Stranger Things chega ao fim com temporada morna e desfecho ousado
Winona Ryder? Icônica. As personagens criadas pelos Irmãos Duffer? Igualmente. O universo ficcional de Stranger Things é elaborado e coeso desde seu início, em 2016. Dentro de tudo isso, a última temporada da série encerra com dignidade a sua trama, mesmo que não seja com maestria.
É preciso dizer que o quinto ano da produção é instável. Em alguns momentos, existe espaço para o desenvolvimento das personagens e dos arcos narrativos que elas estão vivendo; em outros, não. Um exemplo é a trajetória de Vecna (Jamie Campbell Bower) e o amadurecimento de Holly (Tinsley Price), em A Fuga de Camazotz. No entanto, esse episódio inteiro não é assim.
Em alguns instantes, como no aparecimento de Karen Wheeler no hospital (Cara Buono) e a DR entre Robin e sua nova namorada, há desvios em relação ao desenvolvimento que ocorre com os outros dois núcleos. Isso porque soam como repetitivos ou uma saída fácil para o conflito de Max. Essas escolhas tendem a desfavorecer o que há de bom em cada cena. E isso não acontece apenas durante o 5x06, mas ao longo de toda a temporada.
É compreensível que seja desafiador conectar e desenlaçar a trama de cada núcleo. Contudo, algumas histórias foram trabalhadas com mais cuidado e eficácia, enquanto outras não. O desfecho de Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), o resgate de Holly e a relação de Jane/Eleven (Millie Bobby Brown) com Hopper (David Harbour) foram pontos altos do quinto ano de Stranger Things.
Já o espaço para Joyce Byers (Winona Ryder) quase não existiu, e sua participação se resumiu a frases de impacto de quando em quando. Todos os outros coadjuvantes passaram por irregularidades narrativas, sendo que figuras como Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) nem soavam como eles mesmos em certas passagens.
Ainda assim, este é um elenco comprometido com o resultado. Apesar dos tropeços do roteiro, os atores demonstraram fé cênica em seus corpos e vozes. A única atriz que destoava completamente do restante é Millie Bobby Brown. É inacreditável como uma artista tão jovem e talentosa pode estar tão exausta.

Alguma coisa aconteceu com Millie, talvez cansaço. Independentemente do motivo, é chocante o quanto a presença de Eleven é frágil na tela. As expressões faciais de Bobby Brown são as mesmas o tempo inteiro e soam artificiais. Com exceção da sequência da morte de sua personagem, todo o restante é decepcionante.
Faltou energia para Millie, mas não para a direção do seriado. Shawn Levy e seus colegas — pois a produção conta com diversos profissionais envolvidos neste setor — trazem vigor para a encenação. Há aqui uma consciência profunda do universo ficcional que foi criado há dez anos. Apesar de a montagem acelerar e cortar um pouco a fluidez do que Levy e cia. criaram, é notável como a movimentação de câmera e os quadros são escolhidos com cuidado.
O mundo de Camazotz é requintado. As imagens transmitem o que acontece com Holly e seus amiguinhos. As seleções de planificação e deslocamento das personagens são pistas para o que ocorre com as crianças e como elas irão escapar da emboscada de Henry/Vecna. Mas o Mundo Invertido (MI) não fica muito atrás.
A maneira como os diretores são fiéis à geografia de Hawkins e mesclam a isso a atmosfera distópica do MI faz com que a tensão se estabeleça e se mantenha durante cada episódio. Há muita coragem e criatividade nos cineastas que dirigiram o quinto ano da série. Todavia, os Irmãos Duffer, criadores da obra, pareciam com medo de errar até a season finale.
Ali, sim, riscos foram tomados. O encerramento da produção é perigoso porque muitas crianças ou pessoas muito jovens são fãs desta história. Pessoal, esse desfecho não é para crianças. Não fiquem magoades. Ele é esperançoso e cruel ao mesmo tempo, logo, maduro. Com essa mistura, sentimentos ambíguos podem aparecer no coração do fandom.
Eleven não é condecorada nem casada com Mike, com dois nuggets. Não há medalhas para os adolescentes, e todos eles tiveram perdas abismais. Pouco importa se El sobreviveu ou não, porque o que ela conquistou após conhecer seus amigos é mais forte e poderoso. Porém, o espectador geral pode sentir falta de algo mais palatável e imagético, sobretudo na sociedade atual, que ama vídeos explicativos.
O que este final consegue ser é profundo e justo com a jornada de cada personagem, porém não é simples. O fim, olhando para o começo, soa até óbvio. Ele somente não é previsível porque a Europa acostumou o mundo com contos de fadas e fez com que a busca por um happy end em tudo se tornasse costumeira.
Ainda que muitos culpem “falhas no roteiro”, a verdade é que, se Eleven tivesse terminado beijando seu boyzinho Mike, muitos sairiam mais contentes. Dessa forma, Stranger Things acaba após quase dez anos de existência. Entre altos e baixos, o seriado contribuiu com o seu mercado, vendeu bastante, porém também soube como conduzir seus processos artísticos.

*Este material não reflete, necessariamente, a opinião do Aratu On
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