda acima da meta central. As expectativas de inflação coletadas pelo boletim Focus estavam em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027.

A persistência da inflação afeta o poder de compra das famílias e influencia as decisões sobre juros. Para o presidente eleito, o desafio será contribuir para um ambiente de estabilidade econômica sem adotar medidas que ampliem as pressões sobre os preços.

Emprego e renda estão em patamares elevados

O mercado de trabalho é um dos indicadores favoráveis da economia brasileira. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram taxa de desocupação de 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, segundo levantamento publicado pela imprensa.

No mesmo período, o país registrou 103,5 milhões de pessoas ocupadas. O rendimento médio mensal real dos trabalhadores chegou a R$ 3.777, também de acordo com os dados da pesquisa.

O cenário indica condições favoráveis de ocupação e remuneração. No entanto, a manutenção desses resultados dependerá da evolução da atividade econômica, da criação de vagas e da capacidade de sustentar o crescimento dos rendimentos.

O desafio para a gestão de Lula será preservar os avanços no mercado de trabalho sem alimentar pressões inflacionárias ou comprometer o equilíbrio macroeconômico. Também será necessário acompanhar a qualidade das vagas, a informalidade e o poder de compra dos salários.

Endividamento das famílias amplia pressão sobre a economia

Apesar dos indicadores positivos de emprego e renda, o orçamento doméstico segue pressionado pelo custo do crédito e pelas dívidas acumuladas.

Levantamento publicado pela imprensa apontou que, em agosto de 2026, 12,5% das famílias brasileiras afirmavam não ter condições de pagar contas em atraso. O percentual era de 10,8% em agosto de 2022. O maior nível da série citada pela publicação havia sido registrado em outubro de 2025, quando chegou a 13,2%.

A combinação de juros elevados e endividamento dificulta a recuperação financeira de parte dos consumidores, mesmo quando há aumento da renda ou melhora nas condições de emprego.

Esse quadro representa outro desafio para o presidente eleito: estimular a atividade econômica e ampliar o acesso ao crédito sem incentivar um novo ciclo de endividamento insustentável. Medidas voltadas à renegociação de dívidas podem ajudar famílias em dificuldade, mas seus resultados dependem das condições oferecidas e da capacidade de pagamento dos consumidores.

Crescimento econômico e equilíbrio fiscal ficarão no centro das decisões

Além dos indicadores de preços, juros e mercado de trabalho, o crescimento econômico será determinante para a capacidade do governo de aumentar a arrecadação e financiar políticas públicas.

O IBGE informou que o PIB brasileiro cresceu 1,9% no acumulado de quatro trimestres até o segundo trimestre de 2026. O resultado reforça a necessidade de acompanhar o ritmo da atividade econômica durante a transição presidencial.

O cenário combina indicadores favoráveis de emprego e renda com preocupações sobre o endividamento, o custo do crédito e as contas públicas. A política fiscal será uma das questões centrais para a nova gestão, já que a trajetória das despesas e das receitas influencia as expectativas do mercado e as condições de financiamento da economia.

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