Entre o cuidado e a autonomia: mães atípicas transformam desafios em empreendedorismo na Bahia

Empreendedorismo surge como alternativa para mães atípicas diante da falta de oportunidades

Por, Liven Paula e Victor Souza.

Enquanto parte da sociedade fechou portas, o empreendedorismo abriu caminhos para duas mães atípicas na Bahia.  Costuras feitas em casa e desenhos transformados em produtos se tornaram fontes de renda e símbolos de resistência para Márcia Santos e Luma Ramos.

Márcia com algumas de suas peças de costura. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

No empreendedorismo, as duas mulheres encontraram uma forma de enfrentar a exclusão profissional, garantir o cuidado dos filhos e recuperar projetos de vida interrompidos pelas exigências da maternidade.

Durante décadas, Márcia Santos, de 51 anos, dedicou a vida ao cuidar do filho com Síndrome de Down e de outras pessoas ao seu redor. Já Luma Ramos, de 36, precisou abandonar a rotina de viagens pelo Brasil vendendo artesanato após o diagnóstico de autismo da filha. Apesar das trajetórias diferentes, as duas compartilham uma realidade comum a milhares de mães atípicas: a dificuldade de conciliar os cuidados com os filhos, a busca por autonomia financeira e a falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Enquanto Márcia passou anos sobrevivendo da ajuda de colegas da igreja e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) do filho, Luma precisou abandonar uma vida nômade para iniciar a maternidade solo e reorganizar completamente sua rotina. Em comum, as duas tiveram que colocar os próprios sonhos em segundo plano para garantir acompanhamento, terapias, educação e qualidade de vida para os filhos.

Foi por meio do empreendedorismo que ambas encontraram uma forma de reconstruir suas trajetórias. Márcia transformou a costura, aprendida de maneira improvisada ao longo da vida, em fonte de renda e independência. Já Luma encontrou nos desenhos produzidos pela filha uma oportunidade de negócio que hoje sustenta a família. As histórias se cruzam no projeto Empreender com Elas, iniciativa voltada à capacitação e geração de renda para mulheres, especialmente mães atípicas.

A atuação das duas mulheres ocorre em meio a diferentes cenários de ocupação no estado. Segundo o relatório técnico “Donos de Negócio e Força de Trabalho: Dinâmica das Taxas de Ocupação e Desocupação”, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a Bahia obteve 90% de taxa de ocupação, configurando entre os menores índices no país. 

Mas antes de se tornarem empreendedoras, as duas precisaram enfrentar preconceito, dificuldades financeiras, ausência de políticas públicas e sucessivos recomeços. As trabalhadoras se reinventaram em um contexto de chefiar suas famílias, sendo mães solos, se juntando a 20,4% das famílias baianas que são lideradas por mulheres, que criam os filhos sozinhas. 

Luma e Márcia lutaram em um cenário onde a Bahia é o segundo estado com maior proporção de mães solos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Uma vida inteira dedicada ao cuidado

Em um apartamento no bairro de Pirajá, em Salvador, Márcia divide a rotina entre tecidos, linhas, moldes na produção kimonos, biquínis, bolsas e outras peças artesanais que vende em feiras da capital baiana. Quando não está costurando, ela divide outras duas grandes responsabilidades: cuidar do filho Ítalo, de 25 anos, e de uma vizinha idosa que depende dela para tarefas básicas do cotidiano.

No entanto, o que parece ser uma rotina comum, representa uma conquista recente para a costureira. Foi somente aos 48 anos que Márcia conquistou a primeira renda própria. Antes disso, sua vida foi marcada por dificuldades, violência doméstica, preconceito e uma dedicação quase integral ao cuidado de outras pessoas.

A história começou nos anos 2000, quando Ítalo nasceu. Ainda na maternidade, Márcia recebeu o diagnóstico de Síndrome de Down acompanhado de comentários preconceituosos.

"Esses meninos ficam babando, não andam, não falam. É melhor você ter outro filho", recorda ter ouvido de uma médica.

A fala abalou profundamente a jovem mãe. Durante os primeiros meses, ela acreditou que o filho poderia morrer a qualquer momento e passou a tratá-lo de forma extremamente cuidadosa.

