Uma caixa-preta aberta na Flipelô
Não houve desastre e nenhuma investigação foi iniciada, mas Jeovanna Vieira trouxe para a 10ª edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) a sua caixa-preta já aberta, transbordando emoção, num tom laranja impossível de não ser notado, pedindo para ser decodificada pelos leitores. Desde a estreia da capixaba com "Virgínia Mordida", toda a tripulação esperava ávida por mais uma história arrebatadora. E ela veio. Indestrutível, irresistível, registrando nossa queda livre rumo ao encantamento.
A trama de "Toda Caixa-Preta é Laranja" gira em torno do desaparecimento do pai da protagonista e da saga da filha para encontrá-lo. Tudo acontece às vésperas de ela se mudar para Dubai e se tornar a primeira mulher a pilotar o maior avião de passageiros do mundo. As visitas a hospitais, delegacias e necrotério; as buscas em ruas, becos, vielas, esquinas e bares; e a tentativa desesperada de pedir ajuda a um miliciano carioca já dariam um bom caldo narrativo. Mas Jeovanna quis mais.

O sumiço é apenas o pano de fundo para que outras histórias - todas interligadas - sejam contadas. À medida que a leitura avança, vamos sendo apresentados às personagens que orbitam a relação entre pai e filha. Cada uma desempenha um papel importante nessa dinâmica pavimentada pelo amor, mas também impregnada por traumas, dores, ausências, arrependimentos e culpas.
Com a maestria que lhe é peculiar, Jeovanna nos entrega um entrelaçado de histórias e em todas elas as consequências nocivas das feridas que teimam em não cicatrizar. É fácil se identificar, é angustiante acompanhar a evolução do enredo, é perversa a inevitável tentação de imaginar o que de fato aconteceu e é ainda mais difícil processar o último ato dessa obra-prima.

Depois de levar seu segundo romance à FLIP, Jeovanna Vieira desembarcou na Flipelô e mostrou porque é considerada uma das autoras mais talentosas de sua geração. O público disputou espaço para ouvi-la, fez filas para conseguir uma dedicatória nos livros e compartilhou impressões sobre as leituras. Já com a carreira consolidada, Jeovanna voa ainda mais alto e quem estiver com ela nesse Airbus A380 precisa apertar o cinto e ficar atento aos avisos luminosos. O que ela escreve pode gerar turbulência e fazer as máscaras de oxigênio caírem.
Toda Caixa-Preta é Laranja, de Jeovanna Vieira Companhia das Letras, 2026
363 páginas

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