Há 25 anos, quando Ítalo nasceu, o conhecimento sobre a Síndrome de Down ainda era cercado por desinformação e desrespeito. Embora muitas pessoas tratassem a condição como uma doença, ela é, na verdade, uma alteração genética causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 21.

Pessoas com Síndrome de Down podem apresentar características físicas específicas e maior predisposição a algumas condições de saúde. Também costumam ter um desenvolvimento cognitivo mais lento, com neurodivergências, como explicam alguns especialistas.

A Síndrome de Down é considerada a causa genética mais comum de deficiência intelectual no mundo. No Brasil, cerca de 300 mil pessoas vivem com a condição, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao mesmo tempo em que enfrentava o impacto do diagnóstico, Márcia vivia um relacionamento abusivo. Durante três anos, ficou praticamente isolada dentro de casa. A ruptura aconteceu quando decidiu visitar a mãe, contrariando a imposição do marido.

"Eu saí escondida com Ítalo nos braços. Quando voltei no outro dia, não tinha mais nada dentro de casa. Ele pegou tudo que tinha e deu fim", contou emocionada.

Márcia e seu filho Ítalo na infância. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

Recomeçar várias vezes

Sem móveis, roupas, documentos e com um filho de apenas três anos, precisou recomeçar do zero. A mudança ocorreu em um momento complexo, onde a costureira não tinha renda e estava sem moradia. Na época, ela contou com a ajuda de membros da Igreja Adventista do Campo da Pólvora. Durante quatro anos, mãe e filho viveram em diferentes residências de integrantes da congregação. Em troca da hospedagem e alimentação, realizava serviços domésticos.

Foi nesse período que surgiu a costura. Sem dinheiro para comprar roupas, reformava peças usadas que recebia como doação.

"Eu pegava, diminuía, fazia alguma coisa", disse.

Determinada a mudar sua realidade, economizou durante anos para comprar um terreno na Ilha de Itaparica. O sonho da casa própria, porém, foi interrompido por ameaças de um homem que se dizia dono terreno. 

"Ele disse que, se eu fosse morar lá, ia me matar. Foram quatro anos trabalhando para aquilo”, relatou Santos ao Aratu On.

A situação vivida por Márcia se conecta aos números divulgados pelo Ministério das Mulheres. Somente em 2025, a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — registrou 1.088.900 atendimentos, uma média de quase 3 mil por dia, representando um aumento de 45% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram contabilizadas 155.111 denúncias de violência contra mulheres.

Os dados revelam, ainda, que a violência contra a mulher atinge principalmente mulheres negras. Elas representam mais de 43% das vítimas identificadas nas denúncias registradas pelo serviço.

Entre as formas de violência mais frequentes está a violência psicológica, que responde por quase metade dos registros, com mais de 339 mil casos. Esse tipo de agressão inclui ameaças, intimidações, constrangimentos e outras práticas que afetam a liberdade, a segurança e a saúde emocional das vítimas.

Apesar das dificuldades, a empreendedora nunca deixou de investir no desenvolvimento de Ítalo. Durante uma visita à Apae, uma cena mudou sua forma de enxergar o futuro.

"Se ele está andando e falando, meu filho também vai andar e falar”, comentou Márcia.

A partir daquele momento, ela decidiu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para estimular a autonomia do filho.

Hoje, Ítalo concluiu o ensino médio, iniciou uma graduação em Serviço Social, participa de projetos sociais e sonha em se tornar vereador de Salvador.

Márcia e seu filho Ítalo. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

Quando a costura virou independência

Apesar dos avanços e das vitórias, havia algo que Márcia nunca tinha experimentado: ganhar dinheiro por um trabalho realizado por ela mesma.

A mudança começou em 2022, quando conheceu o projeto Empreender com Elas.

"Pela primeira vez eu pensei: como assim vender as minhas coisas? Eu nunca tinha pensado em comprar um tecido para mim, costurar e fazer minhas próprias peça", observou a costureira. 

Participando das feiras promovidas pela iniciativa, passou a comercializar biquínis, roupas e acessórios confeccionados por ela. Hoje, ela produz e vende cerca de 70 peças de biquínis. 

"Eu sabia costurar, mas não tinha o estalo de que eu poderia costurar para mim. Isso veio depois do Empreender com Elas”, apontou Márcia. 

A grande virada aconteceu durante o Carnaval de Salvador. Com as vendas realizadas no período, a trabalhadora conseguiu faturar cerca de R$5 mil e comprar sua primeira máquina profissional.

"A vida inteira eu vivi do benefício de Ítalo, da ajuda das pessoas e da igreja. Quando vendi minhas peças e recebi aquele dinheiro, senti que era a primeira coisa que eu tinha conquistado por mim mesma", explicou.

Mais do que uma fonte de renda, a costura se tornou um símbolo de autonomia.

"Sabe quando você vive tantos anos para o outro? Eu estou aprendendo agora a cuidar de mim”, elencou. 

Hoje, cercada por tecidos e criações próprias, Márcia define a costura como uma forma de cura: "Quando eu estou triste, quando alguma coisa não dá certo, eu sento na máquina e começo a criar. A costura virou uma terapia para mim”. 

Mas ainda assim, para Márcia, além da conquista e sucesso como empreendedora, outra importante marca é o caminho dado pelo filho.

"Eu só tenho um sentimento: eu venci. Meu filho tem 25 anos. A maioria das pessoas da idade dele não sabe ler, e Ítalo sabe. Ítalo concluiu o ensino médio, iniciou a faculdade. O importante é que eu consegui. O que a médica falou que não ia acontecer, não aconteceu”, celebrou a costureira. 

Márcia durante costura. | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

Uma nova vida através da arte

Outro enredo, neste mesmo molde e cenário, foi protagonizado por Luma Ramos. A sua trajetória foi marcada por mudanças profundas. Antes de se tornar empreendedora, ela vivia viajando pelo Brasil vendendo artesanato. 

"Antes de ter Maria Flor, eu era hippie. Vivia nas ruas vendendo artesanato, conhecendo o Brasil através da arte e da cultura de rua”, afirmou. 

O que parecia ser uma vida repleta de viagens e aventuras pelo país, se tornou surpresa, quando Maria Flor recebeu o diagnóstico de autismo, com dois anos e três meses de idade.

O impacto do diagnóstico, foi tanto, que levou Luma a um quadro de depressão, exigindo que ela se reinventasse longe da sua vida de “nômade” pelas ruas. A partir daquele momento, a família de Luma se somou a população diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Bahia. Somente no estado, 144.928 pessoas foram diagnosticadas com autismo, segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022.

O levantamento apontou ainda que o estado tem a 4ª maior população diagnosticada com autismo no país. Salvador é a cidade com o maior número de pessoas diagnosticadas com autismo, seguida por Feira de Santana e Vitória da Conquista. 

“Quando voltei para à Bahia para visitar meus familiares, o pessoal notou algo diferente nela: só atendia e reagia quando eu chamava ela. Não respondia os nossos parentes.. As pessoas achavam que ela tinha problemas de audição. Levei ela no médico e só depois de muito tempo recebemos o diagnóstico de autismo dela, com 2 anos e 3 meses. E para mim foi um choque. Sai um pouco da minha realidade. Entrei em depressão porque tinha outra concepção do que era o autismo. Nunca tinha convivido com pessoas autistas”, comentou Ramos. 

“Isso me fez sair um pouco da minha realidade. Entrei em depressão depois disso, pois a gente vivia nas ruas vendendo artesanato, viajando”, completou. 

Em meio ao impacto emocional, a artesã precisou reconstruir a vida após a separação do marido, que enfrentava problemas relacionados ao alcoolismo. Na ocasião, a artesão abandonou o estilo de vida que mantinha até então e começou uma vida nova. A oportunidade de empreender surgiu por meio dos desenhos produzidos por Maria Flor.

"Ela desenha desde os três anos. Eu postava os desenhos nas redes sociais e as pessoas começaram a me incentivar a colocar as ilustrações em camisetas”, explanou 

A empreendedora explicou que a verdadeira artista de todas essas obras é sua filha e que ela materializa a arte da garota. 

“Tomei o curso de serigrafia e passei a pintar o que ela produzia, a arte e os personagens dela. Ela não só desenha no caderno, mas também no notebook e no celular. É tudo criação dela. E ela não gosta muito que as pessoas olhem ela desenhando. Deixo ela à vontade em relação a isso”, reverberou. 

Após todo o sucesso da produção, o projeto ganhou repercussão, atendendo atualmente sob encomenda com envio de peças para estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. É com a loja que ela consegue ter sua fonte de renda e autonomia.

“O empreendedorismo e conhecer mais sobre o autismo mudaram uma parte de mim também. Hoje consigo, ao mínimo, alcançar R$2.000 com as camisas. Eu poderia nem estar aqui hoje pelas situações na qual já vivi na vida também nas ruas e com ela [Maria Flor] também”, comemorou.  

=Luma Ramos e sua filha Maria Flor. | Foto: Acervo Pessoal

Um projeto que conecta histórias

O projeto Empreender com Elas apareceu na vida de Márcia e Luma de maneira semelhante. Ambas conheceram a iniciativa durante as feiras e por meio da indicação de outras mulheres.

Idealizado por Daiane Pina, diretora de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência do Município de Salvador, o projeto foi pensado em 2022 e começou a funcionar no ano seguinte

A iniciativa surgiu a partir das dificuldades enfrentadas por mães atípicas para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, especialmente aquelas que dependem exclusivamente do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O projeto oferece cursos gratuitos nas áreas de beleza, gastronomia, moda, telemarketing e produção de conteúdo digital. Além da qualificação profissional, as participantes recebem apoio para expor e comercializar os produtos. Segundo Daiane, o projeto disponibiliza gratuitamente estrutura como barracas, espaço nas feiras, acessibilidade e alimentação para as expositoras.

"A gente não dá dinheiro nem recebe dinheiro. Tudo é feito gratuitamente", explica.

Desde a criação, mais de 5.300 pessoas já foram capacitadas por meio de 116 cursos.

Empreendedorismo feminino em crescimento

As histórias de Márcia e Luma refletem uma tendência observada em todo o país.

Dados do Sebrae, com base em informações da Receita Federal, mostram que, em 2025, foram abertos 4,96 milhões de novos microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e empresas de pequeno porte. O número representa 96% de todos os negócios formalizados no período.

Mais de 2 milhões desses empreendimentos foram liderados por mulheres, o equivalente a cerca de 42% do total. Entre os pequenos negócios, as microempreendedoras individuais responderam por 1,6 milhão de novos CNPJs.

Além disso, o painel do DataSebrae sobre Empreendedorismo Feminino, apresentou que 692,2 mil mulheres são donas de negócios na Bahia. O número registou uma variação de 6,4% em comparação ao ano de 2012. 

Desafios que ainda permanecem

Apesar das conquistas, a realidade das mães atípicas continua marcada por obstáculos.

Luma relembra dificuldades para encontrar acolhimento em instituições de ensino e destaca a falta de suporte para que mães possam trabalhar enquanto os filhos permanecem em ambientes seguros.

Além da superação, por meio do empreendedorismo, Márcia e Luma compartilham também desafios no cotidiano de mães e empreendedoras. Luma, por exemplo, relembrou, que em meio a rotina de negócios com sua filha, passou por experiências em não recebeu acolhimento de escolas particulares 

“Minha filha precisou passar por duas escolas diferentes. As escolas desde pequenas não aceitavam ela e não cuidavam dela direito”, afirmou. 

Maria Flor, filha de Luma Ramos. | Foto: Acervo Pessoal

Mais do que renda

Embora tenham histórias diferentes, Márcia e Luma chegaram ao mesmo destino: a busca por autonomia.

Para ambas, o empreendedorismo representa mais do que uma fonte de renda. É uma oportunidade de construir uma identidade para além do papel de cuidadoras.

Depois de décadas dedicadas aos outros, Márcia resume a própria trajetória em poucas palavras: "Eu venci".

Já Luma segue transformando os desenhos da filha em arte, renda e futuro. Luma defende a importância de iniciativas como o projeto municipal "Empreender com Elas" do qual participa, ressaltando que o empreendedorismo funciona como uma válvula de escape e geração de renda, além do impacto social trazido pela ação.

“As oportunidades são bem-vindas. Porque é um momento de válvula de escape. Além do empreendedorismo, é muito importante divulgar nosso trabalho, nossa arte e ter essa renda”, classificou Menezes. 

Duas histórias distintas que revelam a força de mulheres que, mesmo diante das dificuldades, encontraram maneiras de reescrever a própria vida sem deixar de cuidar de quem mais amam.

Depois de décadas dedicadas aos outros, Márcia resume a própria trajetória em poucas palavras: eu venci. | | Foto: Bruna Castelo Branco/Aratu On

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